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Ah, essa novela entre a Federação Internacional do Automóvel (FIA) e
a Associação das Equipes da Fórmula 1 (Fota)... Uma história
interminável, cheia de idas e vindas e de capítulos arrastados. A
briga é chata e ofusca aquilo que mais prezamos no automobilismo,
que é a ação dentro da pista. Por outro lado, não temos como evitar
o assunto — que teve algumas novidades nas últimas semanas — por sua
importância para o futuro desse esporte tão apaixonante que é o
automobilismo.
Muitos esperavam que a novela tivesse acabado na última
quarta-feira, dia 24, quando uma reunião entre Max Mosley
(presidente da FIA), Bernie Ecclestone (presidente da Administração
da Fórmula 1) e Luca di Montezemolo (presidente da Fota), na reunião
anual do Conselho Mundial da FIA, acertou a inscrição incondicional
dos membros da Fota. Nessa reunião ficou acertado que Mosley não
tentaria a reeleição, que o teto orçamentário não seria implementado
e que as oito equipes rebeldes se inscreveriam no campeonato
oficial.
Era um cenário que, pelo menos num primeiro momento, parecia pouco
provável depois do que as equipes anunciaram — que não haveria mais
negociação e que as oito equipes associadas à Fota criariam uma
categoria paralela. Depois de toda a arrastada negociação que tem
durado meses, era justamente um acordo o que menos se esperava num
prazo tão curto.
Claro que as dificuldades de se criar uma categoria de alto nível do
nada pareciam inviabilizar tal ideia. Sem contar que havia
Ecclestone, que estranhamente não se juntou a Max na manifestação
contra a nova categoria — o que indicava que a iniciativa da Fota
não seria tão séria assim. Surgiram cenários tão mirabolantes quanto
interessantes, como a compra da A1GP pela Fota, para que o novo
campeonato tivesse uma base sólida e um calendário com paragens
exóticas como Helsinki, na Finlândia.
Mas, como sabemos, nada é definitivo em se tratando de negociações
desse porte. E, da mesma forma que não parecia viável fazer outra
Fórmula 1 sem que se quebrassem os contratos comerciais de Bernie
Ecclestone, não parecia ser viável fazer uma Fórmula 1 já em 2010
com gastos tão reduzidos quanto os propostos por Max Mosley. Havia
virado uma guerra pessoal entre os egos e as vaidades de Montezemolo
e Mosley.
Assim, uma saída de consenso era necessária. E, bem, Bernie tinha
que aparecer para defender seu quinhão, não é mesmo? Foi exatamente
isso o que aconteceu em Paris, no prédio localizado à Praça de
Concórdia, número 8 — sede da FIA. Max, Bernie e Luca se sentaram à
mesa e, numa reunião até rápida, acabaram por acertar as diferenças
e celebrar um acordo que retomava a ordem na categoria. As equipes
deixavam a posição de rebeldes e o incêndio era apagado. Alívio na
Fórmula 1.
Como resultado final desta novela, tivemos um grande vencedor e um
grande perdedor. O vencedor era Montezemolo, que conseguia manter
praticamente todas as bandeiras defendidas pela Fota nas
negociações. O perdedor, claro, era Max, que não havia conseguido
manter nem mesmo sua bandeira inicial de um comprometimento por
escrito das equipes pelo corte de gastos na categoria. Só conseguira
aumentar um pouco mais o grid, ao colocar mais três equipes na
disputa. Bernie, como dono do jogo, não perde nunca... |
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A volta por cima?
Mas nem se completaram 48 horas, depois do aperto de mãos
protocolar que mostrava o acordo entre as partes, e já parece que a
situação pode voltar a pegar fogo. Teoricamente, para um acordo
sair, é necessário que as duas partes cedam um pouco em suas
proposições. Mosley cedeu, mas no que teria cedido o italiano? Ao
que parece, uma das condições para que o acordo praticamente
unilateral saísse era que Luca di Montezemolo e sua Fota não saíssem
atirando no presidente da FIA.
Mas não foi isso o que aconteceu. Luca saiu da reunião cantando
vantagem, já que era uma vitória no campo das ações práticas. O
italiano também teria declarado que era importante que a FIA se
livrasse de seu “ditador”. Por isso o clima azedou de novo — não no
patamar anterior, mas já há a impressão de que pode haver mais um
racha. Agora, Max ameaça não cumprir sua parte no acordo e diz que
pode disputar as eleições para se manter no cargo que tem ocupado
nos últimos 16 anos. Num primeiro momento pode passar a ideia de um
choro de perdedor, mas em se tratando de Max Mosley não há como
duvidar de nada. Nem mesmo que ele dispute a eleição, quebrando o
trato feito com Bernie e Luca — é de se imaginar que o acordo, pela
visão do inglês, já teria sido quebrado.
Claro que, no cenário político do automobilismo, Max não tem
praticamente nenhum apoio. Dentro da Fórmula 1 isso acontece por
motivos óbvios, mas ele também tem seus detratores em outras
categorias do automobilismo mundial. Afinal, foi ele o principal
responsável pela diminuição da importância da FIA enquanto entidade
esportiva, ao permitir que a autoridade de uma entidade
regulamentadora fosse relegada a interesses puramente financeiros —
e ficasse refém de uma única categoria.
Isso, certamente, é culpa de quem deveria zelar pelo interesse
esportivo, e ninguém mais habilitado para isso do que o presidente
de uma federação desportiva. Que o digam os finados DTM/ITC e WMSC
(Mundial de Protótipos Esporte) e o moribundo WRC, que a cada ano
tem uma regulamentação aprovada por seu Conselho Mundial — com o
intuito de enfraquecê-lo. Isso, sem contar a exposição de cenas da
vida íntima de Max, que custaram à imagem da entidade um dano
imensurável.
Por outro lado, a situação financeira da entidade é sólida, assim
como a força política de Mosley, como comprovou o voto de confiança
dado pelo Senado da entidade no ano passado — contra o gosto de
muita gente graúda no mundo do automobilismo. Quem vota na eleição
são os 219 membros filiados à FIA, que nem sempre estão alinhados ao
que pensa a Fórmula 1. O voto de confiança dado a Mosley no último
ano, mesmo contra o clamor de todos, inclusive de Bernie, deve ser
um fator levado em conta para a eleição de outubro próximo.
Neste momento, Mosley tem uma situação um tanto mais delicada. Em
primeiro lugar, prometeu para Deus e o mundo que não disputaria a
próxima eleição. Depois, os adversários certamente lutarão para
centralizar fogo em seu calcanhar de Aquiles — o escândalo sexual —
e provocar a queda do inglês com o máximo de dor possível. E, por
fim, ainda há o lado pessoal, já que, além de todo este turbilhão
vivido em sua vida pública, Max enfrenta a dolorosa perda de seu
filho (suspeita-se que morreu por overdose).
A princípio, o inglês não parece interessado em sair da vida
pública. Mas, da forma como parece que as portas estão se fechando e
Mosley é pressionado a deixar os holofotes, sua aposentadoria não
parece ser um cenário improvável. Sua ambição deve se resumir a sair
da vida pública numa forma não tão desastrosa como a atual. Enquanto
não fica satisfeito com o que lhe é oferecido, Max dobra a aposta. E
ficam os dois ególatras se digladiando, querendo ocupar um espaço
que não lhes é de direito. Afinal, o que mais importa, pelo menos
para os amantes do esporte, é a ação na pista... |
Luca saiu da reunião cantando vantagem e teria declarado que era
importante que a FIA se livrasse de seu “ditador”. Por isso o clima
azedou de novo — e já há a impressão de que pode haver mais um racha. |