Muitos
participam hoje de algum grupo de discussão ou fórum, na internet,
facilitado pela rapidez de comunicação que a rede mundial nos
proporciona. Eu mesmo tomo parte de pelo menos um, como já disse tempos
atrás nesta coluna. E num desses grupos o que está rolando é a questão
das alavancas tipo pá atrás (ou à frente, depende do ponto de vista) do
volante de direção. Coisa do tipo ame-o ou odeie-o.
Há quem diga que a troca de marchas por alavancas no volante é o marco
divisor entre a Fórmula 1 romântica e a high-tech, que começou depois
que a Ferrari aplicou o sistema para a temporada de 1989. Não demorou
muito para que a novidade chegasse aos carros de rua, constituindo-se
num atrativo a mais — fabricantes estão sempre buscando incorporar mais
atrativos aos carros, não estão?
Na Fórmula 1 a solução é defendida pelo fato de os pilotos não
precisarem mais tirar uma das mãos do volante para trocar de marcha e,
pior, justamente a mão "boa" da maioria das pessoas, a direita. Sabe-se
que uma das maiores habilidades de Ayrton Senna era efetuar trocas de
marcha mesmo nas curvas segurando o volante com a mão esquerda,
justamente sua mão de maior precisão por ele ser canhoto.
Outro aspecto importante da troca de marcha pelas alavancas de volante
num carro de corrida é o tempo em que cada marcha é usada, devido tanto
à potência quanto à relação peso-potência muito baixa e também em razão
do escalonamento de marchas bem fechado,
em que há pouca diferença entre as marchas. Basta observar na TV o
piloto ir trocando e constatar como esse tempo é muito pequeno. Nesse
caso, tirar a mão do volante a cada troca é bem inconveniente.
Já num carro de rua, mesmo os mais potentes e os de seis marchas — sete
ainda são poucos e só há um câmbio de oito, o da Lexus, marca da Toyota
—, fica-se bastante tempo acelerando numa marcha até chegar o momento de
trocar para a próxima. Não importa se é um câmbio automático
tradicional, com possibilidade de trocas manuais seqüenciais, ou um
manual robotizado com a função automática que todos trazem, em que o
motorista escolhe como quer dirigir em ambos os casos.
É aí que vem a grande discussão: para quê, qual a vantagem da troca de
marchas pelas alavancas de volante num carro de rua?
Videogame
Está claro para muitos, nos quais me incluo, que num carro de todo
dia trocar marchas por essas alavancas tem ar exclusivo de videogame,
uma coisa a mais para o motorista brincar enquanto dirige — brincar de
piloto — e mostrar vantagem para os amigos, como bem mostra o comercial
de TV do Fiat Stilo Dualogic. Alguns podem argumentar que é prático na
hora de um sufoco, quando se precisa reduzir marchas rapidamente, o que
cai por terra quando se sabe que a maneira mais eficaz de baixar a
velocidade em qualquer veículo atual é pelo freio, que sempre é bem mais
potente do que o motor e seu efeito frenante.
Há também que se considerar que o controle eletrônico dos câmbios
automáticos ou manuais robotizados
chegou a um ponto tal de desenvolvimento, que se conseguem proezas de
troca de marchas inimagináveis até dez anos atrás ou pouco mais.
Literalmente faz-se isso hoje com o pedal do acelerador. A lógica dos
câmbios modernos é de tal ordem que eles "entendem" o que o motorista
quer fazer. Essa característica é realçada de maneira impressionante
quando se usa a função "S" (esporte) nas caixas automáticas de qualquer
tipo.
Outra função associada ao aspecto "videogame" é a adoção cada vez maior
da aceleração interina automática a cada redução de marcha, que muitos
descrevem erroneamente como punta-tacco.
Essa técnica de dirigir é famosa e até charmosa, além de denotar
habilidade e conhecimento acima da média por parte do motorista. Costumo
chamar o "punta-tacco" de "Operação engana-Deus", pois com os dois pés
que o Criador nos deu conseguimos acionar três pedais...
A aceleração interina com o pé fora da embreagem era essencial para
engatar marchas nos câmbios manuais sem
sincronização em simultâneo ao uso do freio, como numa aproximação
de curva. No tempo dos freios a tambor de baixa eficiência, era mesmo
aconselhável usar o freio-motor para ajudar na diminuição de velocidade.
Ao mesmo tempo, essa breve aceleração servia para igualar rotação do
motor com a velocidade do carro, quando a marcha inferior fosse engatada
e o pedal de embreagem liberado, de maneira a evitar tranco ou mesmo
freada indesejável das rodas motrizes.
Hoje, com as caixas sincronizadas ou automáticas, a aceleração interina
serve apenas para evitar os efeitos descritos acima e cada vez mais as
caixas automáticas trazem essa função, tornada possível pelo
acelerador de comando elétrico, que
promove essa rápida aceleração sem interferência do motorista. Ou seja,
o motor acelera sozinho.
O que acontece então é que a operação manual, em uma caixa automática ou
manual robotizada, tem o propósito único de proporcionar diversão ao
motorista, em especial se ele quer brincar de piloto de carro de
corrida. Até se justifica essa solução no caso de alavancas no volante
de carros esporte, como os Ferraris atuais e o recente Alfa Romeo 8C
Competizione, pois são carros que têm uma finalidade específica, a de
divertir. Mesmo assim dispõem de função de trocas automáticas. Mas num
carro de rua para o dia-a-dia é um item de videogame, apenas isso.
Pior, quando o motorista se imbui do espírito de piloto e começa a
realizar as trocas "esportivas", pode se frustrar ao esperar uma redução
e ela não ocorrer, pois esses sistemas possuem salvaguarda para evitar
excesso de rotação nas reduções, capaz de danificar seriamente o motor.
Aí vem a sensação de "carro solto" na curva que muitos entendem como
prejuízo à segurança, quando não é nada disso.
Um carro não fica mais seguro se entrar numa curva com uma marcha
engatada. É apenas mero atavismo, do tempo que o freio-motor era
essencial para se conseguir diminuição de velocidade. Se a marcha não
entrasse era problema sério. Jackie Stewart, o escocês tricampeão
mundial de Fórmula 1, já disse que, quando um piloto explica que rodou
porque a marcha não entrou, é porque ele estava rápido demais. Rodaria
de qualquer maneira...
Deixemos as trocas de marcha por alavancas atrás do volante para os
carros de corrida e os esporte de elevado desempenho, que justificam a
solução. A Mercedes-Benz também chegou a essa conclusão e eliminou o
sistema nos novos Classe C.
Com automóvel não se deve brincar.
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