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No último dia 23, a Federação Internacional do Automóvel (FIA)
elegeu seu novo presidente. No escrutínio entre Jean Todt e Ari
Vatanen, venceu o primeiro com grande vantagem — 139 votos a 49, com
12 abstenções. Não foi uma grande surpresa; pelo contrário. Era um
resultado até esperado pelos que conhecem os meandros da FIA desde que
Max Mosley, seu antecessor, anunciou apoio à campanha de Todt, dando
ao francês um voto importante — que se mostrou decisivo — nos
bastidores do Colégio Eleitoral da FIA. De toda forma, a eleição de
Todt é a esperança de que mude alguma coisa no comando da entidade
máxima do automobilismo mundial a partir deste momento.
Jean Todt, 63 anos de idade, é francês de Pierrefort, nos Alpes
franceses. Filho de um polonês fugido para a França durante a Segunda
Guerra Mundial e de uma francesa, Todt começou no automobilismo com um
Mini Cooper emprestado, disputando ralis. Fez carreira em diversos
papéis no mundo do rali, mas se notabilizou como navegador da equipe
Peugeot Talbot. Pendurou o capacete em 1981, mas isso não significou
seu afastamento do mundo do automobilismo. Todt seguiu carreira na
equipe da marca do leão, dirigindo a divisão esportiva da marca nos
ralis e, na nova carreira, ganhou grande notoriedade.
Primeiro, como diretor do programa de ralis da Peugeot, liderou o
desenvolvimento do lendário 205 Turbo 16 do Grupo B, campeão mundial
da categoria em 1985 e 1986. Com o fim do Grupo B, a Peugeot deixou o
Mundial de Rali, mas não deixou de se destacar no cenário do
automobilismo mundial. As vitórias seguidas nos lendários ralis
Paris-Dakar e Pikes Peak, na 24 horas de Le Mans e no Campeonato
Mundial de Protótipos Esporte (World Sports Car Championship)
mostraram a capacidade gerencial do francês.
O próximo desafio para ele parecia bem claro: a eventual entrada de
uma equipe própria da Peugeot na Fórmula 1 seria um verdadeiro sonho.
Contudo, a direção da marca do leão não comprou a ideia, preferindo se
associar a outras equipes como fizera sua rival local, a Renault (que
mantinha uma parceira vitoriosa com a Williams, dominante na Fórmula 1
naquele momento). Como Todt tinha outros planos, deixou a parceria com
os franceses.
O desafio? Um dos maiores que se poderia conceber: colocar de volta
nos trilhos a Ferrari, que vinha de mais de uma década sem conseguir
resultados expressivos na categoria. A Ferrari virou motivo de piada
depois da morte do Comendador Enzo, em 1988. Era uma equipe grande,
desorganizada, sem resultados e com a pressão constante de um país
inteiro urgindo por resultados imediatos. Nomes como Nigel Mansell,
Gerhard Berger, Jean Alesi e Alain Prost haviam fracassado
rotundamente na missão de fazer com que a escuderia voltasse a seus
áureos tempos, enquanto — humilhação das humilhações — era esnobada
por Ayrton Senna, nome que sempre fora tratado como dos sonhos pelos
fãs da equipe.
Senna havia feito um diagnóstico preciso da situação da equipe: o
problema era de gerenciamento. E Luca di Montezemolo — nome escolhido
por Giovani Agnelli para fazer com que a Rossa voltasse aos tempos de
glória dos anos 70 — levou Jean Todt para iniciar o processo de
recuperação da equipe. A curva Tamburello impediu que o processo de
recuperação contasse com Senna, mas Michael Schumacher, Ross Brawn,
Rory Byrne e até Nigel Stepney reergueram Maranello. E o resto é
história. |
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E o futuro?
Com Todt, a forma como a FIA é gerida vai mudar? Neste primeiro
momento a resposta é sim. Afinal, os últimos anos da gestão Mosley
foram marcados pela quantidade de enfrentamentos que o inglês resolveu
tomar contra aqueles que ameaçavam seu poder. Foi assim no caso da
guerra entre FIA e Fota, iniciada com uma rixa pessoal de Mosley
contra Ron Dennis, que acabou ganhando proporções incontroláveis. E
foi justamente essa forma de tratar os problemas que acabou por ser a
causa de seu final melancólico frente à FIA.
