Danica
Patrick entrou para a história do automobilismo ao vencer, no último fim
de semana, a terceira etapa do campeonato da Indy Car, disputado no
Motegi Twin-Ring, ao norte de Tóquio. E tornou-se a primeira mulher a
vencer em uma categoria internacional de monopostos.
O feito de Danica ocorreu de modo inusitado pela situação da corrida,
que teve duas etapas válidas pelo mesmo campeonato no mesmo fim de
semana, disputadas em carros e continentes diferentes. A outra etapa foi
disputada em Long Beach, na Califórnia, naquela que ficou conhecida como
a despedida da Champ Car.
Também peculiar foi a situação da prova, que foi decidida na escolha da
estratégia. A corrida não teve bandeiras amarelas nas últimas 50 voltas.
Com isso, os pilotos que vinham dominando — Scott Dixon, Tony Kanaan,
Ryan Briscoe e Dan Wheldon — foram forçados a fazer um reabastecimento
nas voltas finais. E, por isso, pilotos como Hélio Castroneves e a
própria Danica, que apostaram em não reabastecer, puderam chegar à
frente dos adversários.
Mesmo a ultrapassagem de Danica sobre Hélio foi curiosa, já que o
brasileiro, forçado a reduzir o ritmo para economizar as últimas gotas
de combustível, não fez nem menção de defender sua posição contra a
americana. Danica liderou apenas as duas últimas voltas da corrida — as
duas mais importantes — e terminou à frente.
É um feito importante? Claro. Mas sem exageros, por favor. Por exemplo,
leu-se que a vitória de Danica tinha a mesma importância da obtida pela
alemã Jutta Kleinschmidt no Rali Dakar de 2001. Não é para tanto. Talvez
houvesse alguma comparação se Danica tivesse vencido a 500 Milhas de
Indianápolis. E isso se apenas considerarmos a importância dos feitos,
não a dificuldade — que no Dakar é infinitamente maior.
Mesmo quando se trata de mulheres vitoriosas ao volante, o feito de
Danica não é inédito. Não podemos nos esquecer de Michelle Mouton,
francesa que venceu quatro provas no Mundial de Rali, no
Grupo B, no início da década de
1980 comandando o lendário Audi
Quattro.
Comecemos pelo começo. Esta é, sim, uma vitória importante. Para Danica,
para a Indy e até mesmo para as moças no esporte.
Em primeiro lugar, falemos da categoria. Nada melhor que um fato novo
para aparecer na mídia. E a vitória de uma mulher em uma categoria de
nível internacional é um fato interessante, que ocupa as manchetes. Como
estamos às vésperas da 500 Milhas — que, convenhamos, é o que mais
importa na categoria —, isso pode servir como mais um fator positivo na
promoção do evento.
Com a vitória, Danica deixa de ser vista apenas "um rostinho bonito do
esporte" e passa a ser mais respeitada por seu trabalho como piloto. Num
meio tão machista como o do automobilismo, não deixa de ser uma ótima
notícia para ela, que não mais precisará ouvir comentários machistas de
seus colegas, responder a perguntas engraçadinhas de jornalistas ávidos
por manchetes fáceis, ou ver na imprensa fotos suas em trajes mínimos
apenas para aumentar as vendas.
Enfim, talvez este feito reduza um pouco o preconceito com relação a
ela. E até inspire outras garotas a entrarem neste mundo, reduzindo o
machismo em uma das últimas fronteiras quase que inexploradas pelas
mulheres.
Pessoalmente, eu também tinha algumas dúvidas com relação à qualidade de
Danica enquanto piloto. Achava que era a melhor piloto mulher da atual
geração da Indy — em comparação com Milka Duño e Sarah Fischer —, mas
não acreditava que ela seria capaz de vencer na categoria, mesmo com uma
equipe de primeira linha lhe dando suporte. Ou seja, em terra de cegos,
quem tem um olho é rei. No caso, rainha.
Kournikova
Pois bem. Para queimar a língua deste comentarista, este é um fato —
e contra fatos não há argumentos. Não falo isso apenas pela vitória: ela
vem obtendo bons resultados e demonstrando qualidade na competição. Mas
a vitória é um marco importante.
Assim, fazendo uma analogia com o tênis feminino, Danica abandona a
semelhança com a imagem que as pessoas tinham da soviética Anna
Kournikova, que era uma boa tenista, mas ficou mais conhecida por ser
tenista e modelo. Kournikova nunca venceu um título de simples da WTA, a
entidade que gere o tênis feminino, mas era uma das mais bem-remuneradas
por suas aparições publicitárias.
Os especialistas dizem que Anna era uma tenista talentosa, mas não tinha
foco em sua atividade e por isso não conseguia vencer. No fim das
contas, suas aparições como modelo se tornaram mais importantes do que
as como jogadora de tênis. E, no fim, o tênis acabou virando um hobby
para a russa.
Claro que Danica ainda tem de conquistar muito mais do que isso para que
deixe de ser "o rostinho bonito que enfeita as entrevistas e o anuário
da Indy Car". Mas isso é possível. Um exemplo de como pode acontecer é
Maria Sharapova, que começou como a sucessora de Anna Kournikova, mas
conseguiu se desvencilhar dessa imagem após se consolidar como uma
tenista de altíssima qualidade. Hoje, Sharapova não é conhecida apenas
por ser uma tenista bela, mas também por seu respeitável cartel.
Para Danica, isso acontecerá no momento em que ela deixar de ser vista
apenas como um instrumento de marketing, por sua beleza, e passe a ser
mais respeitada como piloto, vencendo corridas. Se as vitórias passarem
a ser rotina, as pessoas passarão a se preocupar apenas com seu talento
ao volante. É o que aconteceu, guardadas as devidas proporções, com
Lewis Hamilton, conhecido apenas como "o primeiro negro a chegar à
Fórmula 1" antes de mostrar suas credenciais.
Claro que, agora, ela terá de manter a imagem de piloto vencedora. Mas,
sabendo o caminho das pedras, fica mais fácil. E, se o trabalho for bem
feito, ainda pode abrir espaços para outras moças no automobilismo.
Tanto no momento em que inspira mais meninas a resolverem trilhar seus
passos no automobilismo, quanto no momento em que mostra que as mulheres
podem ser pilotos competitivos — e não apenas um golpe de marketing da
Indy Car, da Honda ou da Andretti-Green.
Se mais moças chegarem ao automobilismo de ponta, ouviremos cada vez
menos as referências preconceituosas dos machistas, que as acusam de
dirigir pior que os homens. Com exemplos de que elas podem ser
competitivas com eles atrás do volante, aqueles que têm esse tipo de
pensamento infeliz terão cada vez menos argumentos para acharem que
estão certos.
E, por isso mesmo, fica a torcida deste colunista. Que venham muitas
outras vitórias, e que as mulheres cheguem em peso ao automobilismo.
Elas merecem.
|