O
título desta coluna é mera tradução da pequena obra sem palavras Tout
se complique, do cartunista francês Jean-Jacques Sempé, hoje com 75
anos. Li-a ainda nos anos 60 e suas críticas me chamaram a atenção pela
perspicácia e observação dos problemas do mundo, que tornam a vida cada
vez mais difícil e chata.
Uma das historietas, de uma página e alguns desenhos apenas, faço
questão de compartilhar com o leitor. Começa com a figura de um diretor
executivo estressado, falando em dois telefones ao mesmo tempo e um
terceiro tocando. No próximo quadro, o homem está com uma dor no peito,
sugerindo uma angina. No outro, um médico o aconselha a largar tudo e
morar no interior. Em seguida aparece o executivo tranqüilo numa
varanda, olhando as terras em volta. Depois, ele está regando uma
pequena horta. No último quadro, vê-se uma gigantesca plantação através
do vidro do escritório e nosso amigo com o mesmo estresse de trabalho,
telefones tocando.
Aqui, embora não exatamente nesse contexto, as coisas andam bem
complicadas e não há perspectiva de melhora. Por exemplo, há algum tipo
de subdimensionamento em tudo, que faz das coisas mais simples um
inferno. Rede pública de saúde, por exemplo. Nunca "na história deste
país" — expressão que Lula cunhou e que esta coluna destacou bem antes
que se tornasse notório — a população de baixa e média renda esteve tão
desassistida. O que se vê nos noticiários da televisão não é coisa de
imprensa marrom. É a mais pura realidade. Cidadãos estão morrendo por
falta de atendimento, muitas vezes porque não há ambulância disponível.
Passei por essa experiência no começo do ano, quando meu filho sofreu um
acidente, como passageiro, e foi levado para um hospital público pelo
serviço de salvamento dos Bombeiros. As coisas que vi em uma ou duas
horas enquanto tratava de removê-lo para um hospital de meu seguro de
saúde são difíceis de esquecer, apesar de ser o Hospital São Paulo, dos
mais conceituados da capital paulista, localizado na Zona Sul. A
sujeira, a falta de acomodação, gente em macas nos corredores,
equipamentos quebrados, enferrujados, falta de informação,
desorganização visível. Um quadro deprimente. Ele chegou às cinco e
pouco com um forte hematoma no rosto e até nove horas ainda não havia
sido radiografado (havia forte hemorragia, constatada no hospital do
convênio, que necessitou de extensa cirurgia, mas no fim deu tudo certo,
felizmente).
No Nordeste, há pouco, médicos entraram em greve e simplesmente pararam
de atender. Coisa da série televisiva Acredite se quiser mesmo.
Trataram do atendimento médico a pessoas da mesma maneira que mecânicos
atendendo veículos.
Relaxe...
Passando ao tema deste site, temos as rodovias. Qualquer viagem em fim
de semana prolongado é sinônimo de sofrimento. Começam os problemas já
ao sair da cidade, com todas as vias engarrafadas. O tempo de viagem
quase sempre multiplica-se por três ou quatro, quando se tem sorte.
Apesar de as pessoas presas no engarrafamento rodoviário não esboçarem
aborrecimento, não há nada mais desagradável. Vai ver que resolveram
adotar a técnica que a ministra Marta Suplicy sugeriu no auge da crise
do transporte aéreo há poucos meses...
Andar de carro, em poucos anos, passou de grande prazer a desprazer
completo. Pavimentação irregular ou esburacada, lombadas físicas por
toda parte, a grande maioria fora do padrão regulamentar e sem
sinalização, valetas. Há vigilância de velocidade onipresente, que exige
ficar-se de olho pregado no velocímetro para não ser autuado. É preciso
afivelar cinto de segurança até para rodar calmamente no bairro ou na
orla marítima, como se fôssemos crianças e não soubéssemos que devem ser
usados na maioria das situações, inclusive no banco traseiro (leia
coluna).
