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Espero
que os leitores me perdoem por escrever mais uma vez — a terceira, só
este ano — sobre pessoas que nos deixaram. Mas colunista é isso, com o
tempo ele acaba se sentindo amigo dos leitores e a recíproca em muitos
casos (muitos mesmo) é verdadeira. Por isso, sempre há uma vontade
incontida do colunista em compartilhar sentimentos.
Desta vez, todavia, é diferente. Ao contrário de
Paul Frère (1/3) e Eduardo Martins (19/4), a
perda agora foi de alguém muito próximo, que teve uma participação
direta e intensa na minha vida: meu tio Paulo Amaral, irmão de minha
mãe.
Já citei algumas vezes o tio Paulo nestes sete anos de coluna, uma delas
o fato de ter sido quem me ensinou a dirigir. Inclusive, ele era meu
padrinho de batismo. Talvez por isso, mas não só, tivéssemos tanta
afinidade. Pudemos conviver bastante até 1962, até meus 20 anos, quando
então ele iniciou sua longa e exitosa carreira como preparador físico —
formou-se em educação física, um dos primeiros do Brasil — ou técnico de
futebol, sempre morando fora de sua cidade natal, o Rio de Janeiro,
tanto em outros estados brasileiros quanto no exterior. |
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Sua
atração pela motocicleta era de tal ordem que, sem ninguém mandar,
começou a realizar acrobacias com elas, todas Harley-Davidson. Andar de
pé sobre o banco era o que mais gostava de fazer, como uma vez em que
foi desse jeito (foto) do Leblon, na zona sul do Rio, ao centro
da cidade onde ficava o quartel da PE — claro, quando era preciso, como
ao se aproximar de um sinal, ele se agachava para acionar a sirene.
Vieram então as pirâmides de mais de 15 policiais amontoados na Harley,
como até hoje se vê nos desfiles militares no Dia da Independência, ou
os saltos de rampa, com homens deitados sob o percurso da moto no ar. As
demonstrações de habilidade do grupo de motociclistas realizavam-se no
Rio, como no Estádio do Maracanã nos dias de jogos, e também nas
cidades mais próximas. Aquilo já era mais do que suficiente para que meu
tio fosse um ídolo para mim.
Simultaneamente,
ele trabalhava nos clubes de futebol, mais no Botafogo, até que foi
designado para ser o preparador físico da seleção brasileira na Copa do
Mundo de 1958, na Suécia. Era a primeira vez que, na seleção, a função
ficava a cargo de alguém formado na profissão, e naquele ano
conquistamos nosso primeiro título mundial. O mesmo ocorreria na copa
seguinte, quatro anos depois, no Chile, quando o Brasil se tornou
bicampeão. |
Já conhecido no meio, foi convidado para dirigir o time do Juventus, na
Itália, que é mantido pela Fiat. Ele tinha 39 anos (foto). Foi quando
começou a melhor fase de sua carreira, pela qual correu o mundo
dirigindo times de futebol. Até na Arábia Saudita trabalhou, onde teve a
honra de ser o primeiro técnico brasileiro no Oriente Médio. Esteve em
vários estados brasileiros depois, dirigindo times conhecidos como o
Corinthians e o Esporte Clube Bahia, entre outros.
Sua carreira encerrou-se em 1984, aos 61 anos, passando a gozar sua
merecida aposentadoria no Rio, em meio a amigos e exercendo sua
atividade predileta: ir à praia, onde se sempre havia uma quadra de
vôlei de praia aguardando-o (foto abaixo, aos 73 anos). Infelizmente nessa
época eu já morava em São Paulo e só podia vê-lo nas ocasiões em que ia
ao Rio, para os eventos de família, embora sempre nos falássemos por
telefone. Sua grave doença descoberta há dois anos, um câncer de
próstata, não pôde ser controlada e a evolução acabou tirando-lhe a vida
no dia 1º de maio. Tinha 84 anos.
