Ano novo, vida nova

O rali Dacar vem para a América do Sul buscando o renascimento

por Marcio Kohara

O Rali Dacar inaugurou o ano do esporte a motor mundial. Como acontece há mais de três décadas, este é o primeiro evento do calendário. E este é um ano que começa com novidades. Quem diria, no fim de 2007, que o rali mais perigoso do mundo poderia ter sua sede mudada? Pois foi o que aconteceu: o Dacar deixa de ter como cenários o deserto do Saara e o Lago Rosa (nas redondezas de Dacar, capital do Senegal, onde tradicionalmente se disputavam as etapas finais dos ralis) e, em sua 30ª edição, passa a ser realizado na América do Sul.

Claro que não foi uma mudança sem traumas. O Dacar passa a ser realizado nos países vizinhos devido às constantes ameaças que a prova vinha sofrendo em território africano. Este foi o motivo pelo qual a disputa do rali acabou sendo cancelada na última temporada.

As federações argentinas e chilenas apresentaram uma candidatura, que foi aceita pela Amaury Sport Organization (ASO), organizadora do Dacar. Por isso, os dois países sulamericanos estão organizando a primeira edição do rali realizada fora da África. O rali começou com a largada em Buenos Aires na última sexta-feira (9) e, depois de um giro de mais de 6.000 quilômetros, 15 estágios, dois países e cidades como Mendoza, Valparaíso e Córdoba, voltará à capital argentina dia 17.

Não há como negar que, pelo fator do charme do evento, haja uma perda com a mudança do Dacar para a América do Sul. Afinal, não há mais aquela aura de evento inalcançável, de aventura humana, que o evento cultivava quando “desbravava” a África — com o desafio da travessia do deserto do Saara, o enfrentamento dos “selvagens” locais e outros clichês, ou enfrentamentos reais, que o Dacar disputado em território africano poderia apresentar.

De toda forma, é uma resposta dos organizadores do rali às perguntas lançadas no ano passado, quando o rali ficou em xeque devido ao cancelamento e às ameaças de terrorismo feito por forças políticas rebeldes locais.

Nas condições de pista, o novo Dacar é um evento diferente daquele que estamos acostumados a ver na África. Em território africano, apesar de haver a disputa em outros tipos de terrenos, o carro-chefe da prova para máquinas e pilotos era enfrentar os calor e as dunas do deserto do Saara. Na América do Sul há uma variedade maior de terrenos a ser desafiados, como a espécie de savana que permeia o interior da Argentina, o seco interior do Chile, além da areia e das dunas que serão enfrentadas no deserto do Atacama.

Certamente é um desafio que exigirá mais técnica dos pilotos. O cardápio mais variado de cenários fará com que eles tenham que usar um repertório maior de suas habilidades e, justamente por isso, muitos pilotos têm falado que esta é uma das edições do Dacar mais difíceis dos últimos tempos.

Na pista
Dentro da pista, o Dacar também começa com uma grande novidade. Na categoria de carros a Mitsubishi apresenta o Racing Lancer, que terá a responsabilidade de substituir o lendário Pajero, vencedor das sete últimas edições. Com a mudança no programa da marca dos três diamantes, a alteração mais sensível é a adoção de motores a diesel no lugar dos propulsores a gasolina.

Não é novidade no cenário dos Ralis Cross Country a adoção do motor a diesel: sua popularidade tem crescido muito nos últimos anos, já que é um combustível mais eficiente e combina melhor com o discurso da preocupação com o meio ambiente. Além disso, para provas de longa duração, o diesel provê maior torque com menor desgaste do motor, o que sempre é interessante. No Dacar, a Mitsubishi é a última das grandes personagens a adotar esse tipo de motor. A BMW nunca venceu o rali, mas foi a primeira a apostar na introdução do diesel, com seu X3, ainda no começo da década. Poucos anos depois a Volkswagen também iniciou o desenvolvimento do Touareg a diesel.

Apenas como curiosidade, o nome Pajero — que batizava o modelo que disputou o Dacar até a última edição — vem do nome científico do gato dos pampas, Leopardus pajeros, um felino que vive, como diz seu nome, na região dos Pampas, interior da Argentina. Não deixa de ser curioso que, justamente quando o rali passa pelo local em que vive o homenageado, a Mitsubishi o troque pelo Lancer.

No dia do fechamento desta coluna (10), o rali vive o dia de descanso após a chegada a Valparaíso, no Chile. E quem vem dominando a disputa é o VW Touareg com os carros pilotados pelo sulafricano Giniel de Villiers (vencedor do último Rali dos Sertões), o espanhol Carlos Sainz e o americano Mike Miller. Evidente que ainda há muito tempo de prova a ser disputado, mas tudo indica que os alemães conseguirão a façanha de fazer do Touareg o primeiro carro a diesel a vencer o Dacar, já que a Mitsubishi tem enfrentado problemas — tanto que Stephane Peterhansel e Luc Alphand, dois dos mais cotados pilotos da marca japonesa, já não estão mais na prova.

Entre as motos e os caminhões, poucas novidades. Talvez um maior equilíbrio entre as gigantes da KTM e as menores com tração nas duas rodas da Yamaha, estas beneficiadas pelas estradas mais sinuosas e estreitas da prova atual. Mas, no geral, não muda muito a situação. Tanto que o espanhol Marc Coma e o americano Jonah Street, com uma KTM, lideram e as motos austríacas são maioria entre as 10 primeiras. Entre os caminhões, os russos da Kamaz guiados por Fridaus Kabirov e por Vladmir Chaguin lideram a disputa, à frente do holandês Gerard de Rooy, que leva um Ginaf belga.

Entre os brasileiros, a dupla Guilherme Spinelli e Marcelo Vivolo, os brasileiros em melhores colocações, acabou sendo obrigada a abandonar a disputa ainda na quinta-feira (8) após capotar seu Pajero Evolution. Agora, a melhor dupla brasileira é a de Jean Azevedo e Youssef Haddad, na 14ª colocação também de Pajero.

Na categoria de motos, José Hélio vem fazendo uma boa prova e agora, em 13º na classificação geral, é o melhor piloto com uma moto Honda no Dacar. Outro piloto brasileiro entre os 50 melhores do rali é Rodolpho Matteis, com uma Yamaha, que está em 46º. Entre os caminhões, André Azevedo, Maykel Justo e Jaromir Martinec, com um modelo checo da Tatra, aparecem na nona colocação.

Na América do Sul há uma variedade maior de terrenos; por isso, muitos pilotos têm falado que esta é uma das edições do Dacar mais difíceis dos últimos tempos

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Data de publicação: 12/1/09

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