Acho
que há muita gente que não tem realmente o que fazer. O tal Dia Mundial
sem Tabaco (31 de agosto), por exemplo, invenção de 1987 dos estados
membros da Organização Mundial de Saúde — certamente insuflados pela
entidade que luta, em desespero, contra o que ela ridiculamente chama de
tabagismo.
Será que a OMS é tão boazinha ou magnânima assim? Será que não há outro
interesse por trás disso? Sim, porque dando uma olhada no site da
organização anos atrás deparei-me com uma notícia que diz: "Os japoneses
têm a mais longa expectativa de longevidade saudável entre 191 países,
de 74,5 anos, versus menos de 26 anos para o país colocado em último,
Sierra Leone, baseado numa nova maneira de calcular a expectativa de
vida saudável desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde".
Em outra parte do site, a das estatísticas, é informado quanto cada país
fuma por habitante em um ano. Quem está no pódio? Japão. Não é o
primeiro, mas está perto, especialmente do vice-campeão. O número 1 é a
Grécia, com 4.313 cigarros/habitante/ano, seguida da Hungria, 3.205, o
Japão na cola, 3.023. Só à guisa de informação, os Estados Unidos fumam
2.256 e o Brasil apenas 858 (saiba
mais a respeito de quanto se fuma em outros países).
Então é o caso de perguntar: se esses dados fornecidos pela própria OMS,
cruzados, mostram que o fumo não é o vilão que querem fazer crer que
seja, o que justificaria tal guerra contra os fumantes? É tudo no mínimo
intrigante. Sobretudo porque a campanha contra o cigarro apelou para o
tal do "fumo passivo", a solução encontrada pela brigada antifumo para
conseguir aliados em sua luta. Sim, porque antes as campanhas entravam
por um ouvido e saíam pelo outro, como se diz. Fumar era problema de
cada um.
Depois de o "fumante passivo" entrar em cena, mudou tudo. Aí todo
não-fumante passou a ter certeza que ia ficar com câncer do pulmão ao
respirar a fumaça do tabaco num centro comercial ou num restaurante. A
campanha pegou para valer. Teve até a piada — de muito mau gosto — de
que, se alguém podia soltar a fumaça no ar, então seria possível
urinar-se em quem estivesse fumando...
O fato é que hoje se verifica um verdadeiro e brutal patrulhamento
contra o fumante. Até cinzeiro estão tirando dos carros, como já
comentei aqui em várias ocasiões. A coisa chegou a tal ponto que a
pessoa que fuma começa a se sentir marginalizada. Outro dia na TV vi uma
dessas belezocas dizer que fumar em público é "falta de educação".
Assistir pela televisão provas de Fórmula 1 em países onde o
patrulhamento ainda não chegou — e espero que nunca chegue — dá
depressão, só de ouvir aquela vozinha falsa, "O Ministério da Saúde
adverte: fumar causa...", e aí vai junto um desfile de doenças rolando
junto na tela a cada 15 minutos: câncer de pulmão, câncer de boca,
impotência sexual, infarto do coração, derrame cerebral, enfisema
pulmonar... Devo ter esquecido alguma doença. É impressionante o que
cigarro é capaz de fazer e, entretanto, governos deixam as fábricas de
cigarros funcionarem normalmente. Se o leitor conhece hipocrisia maior,
por favor, diga-me, porque eu não conheço.
Ou então as fotos de doentes de tudo o que se possa imaginar nos maços
de cigarro, como se alguém que fuma fosse deixar de fumar por causa
delas. Seria o mesmo que ser obrigatório haver nos automóveis fotos de
acidentes no painel...
Outro dia ouvi um comentário de que o governo está cogitando de aplicar
um imposto de R$ 1 em cada maço de cigarro vendido e com isso arrecadar
para dar um jeito na saúde — ah, quer dizer que para isso o cigarro
serve! Eu até que aceitaria de bom grado pagar mais pelo meu
"tabagismo", desde que o montante arrecadado fosse realmente para essa
finalidade, pois a saúde pública no Brasil nunca esteve tão desmontada.
Mas eu sei e o leitor sabe por que o governo está tão seco atrás de
dinheiro: custear a absurda máquina administrativa que temos e que não
pára de inchar.
O fato é que o Dia Mundial sem Tabaco passa-nos a idéia de que o fumo é
o grande inimigo a combater. Nada mais idiota. Mas vem outro "dia
mundial" aí: o do sem carro.
Dia mundial sem carro
É impressionante como as pessoas perdem tempo com bobagens,
organizando e promovendo um evento como o do dia 22 de setembro, o Dia
Mundial sem Carro. Em vez de haver um engajamento objetivo, uma ação de
convencimento de que é imperativo que ponha ordem no trânsito e se crie
transporte de massa adequado, vem esse pessoal falar de... bicicleta.
Tudo bem, são veículos muito práticos, pedalar é muito agradável e
saudável, sua emissão de poluentes é zero, ocupam pouco espaço nas ruas.
Mas, entre isso e pensar na bicicleta para trajetos típicos de uma
cidade grande como São Paulo, é estar bem distante da realidade. Há
problema de chuva, problema de calor (fábricas e escritórios teriam de
ter chuveiros para as pessoas se assearem antes começar a jornada, ou o
cheiro no ambiente ficaria insuportável), de distância e de onde deixar
as bicicletas.
Há outra questão, a do ciclista, em regra, ignorar solenemente as regras
de trânsito, chegando-se ao absurdo de sugerir que rodar contramão
aumenta sua segurança. E placas de sinalização e semáforos, como ficam?
Bicicleta, sim, mas sem radicalismos de querer substituir o automóvel
por ela indiscriminadamente, como se num passe de mágica todo o problema
de transporte de massa se resolvesse. A bicicleta é mais lenta do que o
tráfego em movimento normal e, para que houvesse de fato maior
segurança, seria necessário construir uma grande malha de ciclovias, o
que seria uma ótima idéia. Mas cadê o espaço para isso?
Pior, enquanto no mundo inteiro o ciclomotor é apontado como uma das
melhores soluções para aliviar o trânsito, no Brasil o útil veículo está
fora de questão, pois é considerado veículo a motor — só maior de 18
anos pode dirigi-lo, por ser imputável, e ainda é necessário passar pela
burocracia oficial para obter a autorização para tanto. Um motorzinho de
50 cm³ cuja velocidade não excede 50 km/h. Realmente ninguém no Brasil
está interessado em resolver os problemas pela base.
Como automobilista, não posso jamais concordar com o tal do dia mundial
sem carro. O volume de automóveis e outros veículos está grande demais?
Sem dúvida, só que não podemos prescindir deles para nosso dia-a-dia. O
melhor caminho é o transporte de massa subterrâneo, e os trens
metropolitanos aqui e no resto do mundo estão aí para provar sua notável
eficiência.
Não é dia sem isso ou aquilo que vai resolver nossos problemas. Já
cansou.
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