Quando
eu trabalhava na Volkswagen no comando do empenho da empresa em
competições, na década de 1980, meu deslocamento pelo Sudeste, Sul e
países vizinhos era uma constante. Além de eu preferir ir de carro mesmo
aos locais mais distantes (e de gostar de sentar no banco do motorista,
obviamente), tínhamos equipamento de rádio transmissor-receptor em todos
os carros. Desse modo, complicaria um pouco arranjar um carro no
exterior (por ir de avião) e precisar me preocupar com instalação de
rádio. Por isso, todas as viagens eram feitas de carro, com exceção do
Chile, pois perderia muito tempo.
Por viajar muito, requisitei como carro de serviço confortável e rápido
o Santana CD. Mas houve outro motivo para escolher a versão
topo-de-linha: os cintos de segurança laterais traseiros de três pontos.
Em hipótese alguma admito passageiro do banco traseiro sem cinto atado,
muito mais por mim do que por ele: se houver uma colisão frontal, não
quero que ele seja arremessado contra mim. Meus superiores concordaram
plenamente.
O cinto do banco traseiro tem duas missões. Uma, reter o ocupante ao
banco e evitar que se arremessado para fora do carro, qualquer que seja
o motivo. Em 1999, o conhecido dramaturgo e romancista Dias Gomes morreu
no trânsito paulistano quando o táxi em que viajava bateu levemente num
pré-moldado de separação de pista. A porta se abriu e ele foi atirado ao
solo, sofrendo traumatismo craniano fatal. Uma daquelas batidas chamadas
bobas.
Há 10 anos, exatamente num 31 de agosto, o mundo ficou chocado com a
morte de Lady Diana Spencer, ex-mulher do Príncipe Charles, da
Grã-Bretanha. Um acidente automobilístico brutal na capital francesa,
cujas circunstâncias ainda não estão totalmente esclarecidas, mas que
trouxe à baila a questão do cinto no ambiente traseiro dos automóveis.
Todos os peritos e entendidos em segurança são unânimes na opinião de
que, se a princesa estivesse com o cinto atado, nada ou muito pouco
teria sofrido. Quanto mais que o banco traseiro é a parte mais segura de
um automóvel.
A outra missão do cinto, já pincelei antes, é evitar ferimentos no
motorista e no passageiro do banco dianteiro que podem ser fatais. É
incompreensível e inexplicável que o uso do cinto esteja enraizado
definitivamente no motorista brasileiro, tanto por consciência quanto
por receio de ser multado — meio a meio, eu diria —, e nem assim seja
dada a menor atenção à segurança de seus passageiros — por quem é
responsável, é bom lembrar — e, ainda pior, à própria. De quem seria a
culpa desse comportamento? Não há um, mas alguns responsáveis.
Os culpados
O começo de tudo é a quase total falta de fiscalização para que seja
cumprido o Art. 65 do Código de Trânsito Brasileiro, que determina o uso
do cinto por todos os passageiros em todas as vias do território
nacional. Certo que não é uma fiscalização fácil, mesmo que os cintos
traseiros sejam de três pontos; se forem subabdominais, é virtualmente
impossível, a menos que o carro seja ou esteja parado e um policial se
aproxime dele. O fato é que, de uma maneira geral, não se dá muita
importância à falta de uso do cinto no banco traseiro.
Outro fator gerador da falta de hábito é o táxi. É difícil imaginar um
passageiro tomar um e colocar o cinto. Muito é argumentado, inclusive,
que cinto de táxi suja a roupa, mais por falta de uso do que de limpeza
periódica — que deveria ser feita —, constituindo um sério desestímulo a
seu uso. Ninguém gosta de sujar a roupa, especialmente ao se dirigir
para um compromisso importante, não importa a natureza.
É possível também que seja uma questão de pura vingança por parte dos
que usam cinto na frente por obrigação — a outra metade a que me referi.
Por estar no banco traseiro e saber que não deverá ser perturbada por
ninguém a respeito, a pessoa simplesmente não usa o cinto.
Finalmente, aquilo que sempre ensinei (e ainda ensino) aos filhos:
preguiça mata. Dá trabalho colocar o cinto quando se está no banco
traseiro? Dá, pois em geral os fechos não são tão visíveis e/ou ao
alcance da mão que leva a outra perna do cinto, ao contrário do que
ocorre nos bancos dianteiros. Fora que é desagradável fazer isso com o
carro em movimento, pois é difícil um motorista ter paciência de esperar
que todos "na segunda classe" tenham colocado o cinto.
É incômodo? Sem a menor dúvida, em especial quando se está vestindo
paletó, além de amarrotar a roupa. Quando se dirige é normal tirar o
paletó antes de dirigir, mas fazer isso num táxi não é tão natural. E
para as pessoas obesas o cinto é um problema a mais, até no banco
dianteiro.
Por tudo isso, motorista homem ou motorista mulher, vale a pena um
esforço de tornar hábito o uso do cinto no banco traseiro. Entenda que
seu uso nesse banco é duas vezes mais importante do que na frente, como
já vimos. Pense nos casos que você talvez conheça, inclusive os de
paraplegia ou tetraplegia por lesão da medula espinhal causada por um
movimento brusco do corpo, como ocorre nas capotagens. Uma lesão dessa
natureza pode até ser resultado de golpear a cabeça contra o teto, se
uma lombada que não foi notada for transposta em velocidade normal, e
desses dejetos viários o país está repleto.
Não adianta ter o carro cheio de bolsas e cortinas infláveis se os
ocupantes não estiverem corretamente retidos em seus lugares. É preciso
entender que os cintos respondem por 80% da retenção total, cabendo às
bolsas os 20% restantes. Lembrou muito bem esse aspecto o leitor Marcos
Aurélio de Jesus num e-mail que acabou servindo de base para a coluna
desta semana.
Não há outra saída: todo mundo de cinto.
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