O curioso caso de Jenson Button

Como um piloto que parecia ter acabado sua carreira, sem
brilho, ressurge das cinzas para dominar a Fórmula 1

por Marcio Kohara

O Curioso Caso de Benjamin Button não conseguiu desbancar o melodrama Se eu Fosse Você 2 nas bilheterias brasileiras no começo deste ano, mas foi, ainda assim, um dos filmes mais vistos no País nos primeiros meses de 2009. Estrelado por Brad Pitt, é baseado num conto de F. Scott Fritzgerald, publicado em 1921, que relata a história de um homem que nasce velho e se torna mais novo com o passar do tempo.

Sim, você está no lugar certo. E não, o nome do site não foi mudado para Best Movies, nem o nome da coluna para Conversa de Set ou algo que o valha. O foco da coluna continua o automobilismo e o título desta quinzena é o curioso caso de Jenson, e não de Benjamin, Button.

A temporada de 2009 mostra a história curiosa de superação de um piloto que esteve próximo de estar a pé no início do ano. Que viu a empresa proprietária de sua equipe simplesmente fechar as portas, deixando-o sem perspectivas para a temporada. E que, mesmo assim, ressurgiu do nada para alcançar o nível de aproveitamento de pontos mais fantástico da história da categoria depois de sete etapas do campeonato disputadas.

Como explicar um piloto que sai do ostracismo e de repente se torna imbatível? Como explicar uma equipe que sai do fundo do grid e se torna a principal da Fórmula 1? Estas têm sido as perguntas que norteiam a temporada de 2009 até o momento, quase a metade, após sete etapas das 17 programadas. Uma temporada que tem sido incrível por alguns motivos e não tem sido por outros, como acontece todo ano na categoria. Mas uma história chama a atenção.

Quando começamos a temporada, imaginávamos um novo momento na F-1. Afinal, as equipes colocaram em prática as ideias do OWG, Grupo de Trabalho de Ultrapassagens, que prometiam para este ano um aumento das manobras de ultrapassagens nas corridas. Por isso mesmo há tantas diferenças entre os carros da temporada passada e os deste ano. As novas dimensões das asas, a falta dos apêndices nas laterais e os pneus lisos, além do invisível Kers — sistema de reaproveitamento de energia cinética —, foram as grandes novidades.

Além disso, devido à crise mundial, vimos que o dinheiro investido por uma equipe passou a ter importância relativa dentro da categoria. E facilidades conquistadas graças às diferenças entre os orçamentos entre as equipes, como novos túneis de vento e equipes de testes complementares, acabaram cortadas pelas medidas para contenção de gastos.

Vimos as datas de corridas, como os GPs da China e da Turquia, alteradas pela dança das corridas de Fórmula 1. Paradas da categoria por terrenos tradicionais, como a América do Norte e a França, acabaram fora do calendário porque os organizadores dessas etapas não tiveram como bancar a passagem do circo por tais localidades. A crise também apareceu fora das pistas, quando a Honda — afetada fortemente pela diminuição das vendas e dos lucros — disse que estava pegando suas coisas e deixando a Fórmula 1. Não era a única equipe que ameaçava tomar esse caminho, mas foi a única a tomar decisão tão drástica.

Enfim, uma temporada com muitas novidades, que seria coroada com muita emoção dentro da pista, certo? Parecia que sim. Teríamos uma relação de forças zerada, diferente do que vimos nas últimas temporadas, dominadas por McLaren e Ferrari — não necessariamente nessa ordem. Com isso, veríamos novas equipes encontrando o rumo certo, aparecendo entre as principais, se revezando entre os vencedores. Nós, os espectadores e fãs da Fórmula 1, seriamos brindados com um ano equilibrado, cheio de disputas emocionantes pela vitória.

Mas...
Mas não foi bem isso o que vimos neste início de temporada. Eis que, de forma surpreendente, uma equipe surgida dos restos mortais da Honda apareceu com um carro muito superior aos seus concorrentes. Iniciada oficialmente no começo de março, a Brawn GP alinhou no fim daquele mês sob o olhar incrédulo de todos os que acompanham a categoria, ocupando a primeira fila de seu primeiro GP e partindo para vencer com tranquilidade a etapa australiana.

Ross Brawn é um velho conhecido da Fórmula 1: era ele que, como diretor técnico da Ferrari e da Benetton, pensava as estratégias que levaram Michael Schumacher à conquista de todos os sete títulos. Brawn também foi o responsável pela ideia dos japoneses de investir todos os esforços da Honda no carro da temporada de 2009 já no mês de maio. E, com a saída da fabricante, foi ungido como dono de uma nova equipe que, sob seu nome, tomou de assalto a categoria.

