Flerte com o azar

F-Truck em Interlagos, que contraria normas técnicas,
é exemplo de como são tratados os circuitos no País

por Marcio Kohara

Neste domingo (6) a Fórmula Truck disputará sua quinta etapa da temporada de 2008, no circuito José Carlos Pace, no bairro paulistano de Interlagos. São esperadas 60 mil pessoas para assistir à corrida, um dos eventos que mais atrairão público para o autódromo de São Paulo neste ano — atrás da Fórmula 1 e de eventos culturais que normalmente são lá realizados.
 
É a volta triunfal da Truck à principal pista brasileira. Interlagos recebe a Fórmula 1 e, portanto, é o circuito mais importante do cenário nacional, o que dá certo charme à categoria. Sem contar que boa parte da indústria que investe na Truck — como fabricantes de caminhões e de peças de reposição — está sediada na capital paulista e em seus arredores. Ou seja, a etapa paulistana tem grande importância também em nível promocional. E, para sacramentar esta volta da Truck a São Paulo, na última semana foi inaugurado o viaduto que leva o nome do criador da categoria — Aurélio Félix, morto no começo do ano — numa área de grande movimento da capital paulista.
 
Só um detalhe
Como o amigo leitor do Best Cars deve se lembrar, no ano passado a pista paulistana ficou fechada por cinco meses, para que uma reforma completa fosse realizada. Além disso, foram investidos cerca de seis milhões de reais do meu, do seu, do nosso dinheiro na reforma do asfalto.

De forma até surpreendente, o serviço ficou bom. E a pista, como poucas vezes aconteceu na história da Fórmula 1, não foi criticada por suas irregularidades. Pelo contrário, foi até elogiada. Longe de parecer a mesma pista cujas trepidações, uma vez, chegaram a fazer com que os aerofólios dos Saubers de Mika Salo e Pedro Paulo Diniz saíssem voando, como aconteceu em 2000. Um (raro) exemplo de bom serviço realizado na esfera pública, portanto? Sim, pelo menos a princípio.
 
Só que há um pequeno porém. Há um manual de manutenção da pista para que o asfalto de Interlagos possa se manter nesta boa forma por mais e mais tempo. E, neste manual, consta que uma das sugestões para que a forma do asfalto se perdure é justamente não realizar provas com categorias de veículos cujos pesos totais ultrapassem 1,4 tonelada. E, até onde se sabe, os Trucks pesam mais ou menos seis vezes o máximo recomendado...
 
Nada disso é novidade nem surpreende. O descaso com a construção e a manutenção das coisas públicas não é novo para mim ou para você. De resto, estamos em um ano de eleições e, ao menos num ponto, políticos não são diferentes em lugar nenhum do globo: todos eles aproveitam qualquer oportunidade para aparecer e deixar sua marca, se valendo do apoio de “a” ou “b” à campanha.

Além disso, há um oba-oba maior sobre a categoria, se considerarmos que ela é o carro-chefe do automobilismo nacional de uma emissora de TV aberta. E, obviamente, este tipo de agrado à categoria traz retorno de imagem aos políticos em campanha para a eleição. Infelizmente é uma mentalidade impregnada à cultura nacional. A idéia, claro, é agradar ao pessoal da Truck, bom de bastidor e que tem um espetáculo que atrai as atenções do público — como mostram os índices de audiência e o status alcançados na televisão pela categoria, que até o último ano era a única do País a ter todas as etapas transmitidas em TV aberta.
 
Nada contra a idéia da categoria em si. Mas ela promove um altíssimo desgaste dos autódromos que, até onde sabemos, não foram projetados para receber os enormes esforços a que são submetidos no momento em que os “brutos” realizam suas acelerações, freadas, ou até mesmo quando sofrem acidentes no decorrer da prova. A instrução do manual de conservação da pista mostra isso.
 
E, falando um pouco do óbvio, no momento em que há o contato de um veículo algumas vezes mais pesado do que aquele para o qual a pista foi projetada, é natural que a infra-estrutura pré-existente sofra mais do que sofreria se não houvesse este esforço. Um exemplo físico do tamanho do estrago que o excesso de peso pode realizar está em nossas tão mal cuidadas ruas e rodovias. Claro que o dano não acontecerá nesta proporção, mas a analogia nos ajuda a ter uma idéia do que pode ser proporcionado.

Meia verdade
Há uma lenda na mídia que diz que os organizadores da Fórmula Truck reconstroem circuitos para que a categoria possa “desfilar” em condições melhores, deixando assim um legado para a população local, que teria teoricamente uma praça novinha em folha. É uma meia verdade. Até onde se sabe, a Truck ajudou na pintura e na manutenção de muros — o que nada tem a ver com o asfalto em si. Em nenhum momento se veiculou informações sobre o recapeamento de pista ou obras de maior impacto patrocinadas pela categoria.
 
É verdade que esta não é uma obrigação da Truck e que a ajuda na reforma é uma gentileza patrocinada pela categoria — muito bem-vinda, aliás, num momento em que ninguém se preocupa com isso. Agora, dar a impressão de que a Truck tem fomentado o automobilismo, ajudando na manutenção das pistas do Brasil... Das duas uma: ou há certa megalomania (o que não surpreende), ou então temos um caso de descompromisso com a verdade, o que chega a ser vergonhoso para nossa classe.
 
Como também é mais uma mostra de como nossos agentes públicos tratam com descaso e irresponsabilidade a coisa pública. Ora, se o manual da construtora que a Prefeitura — dona do circuito — tem em mãos desencoraja a realização de eventos deste porte, por que então realizá-los?
 
E, por fim, como estará sendo feita a manutenção da pista de Interlagos? Será que voltaremos ao tempo em que o circuito paulistano era motivo de piadas de todo o circo da F-1? Ou será que, como mais uma surpresa, a manutenção está sendo bem feita? Para ter a resposta, infelizmente, teremos que esperar a Fórmula 1 voltar a São Paulo, já que nenhuma outra categoria consegue detectar as imperfeições da pista tão bem.

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Data de publicação: 5/7/08

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