Abri
o jornal cedo, como sempre faço, e me deparei com uma notícia muito
triste nesta segunda-feira: a morte de Eduardo Martins. Para quem não
sabe, o Eduardo é o autor do Manual de Redação e Estilo de O Estado
de S. Paulo, obra que para o jornalista e para quem escreve é uma
ferramenta de uso diário. Ele tinha 68 anos e morreu de complicações
seguidas a um tumor na bexiga.
Conhecíamos-nos, mas virtualmente apenas. Um sabia quem era o outro e
inúmeras vezes escrevi-lhe por correio eletrônico para tirar dúvidas.
Não preciso dizer que as respostas eram imediatas. O Eduardo era também
o "juiz" das acaloradas, porém saudáveis, discussões sobre a língua
portuguesa entre meu amigo e jornalista Fernando Calmon e eu.
Ter amigos é uma das dádivas na vida e por isso causa tanta dor e
aflição. No último dia 7 fez 40 anos que Jim Clark nos deixou, num
acidente sem muita explicação numa prova de Fórmula 2 em Hockenheim. Não
cheguei a conhecê-lo, mas senti sua morte como se fosse um grande e
próximo amigo. Aliás, o meio automobilístico sentiu o mesmo. Numa escala
menor do que a sensação de perda de Ayrton Senna, que viveu numa época
em que a televisão o colocava quase que diariamente em nossas salas, mas
o fato é que a morte de Jim Clark — um bravo piloto escocês, bicampeão
mundial em 1963 e 1965 — deixou muitos brasileiros de luto. E, como
escrevi recentemente, outro amigo que foi embora e deixou um grande
vazio foi Paul Frère.
A vida do Eduardo Martins é das mais notáveis. Transcrevo-a, na íntegra,
conforme publicada no Estadão naquela segunda-feira (14/4), em matéria
de José Maria Mairink:
Morre
o jornalista Eduardo Martins
O autor do ‘Manual de Redação e Estilo’ do Estado dizia com
orgulho que o jornal fora seu único emprego
José Maria
Mayrink
Foto: Agliberto Lima/Agência Estado
Era só jornalista e foi um jornalista reclamão até o fim. Internado
desde o dia 9 no Hospital São Camilo, onde morreu aos 30 minutos de
ontem, vítima de insuficiência respiratória e de um tumor na bexiga,
entrou na UTI inconformado com o tamanho do televisor do quarto e
falando das colunas que teria de escrever quando tivesse alta.
'O Palmeiras tem de ganhar, mandem buscar minha televisão em casa',
comentou para a mulher, Maria Thereza, sua companheira de quase meio
século — 44 anos de casamento, depois de 3 anos e 7 meses de namoro
e noivado. Antes de ser entubado, às 21 horas de sábado, conferiu o
último texto publicado pela manhã no Estadinho, suplemento infantil
do Estado. 'Use Olimpíada, sem problemas', ensinava na coluna
De Palavra em Palavra.
Natural de Cáceres (MT), Eduardo Martins nasceu em 26 de julho de
1939. Aos 17 anos de idade, começou a trabalhar na Redação do
Estado, primeiro fazendo palavras cruzadas como colaborador e, a
partir de 1960, sucessivamente como redator, repórter e editor. Aos
68 anos, costumava dizer, com muito orgulho, que esse foi o único
emprego de sua vida, uma paixão profissional.
Trabalhou num período difícil para a imprensa, 'tempos heróicos',
como gostava de definir. Lembrava principalmente o período de 1974 a
1982, quando foi editor de Nacional, a seção mais visada pelo regime
militar. O Estado publicava versos de Os Lusíadas, de
Luís de Camões, para preencher o vazio deixado pelas reportagens
censuradas.
Eduardo Martins foi também editor de Economia, de Interior e de Arte
(atualmente Caderno 2), antes de passar a assistente do editor-chefe
e, mais tarde, a chefe do Departamento de Documentação e Informação
(Arquivo), cargo que ocupava ao se aposentar em junho de 2006.
Deixou o jornal, mas não parou. Além de escrever para o Estadinho,
fazia palavras cruzadas para a Agência Estado e artigos para
revistas e editoras. Ex-colaborador da Rádio Eldorado, atividade
pela qual recebeu o prêmio de melhor programa de cultura em 2001,
também dava freqüentes entrevistas para emissoras de rádio e
televisão.
Era um especialista em Língua Portuguesa. Autor do Manual de
Redação e Estilo, que o Estado lançou em 1990 com grande
repercussão, escreveu o livro Com Todas as Letras: o Português
Simplificado e uma série de seis Resumões da Língua
Portuguesa.
Para o diretor do Master em Jornalismo e professor de Ética, Carlos
Alberto Di Franco, o jornalista foi um grande profissional. 'O
Manual de Redação que ele deixou é, na minha opinião, o melhor do
Brasil', afirma. 'Presta uma ajuda eficaz sem se tornar uma
camisa-de-força.'
Eduardo Martins deixa inédita a obra Os 300 Erros Mais Comuns da
Língua Portuguesa, que seria lançada nos próximos meses.
Apaixonado pela Gramática, Eduardo Martins era um jornalista capaz
de falar durante horas sobre redação, estilo, hífens e acentuação.
(...)"
Colaborou Alexandre Gonçalves
Um grande amigo, um
grande brasileiro se foi. Seus ensinamentos sobre a Língua Portuguesa
serão perpetuados por muitos, inclusive por mim neste Best Cars e
onde quer que eu escreva. Ele era lembrado todo dia quando eu escrevia
alguma coisa e o será para sempre.
À sua esposa Maria Thereza e familiares, expresso minhas condolências e
rendo as maiores homenagens.
Que o Eduardo, esteja onde estiver, continue a nos iluminar e nos
inspirar com seus conselhos.
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