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Na
última edição de Questões de Direito
falamos sobre o quanto se gasta com os acidentes ocorridos em nossas
rodovias. Quantias absurdas que poderiam muito bem ser empregadas na
melhoria das estradas, mas acabam sendo gastas justamente por não
haver a devida conservação das vias. Como ainda estamos em período
de férias e o uso das estradas continua intenso — sobretudo este
ano, por causa dos problemas no transporte aéreo —, tratarei delas
mais uma vez em uma abordagem um pouco diferente.
O governo federal, numa de suas primeiras ações de 2007, anunciou
que suspenderá a licitação de sete lotes de privatização de rodovias
federais. Essa privatização renderia ao governo uma economia de R$
20 bilhões nos 25 anos que os contratos de concessão durariam. Com o
montante investido pelas concessionárias, seria possível reparar
nada menos que 1.067 km de rodovias em péssimo estado de
conservação, de forma ininterrupta, durante todo o período em que a
administração das rodovias estaria concedida à iniciativa privada.
De um modo geral, as privatizações podem não ser a melhor opção para
as obrigações que deveriam ser do governo, de maneira que a
aprovação às privatizações é algo que merece muita análise antes de
ser concedida. Entretanto, no caso em questão, os fatores e as
evidências são claros para que as privatizações das rodovias sejam
realizadas.
Temos atualmente em todo o País uma malha viária de 1.751.862 km,
dos quais a rede pavimentada corresponde a somente 196.093 km,
enquanto a rede não pavimentada é de 1.413.982 km. Uma situação
absurda para um país que busca o desenvolvimento e que quer se
colocar entre as principais potências do mundo. O quadro se agrava
quando lembramos que nosso transporte — seja de mercadorias, seja de
passageiros — é realizado quase que exclusivamente por rodovias.
O problema de rodovias ruins ou simplesmente de sua falta é dos mais
graves no Brasil, pois elas são as vias arteriais de nossa economia.
Sem elas o industrial não consegue escoar sua produção e, sem o
escoamento da produção, as vendas são penalizadas. Sem vendas não há
recursos e sem recursos não há contratação de pessoas para
trabalhar, o que traz desemprego. É um exemplo simplório do círculo
vicioso em que podemos entrar com as rodovias em frangalhos.
E não pára por aí. O País está com a produção em alta e exportações
atingindo volumes recordes, mas isso tudo pode ir por água abaixo a
partir do momento em que os produtos, que têm como destino um país
estrangeiro, não chegarem ao porto, chegarem com muito atraso ou a
custos proibitivos, o que torna o comércio do produto inviável em
qualquer lugar do mundo.
Orçamento insuficiente
Caso as licitações não sejam realizadas, estima-se que o governo
teria que desembolsar R$ 33 bilhões para recuperar as rodovias e
torná-las eficazes. É evidente que o orçamento governamental não
prevê esse dinheiro para um só setor da economia. A título
exemplificativo, o orçamento aprovado para o Ministério dos
Transportes para 2006 — considerado recorde — foi de R$ 9,66
bilhões, dos quais foram utilizados somente R$ 7,8 bilhões. O
restante? Todos gostaríamos de saber.
De qualquer maneira, a questão é que, mesmo diante de um orçamento
recorde como o obtido no ano passado, o valor previsto não chega a
um terço do necessário para recuperar e modernizar nossas estradas.
Assim, fica evidente que o governo não tem o fôlego suficiente para
sustentar sozinho a reforma da malha rodoviária, sendo necessária de
uma forma ou de outra a ajuda da iniciativa privada.
Uma das grandes preocupações do governo nos processos de concessão
das estradas é o valor da tarifa dos pedágios. Não pode ser
demasiado alto, a ponto de prejudicar os usuários e acarretar
aumentos de custo no transporte, nem baixo a ponto de tornar
inviável o negócio das concessionárias. Essas empresas têm que ter
lucro, sim, pois sua atividade principal é administrar estradas.
A preocupação é justa e coerente, mas não pode impedir que o
processo de recuperação continue. Mesmo com os pedágios, que por
sinal andam cada vez mais caros, as estradas ao menos recebem
conservação e melhorias, havendo até mesmo a fiscalização das
concessionárias pelo governo.
Talvez a saída para esse problema seja um denominador comum entre a
iniciativa privada e o poder público. É para isso que foram criadas
as parcerias público-privadas, também conhecidas como PPP. Contudo,
antes de alternativas, devemos nos ater à vontade de corrigir esse
problema de nossas rodovias. Do contrário, poderemos criar
alternativas e soluções que não sairão do papel, deixando as
rodovias na situação inaceitável em que estão hoje. |