Com Todt, sujeito conhecido pela habilidade de gerenciamento e
capacidade de conciliar objetivos que parecem contraditórios, a
história pode ser diferente. Pelo menos, a questão das brigas
políticas até vexatórias pelas quais a categoria passou nos últimos
anos parece que será relevada. O exemplo? A visita de Ron Dennis,
persona non grata na era Mosley, ao paddock de Abu Dhabi, última etapa
do Mundial de Fórmula 1. Seria uma cena impensável até três semanas
atrás, quando o presidente da FIA era Max Mosley...
Há outros fatores que devem influir na gestão Todt. Bernie Ecclestone
é o homem das decisões comerciais da Fórmula 1, mas tem grande
influência também sobre os destinos políticos da FIA. Tanto que é
considerado o homem que colocou Mosley no posto de mandatário da
entidade máxima do automobilismo mundial, sucedendo Jean Marie
Balestre. Mas, no ano passado, Bernie chegou a romper com Max depois
da repercussão extremamente negativa do caso do vídeo de Mosley no
ritual sado-masoquista. E, mesmo assim, se manteve no cargo.
O inglês só caiu quando decidiu que era hora de frear o aumento de
gastos na Fórmula 1, assunto que não agrada a nenhum dos poderosos da
categoria. Por não saber o momento de parar de propor o limite de
gastos de 40 milhões de libras esterlinas, acabou gerando a briga
entre FIA e Fota, que culminou na assinatura do documento que definiu
sua saída do comando da entidade.
Claro que o cenário é mais complexo: inclui a depressão pela morte de
seu filho e uma saída de cena em que Mosley não é de todo derrotado. O
ganho de influência da Cosworth e uma possível entrada competitiva da
tradicional preparadora de motores, por exemplo, são frutos do
trabalho do inglês, que tira a exclusividade do fornecimento de
motores da F-1 das mãos dos seus adversários da Fota. E, se
considerarmos que o desenvolvimento dos blocos dos motores está
congelados há anos e a Cosworth pode trabalhar livremente em um
projeto totalmente novo, adaptado às novas exigências da categoria
(como a rotação limitada a 17 mil rpm e a central eletrônica
unificada), a probabilidade de que esses motores sejam competitivos é
bem grande. A Williams — tradicional equipe independente —, por
exemplo, ficou satisfeita com os resultados preliminares e já fechou o
fornecimento para 2010.
O fim do mandato de Mosley foi um acerto de contas digno de roteiro de
Hollywood. As punições a Ron Dennis e a Flavio Briatore em seus
últimos movimentos mostraram como se sacia a sede de vingança de um
mandatário ferido. E assim Mosley pode partir para casa em paz,
deixando no comando alguém que não vai desfazer seus atos de vingança,
pelo menos enquanto o tiver sob sua influência — algo que é a
especialidade do inglês.
Por fim, há apenas fatores positivos na escolha de Todt? Claro que
não. Primeiramente, mostra que Mosley segue como figura decisiva na
gestão da FIA. E sabe-se lá qual será a abrangência da influência do
inglês como uma espécie de eminência parda — há dúvidas de até onde o
francês realmente será o homem a comandar o leme. Mas se espera que
Todt tenha mais tato ao cuidar de assuntos espinhosos do que seu
antecessor.
Isso sem contar os objetivos contraditórios que envolvem um sujeito
que, embora devesse ser isento, tem um filho intrinsecamente ligado ao
mundo do automobilismo em geral. Nicolas Todt é dono da ART, equipe
que gerencia equipes em diversas categorias de base — como a GP2, a
Fórmula 3 europeia e a futura GP3 —, e é empresário de pilotos como
Felipe Massa. Isso sem contar as recém cortadas relações de Todt com a
Ferrari (onde era o manda-chuva até o ano passado e consultor até o
começo deste ano), que podem colocá-lo em dificuldades quando o
assunto for confrontar os interesses da FIA com os interesses dos
italianos.
Claro que não seria algo impossível para o francês, mas conseguir
conciliar tantas atividades que parecem contraditórias será um bom
teste para suas habilidades. |
Os
últimos anos da gestão Mosley foram marcados por enfrentamentos contra
aqueles que ameaçavam seu poder. Essa forma de tratar os problemas
acabou por ser a causa de seu final melancólico frente à FIA. |