Instrutor de direção
Em 1952, o tio comprou um Citroën 11 L ano 1947. Deu em troca uma
motocicleta BMW R-50 1938 e raspou o fundo do tacho para poder ter seu
primeiro automóvel. Lembro-me muito dessa moto, com seus dois cilindros
horizontais opostos e a transmissão por cardã, um dos meus primeiros
contatos com um produto de alta tecnologia. Mais para o fim do ano,
depois que fiz dez anos, ele começou a me ensinar e ao meu irmão dois
anos mais velho a dirigir. Era preciso sentar sobre uma almofada para
poder enxergar minimamente sobre o grande volante...
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A paciência que esse tio teve comigo e com meu irmão para nos ensinar
foi ímpar. Nunca perdeu o controle quando fazíamos alguma burrada ou
demorávamos a aprender alguma coisa. Entretanto, era enérgico e fazia
tudo com total seriedade. Desde aqueles anos aprendi que dirigir é coisa
séria e que automóvel não é lugar para brincadeiras. Ele também nos
incutiu a postura de defesa ao volante, de se estar sempre preparado
para o caso de algo errado acontecer. Entre elas, ficar atento às rodas
dianteiras dos veículos, que "anunciam" quando o carro vai mudar de
direção: sempre há um tempo entre a roda esterçar e o carro obedecer,
devido à inércia.
Um dos seus ensinamentos que guardarei para o resto da vida é que
automóveis têm de ser dirigidos com suavidade, não importa se estamos
devagar ou rápido. Aprendi com ele a soltar o pé da embreagem nas trocas
de marcha sem produzir o tranco que força a transmissão e incomoda os
passageiros. Ele ensinou até a engatar a primeira, que não era
sincronizada, com o carro em movimento. Não no começo, claro, mas cerca
de um ano depois.
Muitas vezes policiais em radiopatrulhas viam aquele pingo de gente
dirigindo e se preparavam para nos parar, mas quando viam quem estava
comigo, seu colega, tudo ficava num cordial cumprimento. Quanto a mim,
morria de medo sempre. Por falar nisso, numa época em que eu, ainda
menino, andava aprontando muito, minha mãe comentou o fato com o irmão,
que ficou de fazer alguma coisa. Um belo dia estava em casa e ouvi
sirene na nossa pacata rua, na Gávea, o que nunca havia acontecido. Só
que escutei um carro parar na porta de casa e a sirene ser desligada.
A campainha tocou, fui ao portão e, para quê... Dois gigantes com aquela
farda de PE perguntaram se eu era o Bob, afirmei com movimento de cabeça
e começaram a me dar uma bronca daquelas, que eu precisava me comportar,
senão da próxima vez me levariam preso... Foi a maneira do tio querido
fazer o sobrinho se comportar bem, mandar dois colegas lá em casa. O
fato é que, segundo minha mãe, a estratégia funcionou, pelo menos por
algum tempo...
Foi mesmo um tio e tanto. Ele e a mulher sempre nos levavam, eu e meu
irmão, ao parque de diversões, ficavam lá com toda paciência até a hora
de fechar. Ele nos ensinou a nadar em vários estilos, a mergulhar das
pedras na praia do Arpoador e até nos deu noções de defesa pessoal.
Ele tinha um temperamento explosivo, brigão como só ele. Quando era
técnico do Flamengo, nos levou a um jogo no estádio do Maracanã, eu e
meu irmão ficamos na boca do túnel. De repente ele sai em disparada,
pula o profundo fosso de três metros de largura e profundidade que
separa a geral do campo e parte para cima de um torcedor que o havia
xingado. Ficamos apavorados, mas ele foi lá, fez o "serviço" e pulou de
volta para o campo, camisa e botões intactos. Em compensação, as
crianças o adoravam e vice-versa, era uma coisa linda de ver.
Tudo isso, todos esses filmes, passaram dentro de mim naquela tarde de
quinta-feira 1º de maio, nos instantes finais antes de seu sepultamento,
uma bandeira do Botafogo, o time do coração, sobre o caixão. Mesmo
sabendo que a fila está andando, que não tem jeito, fui tomado por uma
profunda tristeza. Que tio tive a ventura de ter. Quisera tê-lo
aproveitado mais.
Descanse em meio a muita paz, tio Paulo Amaral. Você merece. |