Brawn foi capaz de montar uma equipe imbatível, que tem dominado de forma total e absoluta a categoria em sua temporada de estreia. Também tem sido o responsável por tornar 2009 uma das temporadas mais monótonas dos últimos tempos. Claro que isso só foi possível graças a todo o cenário apresentado acima, que mudou a relação de forças da Fórmula 1 de forma absoluta. Mas Ross Brawn e sua turma estragaram o plano da Federação Internacional do Automóvel (FIA) de fazer desta uma temporada equilibrada, com diversas equipes brigando pela vitória a cada etapa. Pelo contrário.

Parece que estamos de volta aos tempos de domínio total e absoluto de Michael Schumacher e seu Ferrari, que passeavam pelos circuitos do mundo e venciam as provas com facilidade invejável. Quem ocupa esse posto, agora, é ninguém menos que Jenson Button, dono de uma história interessante.

Button surgiu na categoria como uma jovem promessa do automobilismo inglês. E, como tal, foi apontado como um possível novo grande nome da categoria. Claro que havia a seu lado toda a força dos torcedores, dos donos de equipes e da mídia britânicos, que tentavam, mais uma vez, comprovar a superioridade daquele país sobre o mundo com a qualidade de “gênios” como Nigel Mansell, Damon Hill e David Coulthard — para citar os últimos. Mas Button realmente parecia ser um bom nome. A vitória do piloto de apenas 19 anos no famoso GP de Macau de Fórmula 3 referendava seu nome para a categoria principal do automobilismo.

O inglês até estreou bem pela Williams, fazendo uma boa temporada. Mas, trocado por Juan Pablo Montoya — que trazia consigo bons resultados no automobilismo norte-americano —, acabou deixado para escanteio pela equipe. Então Button começou a percorrer um caminho que parecia deixá-lo perto do esquecimento e, em consequência, longe dos títulos. Assim, passou por Benetton, comprada pela Renault, e acabou parando na BAR, que depois foi comprada pela Honda. Enquanto fazia uma grande temporada em 2004 (acabou na terceira posição num campeonato dominado pela Ferrari), envolveu-se numa confusa disputa entre BAR e Williams por seu “passe”, numa clara indicação de mau assessoramento — ou ingenuidade — de sua parte.

Com a compra da BAR pela Honda, o inglês parecia ter começado a fase do ostracismo de sua carreira. E, com seguidos carros ruins construídos pelos anglo-nipônicos, o inglês começou a se interessar mais pelo lado mais divertido de ser um profissional rico — e perdeu o foco pela disputa na Fórmula 1. Com o surgimento precoce de um substituto para as ambições inglesas de ter um campeão do mundo — Lewis Hamilton —, Button parecia já ter cumprido seu ciclo na Fórmula 1, estar no fim de seus dias na categoria sem alcançar nada de muito importante — como diversos outros pilotos, por sinal.

Eis que a Brawn GP ofereceu a Button uma chance de ouro para provar que ainda pode ser um dos grandes da categoria, dando-lhe um carro eficiente ao extremo, que se casa muito bem com as características do inglês como piloto. E Button mostra que ainda é capaz de ser veloz, vencendo incríveis seis provas em sete disputadas e dominando a temporada de forma absoluta. Um número que pouquíssimos alcançaram: apenas o já citado Schumacher em 2004 e Jim Clark na temporada de 1965. E o aproveitamento de Jenson é ainda maior, já que chegou ao pódio em todas as provas, enquanto Clark e Schumacher não disputaram ou não terminaram a prova em que não conseguiram vencer. Um aproveitamento absurdo de 93% dos pontos disputados.

Button nem precisa manter tal desempenho para se tornar campeão. Já pode, por exemplo, levar a taça sem vencer todas as provas. Basta chegar em segundo lugar em todas e, mesmo que Rubens Barrichello (o vice-líder) consiga vencer todas as provas, ele não será superado pelo brasileiro no campeonato. Tudo indica que veremos um novo campeão sendo coroado nesta temporada.

A se confirmar o cenário atual, Button será um campeão com uma história curiosa. Que surgiu como muitos, mas viveu o ostracismo — mais comum ao fim da carreira dos campeões — antes mesmo de viver seu auge de piloto de ponta. Uma peculiaridade que lembra a história de "O curioso caso de Benjamin Button".

Brawn foi capaz de montar uma equipe imbatível. Também tem sido o responsável por tornar 2009 uma das temporadas mais monótonas dos últimos tempos.

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Data de publicação: 13/6/09

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