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No
dia 3 de junho esta coluna teve como tema a
previsão de que a tolerância ao consumo de álcool pelos motoristas
cairia a zero, desaparecendo o limite anterior. A norma em questão
entrou em vigor da maneira como estava prevista, sem alteração
alguma em seu texto. Assim, desde sua entrada em vigência, o
motorista não pode ter na corrente sanguínea qualquer percentual de
álcool, sob pena de ser autuado com a pesada multa de R$ 957,70,
cumulada à subscrição de sete pontos no prontuário e a cassação da
habilitação por 12 meses.
Passada pouco mais de uma semana da entrada em vigor dessa
regulamentação, notícias e mais notícias são veiculadas sobre esse
assunto. No primeiro fim de semana veiculou-se, com estardalhaço,
que haviam sido presos 87 motoristas. Num primeiro instante me
impressionei com a quantidade. Entretanto, lendo a matéria com
cuidado, percebi que eram 87 motoristas no país inteiro. Em
um país com as dimensões e quantidade de motoristas do Brasil, essa
quantidade é muito pequena.
Mas, sob pena de fazer um julgamento errôneo e precipitado, preferi
me calar e continuar a observar a operação dos policiais e das
autoridades de trânsito. No fim de semana seguinte o número de
motoristas presos aumentou e, em conjunto a isso, tivemos diversas
reportagens com o depoimento de pessoas que confessavam que seus
hábitos mudaram após a promulgação da lei. Ou controlavam o que
bebiam, ou tinham simplesmente parado de beber antes de dirigir.
Analisando o ocorrido nesse segundo fim de semana, fica-se com a
impressão de que a nova lei está funcionando ou, como se diz em
nosso país, está “pegando”. Entretanto, se fizermos uma análise mais
profunda e fria do ponto, diversas questões nos surgem.
Será que a norma está sendo, de fato, efetiva ou todos estão sob
efeito do terror que a imprensa acaba transmitindo à população na
hora de reportar o que está acontecendo? Paralelamente às
reportagens que acompanham a fiscalização pela polícia, há diversas
notícias de acidentes causados por motoristas alcoolizados. Parece
que, de uma hora para outra, os acidentes passaram a ocorrer única e
exclusivamente por conta do consumo abusivo de álcool.
E mais: mesmo com uma quantidade maior de motoristas flagrados pelo
bafômetro, o número de autuações ainda é pequeno para um país do
tamanho do Brasil. Basta analisar a quantidade de pessoas que vemos
nos bares, em um sábado a noite, em relação à quantidade de
motoristas detidos. E apenas uma porção das pessoas que estão nos
bares consome efetivamente álcool e dirige depois: há aquelas que
não bebem ou que vão embora a pé, de carona ou de táxi.
Falta de equipamento
Diante desse panorama, fica evidente que o problema central dessa
questão, e de diversas outras, não é a lei em si — mas sua execução.
Em menor grau foi veiculado, também, que a ação policial não estava
sendo mais ostensiva por falta de equipamento. Ou seja, podemos
colocar o nível de tolerância que quisermos para os motoristas, a
barbárie no trânsito vai continuar, pelo simples fato de que não
temos meios de fiscalizar o que acontece nas ruas e estradas.
A polícia e as autoridades se desdobram para poder cumprir seu papel
com o mínimo de equipamentos e pessoal, mas não conseguem atingir o
problema em seu ponto central: a educação do motorista. A única
maneira encontrada pelas autoridades parece ser coibir pelo terror,
como está acontecendo agora. O problema é que esse terror não
perdura por muito tempo. Até quando veremos os comandos nas ruas e
avenidas mais movimentadas das cidades? É só a poeira baixar que
voltará a sensação, para os infratores, de que está tudo liberado
como sempre ocorreu por aqui.
Longe de mim fazer apologia à bebida ou estimular que se dirija
alcoolizado. Sou contra isso. Mas pretendo que a coluna alerte à
questão de que as autoridades estão mirando no alvo errado. Não
adianta mudar a lei. O que precisamos é de fiscalização, agora e
sempre.
Não sou adepto da comparação de nossas normas com as de países
desenvolvidos, mas nesse caso ela é válida. Nos Estados Unidos e em
países europeus o limite de tolerância, quando não igual, era um
pouco menor do que o que tínhamos até então no Brasil. E qual a
razão de nesses locais os motoristas evitarem ao máximo o consumo de
álcool se vão assumir o volante? Pela simples questão de que eles
sabem que a chance de serem pegos e severamente punidos é grande.
Infelizmente, no Brasil a coisa funciona de forma inversa. Todos
sabemos que a chance de sermos pegos é pequena. Para que os hábitos
mudem, é preciso ter o receio de ser pego e punido conforme previsto
em lei. É disso que precisamos. Não precisamos da tolerância zero,
mas do limite de alcoolemia zero. Precisamos, isso sim, da certeza
de que o cidadão poderá ser pego se infringir a lei e que, nesse
caso, a punição será severa. E isso já tínhamos na legislação
anterior.
P.S.: Com a alteração na norma, alterou-se também a questão de que
ninguém poderá fazer prova contra si. Isso de maneira geral é
bem-vindo, uma vez que havia a distorção de um preceito
constitucional que serve para proteger a sociedade, como um todo, e
o cidadão de bem — não o infrator que quer abusar do manto da lei e
colocar os demais cidadãos em risco. |