Vinte
é um número um tanto cabalístico para a Fórmula 1. E ele volta a
assombrar a categoria neste Grande Prêmio da Turquia, a ser disputado
neste domingo (11). Com o fim da simpática equipe Super Aguri, anunciado
nesta semana, a F-1 volta a ter 20 carros formando o grid de largada a
partir desta etapa. Uma situação que não acontecia desde o GP da China
de 2005. Naquele momento, a categoria vivia momentos de tensão com o
iminente final da Minardi que, como sempre, estava em dificuldades
financeiras. Pela primeira vez em muito tempo, a Fórmula 1 corria o
risco de ter um grid formado por apenas 18 carros.
No fim, tudo deu certo e a categoria escapou do risco de ter menos de
duas dezenas de carros alinhando para uma corrida. Primeiro, porque a
Minardi não fechou as portas. A equipe italiana foi comprada pelo grupo
Red Bull e transformada no que hoje é a Toro Rosso. Não surpreendeu
porque Didier Masteschitz, dono do grupo Red Bull, procurava uma equipe
onde pudesse colocar os destaques que surgiam em seu programa de
desenvolvimento de pilotos, que começava a dar frutos. Paul Stoddart
procurava um novo dono endinheirado para sua equipe. O casamento, se não
era inevitável, também não surpreendeu àqueles que acompanham a
categoria.
Além disso, em outra movimentação um tanto surpreendente, Aguri Suzuki
também anunciava naquele fim de ano sua entrada na principal categoria
do automobilismo mundial. A estréia do japonês não impressionava tanto
pela entrada em si, que sempre foi acalentada como um sonho do
ex-piloto, mas pelo imediatismo da empreitada — que alinharia já no
começo da temporada de 2007.
Evidente que este imediatismo era necessário. Era preciso dar um carro
para o japonês Takuma Sato, depois de sua dispensa um tanto atribulada
da Honda — nem tanto por sua saída, mas pelos protestos que surgiram no
Japão, já que vinha fazendo um bom trabalho. Mas sua saída da equipe
principal era justificada, já que Rubens Barrichello, seu substituto,
era visto como um piloto capaz de levar a Honda ao patamar de equipe de
ponta. Como sabemos, isso não aconteceu e, com o fim da Super Aguri, o
fantasma de Sato volta a incomodar a Honda — e Barrichello, cujo
contrato se encerra no fim do ano.
Assim, em vez de largar com 18 carros no GP do Bahrein de 2006, a
categoria começava aquela temporada com 11 equipes e dois carros a mais
do que no encontro anterior. É evidente que todos ficaram muito felizes,
já que a categoria escapava do cenário desolador de ter sua decadência
explicitada na falta de competidores, e a vida seguiu. No último fim de
semana, porém, o circo da Fórmula 1 recebeu a notícia de que a Super
Aguri não corre mais na categoria. Talvez a novidade não surpreenda: era
sabido que as dificuldades financeiras da equipe de Aguri Suzuki eram
bem sérias — restavam até dúvidas se a equipe conseguiria participar da
temporada.
Até que conseguiu. E, apesar de Takuma Sato e Anthony Davidson não
poderem extrair muito de seus bólidos, nem pensar em ter um desempenho
competitivo, pelo menos a equipe alinhou de forma digna em quatro etapas
do Mundial. O que motivou o fim da equipe, mesmo no momento em que
conseguiu um investidor — o grupo alemão Weigel —, foi a recusa da
equipe Honda em continuar a ajudar sua equipe filial. A equipe oficial
da marca japonesa vive um momento de reestruturação, em que pretende
concentrar esforços no desenvolvimento de seu carro.
Com isso, não sobraria espaço para uma equipe filial, cujo intuito era
apenas o de dar um carro para que Takuma Sato pudesse participar da
categoria. E dar alguma cancha para Anthony Davidson, piloto protegido
da marca que nunca teve chances na equipe principal. Na primeira
oportunidade de encerrar o projeto “alternativo”, a Honda tirou o time
de campo e deixou a Super Aguri sem alternativas, a não ser o anuncio de
seu dono de que estava baixando as portas.
Uma nova batalha
Pois bem. O mundo gira, a Lusitana roda, e não será pelo fim da
Super Aguri que a Fórmula 1 vai perder sua graça ou sua função. O show
tem que continuar, mesmo com 20 carros alinhando no grid — e algumas
equipes vêem o lado bom do fim da Aguri. A mais óbvia é a Force India,
que assim vê o fim de sua maior adversária pela disputa da décima
posição no Mundial de Construtores, que ainda rende uma grana —
referente aos direitos de transmissão de TV da categoria.
Além disso, juntamente com a McLaren (última colocada do Mundial do ano
passado, devido à punição referente ao escândalo de espionagem), a Force
recebe mais um boxe nos paddocks de circuitos como o de Istambul. É uma
boa noticia, já que estas duas equipes deixam de se apertar em dois
boxes e agora tem três, como todas as demais. Sem contar a imprensa
inglesa, que precisará percorrer uma distância menor entre o boxe da
McLaren e as salas de imprensa dos circuitos — que normalmente ficam nas
torres de controle das pistas, próximas ao pódio e aos boxes das equipes
em melhores posições no Mundial anteriore.
Mas há uma encruzilhada para a categoria. A questão é que os custos da
Fórmula 1 têm aumentado de forma exponencial. E o que parece é que o
tempo passou, mas a categoria não evoluiu — pelo menos, não viu que o
mundo mudou. Agora, a F-1 vive o dilema da renovação do Pacto de
Concórdia, que rege sua questão comercial. Neste momento, o acordo em
vigência não clarifica exatamente o que é um construtor. Assim, mesmo
que o entendimento seja que cada equipe tenha que construir seu próprio
carro, nada impede que uma terceira empresa faça um projeto e o repasse
para duas equipes — a principal e a filial. Isto é exatamente o que
acontece com a Red Bull e a Toro Rosso.
No novo acordo, as equipes como Williams e Force India impedem que este
tipo de operação exista — o que inviabilizaria equipes como a própria
Toro Rosso e a entrada de novas equipes. Afinal, todas as que disputam o
Mundial teriam que ter seus próprios túneis de vento (para testes de
aerodinâmica) e equipes de engenheiros, sendo obrigadas a desenvolver os
carros de forma individual.
É uma medida que não ajuda em nada a entrada de novos participantes. Uma
equipe novata teria que investir cerca de 300 milhões de euros apenas
para começar a construir seu carro. Existem iniciativas de corte de
gastos? Até existem, como limitação de testes e unificação do
fornecimento de algumas peças, como centrais eletrônicas e pneus. Mas
estas atitudes são apenas paliativas, já que a exigência de estudos
aerodinâmicos e de novas tecnologias — como o KERS, reaproveitamento de
energia cinética das frenagens na retomada de velocidade — começam a
aumentar.
Sabemos que não é qualquer um que tem este dinheiro em caixa para
investir num projeto — que pode ser a fundo perdido. E também sabemos
que não é todo fabricante que está interessado em entrar na Fórmula 1.
Veja que, por exemplo, com a perspectiva da aprovação deste Pacto de
Concórdia, o grupo Red Bull já anunciou que vai se desfazer da Toro
Rosso. É outra equipe que pode fechar as portas num futuro não tão
distante.
Assim, fica a pergunta. Será que a Fórmula 1 conseguirá sobreviver com
todas estas novas exigências? Será que o sonho de Bernie Ecclestone de
ver um campeonato com inúmeros fabricantes, sem que haja categorias
concorrentes, vai se realizar?
São perguntas que serão respondidas apenas no longo prazo. Quem viver
verá.
|