Há semáforos em profusão e raramente sincronizados. Ruas de repente
viram contramão na nossa cara. Faixas de rolamento absurdamente
estreitas, portanto irregulares. Minirrotatórias que de tão mínis impõem
que caminhões tenham de passar por cima da demarcação. Enfim, uma
encheção só.
Enche também nos darmos conta que, quando se abastece o carro com
gasolina, entre a quarta e a quinta parte é álcool, coisa que não existe
em nenhum outro país, nem nos vizinhos. E ainda querem que o Mercosul
funcione! Como, se nem a gasolina é a mesma entre os países-membros?
Fora que brasileiro não tem direito a comprar carro a diesel, o que faz
do Brasil uma ilha cercada de diesel por todos os lados. Basta cruzar a
fronteira para ver como tem automóvel a diesel em toda a América do Sul.
A PSA Peugeot Citroën nem produz motor a gasolina na Argentina, só a
diesel.
E a adulteração de combustíveis já é símbolo nacional. Qualquer hora
dessas vai para o brasão da República. A ponto de nossas fábricas terem
diminuído o intervalo de troca de óleo e manutenção, tipo o que era a
cada 15.000 km ter passado para 10.000 km. O que consumidores mundo
afora aproveitam, nós aqui não podemos.
Dói também ver pessoas morando sem as mínimas condições de
habitabilidade nas favelas, um problema nacional que ninguém se dispõe a
resolver, como se fosse assim mesmo e está acabado. Sai governo, entra
governo, ora é um partido no poder, ora é outro, e nada, absolutamente
nada parece ser feito para pôr um termo a esse tenebroso quadro. Agora,
vá-se ver quanto ganha um deputado, contadas todas as "vantagens", ou o
quanto foi gasto no Airbus ACJ, o nosso Força Aérea Um...
Trem, o meio de transporte de passageiros mais eficiente em custo por
quilômetro, simplesmente desapareceu no Brasil. Há uma revitalização do
segmento de carga em curso, mas o passageiro brasileiro há tempo deixou
de ter direito a esse meio de transporte altamente usado no mundo todo.
Para piorar, favelas se aproximam da linha férrea como se essa fosse um
ímã gigante. Casas chegam a ficar a centímetros dos trens. Há
alguns anos um ramal de carga foi desativado na região da Grande São
Paulo por esse motivo.
Troco: o Brasil não tem troco. O real já fez 13 anos e o momento do
troco continua a ser tenso entre comprador e vendedor. Até nas estradas
lê-se "facilite o troco" antes das praças de pedágio. Por que deveria o
cliente se preocupar em facilitar o troco? Ele tem outras coisas em que
pensar. A "falta de troco" tem nome: preguiça. Preguiça de ir ao banco
para trocar cédulas por moedas. Nada mais que isso. Não raro vêm
faltando alguns centavos no troco e o cidadão exigente precisa pedir o
complemento, o caixa não fazendo a menor questão de esconder a cara
feia.
Há coisa pior do que esse tal de MST? Gente imunda que invade
propriedades rurais, rouba, saqueia, mostra foice, finca bandeira,
marcha pelas estradas como doidos (e se arriscam caminhando no
acostamento), ocupa agências bancárias e prédios públicos sem a menor
cerimônia. Acham-se com todo o direito de praticar esses atos
criminosos. E ainda têm a cara de pau de reclamar quando tomam tiro de
algum fazendeiro. Todo mundo ainda se lembra da depredação do saguão do
Congresso Nacional ano passado por uma horda orquestrada por outra
organização criminosa, o Movimento pela Libertação dos Sem-Terra. Eu
paguei pelo conserto, como o leitor também pagou.
E que dizer da conspiração contra o cigarro? Na coluna da semana passada
falei bastante a respeito dele — 10 parágrafos, reclamou um leitor. Mas
não preciso tocar nesse assunto de novo. Hipocrisia maior que o combate
ao fumo, só mesmo certos limites de velocidade, visivelmente
estabelecidos para a administração pública faturar seus milhões.
Está complicado mesmo.
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