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O processo produtivo em massa é algo de se admirar. Produzir
milhares, às vezes milhões de produtos iguais e com as mesmas
características demanda de seu produtor controle, engenharia e
tecnologia de ponta para que a variação dos produtos que saem de sua
fábrica seja mínima. Entretanto, isso nem sempre acontece e, por
vezes, temos que uma leva ou um lote de produtos saem das fábricas e
chegam ao mercado consumidor com características fora da
especificação original e, pior, fora dos padrões determinados pelas
normas de segurança.
Quando isso ocorre, a prática consagrada pelos fabricantes é a
convocação, mais conhecida como recall (que em inglês significa
"chamar de volta"). Chamam-se os proprietários dos produtos
atingidos pelo defeito para o reparo sem custos. Na indústria
automobilística, essa política tornou-se praxe quando é identificado
que um lote de veículos saiu das fora das especificações
determinadas pela fábrica e pela lei. Nas últimas semanas tivemos
dois recalls anunciados:um da Chevrolet, para troca de componentes
do cinto de segurança, e outro da Volkswagen para a verificação e
possível troca da lanterna traseira dos veículos equipados com luz
de neblina.
A convocação demonstra respeito ao consumidor e preocupação dos
fabricantes com a integridade de seus consumidores. Há também a
preocupação em preservar a imagem do fabricante de comercializar
produtos seguros e confiáveis e, sem dúvida, de se prevenir contra
eventuais demandas legais, que poderiam trazer prejuízo — tanto
pecuniário quanto de imagem — mais devastador do que anunciar que
determinado modelo de veículo saiu com defeito.
Ocorre que essa prática pode ir por água abaixo se a outra parte
envolvida na questão — nesse caso, o consumidor — não colaborar. É o
caso dos proprietários, chamados para levar seu veículo a uma
concessionária da marca para efetuar os reparos recomendados pelo
fabricante, que não o faz. Além de a atitude poder prejudicá-lo
diretamente e a sua família, uma vez que ele estará circulando em um
automóvel fora das especificações do fabricante e em desacordo com a
norma em vigor, esse consumidor desleixado põe em risco também os
demais motoristas e cidadãos que se utilizam da via pública.
O problema pode ir ainda mais longe, pois um dia esse carro
provavelmente será revendido e o novo proprietário comprará um
automóvel fora de especificação, que pode feri-lo ou a seus
semelhantes em função de um ato displicente do dono anterior do
carro. Alguns podem argumentar que seria obrigação do novo
proprietário se certificar se o carro passou pelo recall ou não.
Discordo visceralmente dessa opinião, pois a obrigação de cumprir a
convocação é do atual proprietário e não do futuro. Ele é o dono do
carro e, como tal, é dele a obrigação de tê-lo em condições de
rodagem e dentro das especificações do fabricante e da lei.
Além disso, não são todos que — como nós que fazemos e lemos o
Best Cars — têm paixão pelo automóvel e por tudo que a ele
esteja relacionado. Muitos o encaram como simples meio de transporte
e não se informam nem sobre a pressão recomendada para os pneus; que
dirá sobre os recalls por que o modelo passou. Na verdade, acredito
que até os mais devoradores de informações automobilísticas teríamos
alguma dificuldade em saber essa informação sem pesquisa prévia. E
os fabricantes, ao cumprir a obrigação legal de convocar os
proprietários, enviam carta apenas ao primeiro proprietário — eles
alegam não ter como contatar os que compraram o carro de segunda
mão. |
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Falta de tempo
Os que são contatados, mas não comparecem a um chamado de
recall, dão várias alegações, desde a falta de tempo até a
impossibilidade de efetuar o reparo em fins-de-semana. E aí fica uma
dica e um apelo às concessionárias e aos fabricantes: em casos de
recall, ampliar seu horário de atendimento, ao menos nas primeiras
semanas da campanha, com o intuito de atender o maior número
possível de clientes, o qie trará dividendos ao preservar sua
imagem, fazendo valer o investimento no programa de recall.
Acredito que, à parte esses fatores, haja também uma falta de senso
de cidadania. A perda de tempo em levar o carro para a
concessionária, ou mesmo a indisponibilidade do veículo pelo tempo
do conserto, não causa impacto tão severo assim quanto o de uma
lesão — ou até uma vida perdida — em função da falta da troca de uma
peça de segurança, como partes do cinto, na presente convocação da
Chevrolet.
Tendo isso em vista, o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran)
e a Secretaria de Defesa do Consumidor estão estudando uma maneira
de tornar o comparecimento ao recall um ato obrigatório, que trará
sanções àqueles que se recusarem a fazê-lo. A primeira idéia é
bloquear o licenciamento do veículo caso este não tenha cumprido a
determinação do fabricante. O raciocínio é o de que o carro estaria
fora de especificação e, portanto, não poderia ser licenciado.
A idéia é boa. Contudo, vejo problemas na parte operacional. Como
tornar isso possível? Fazer com que concessionárias e fabricantes
informem quais os veículos que compareceram? Ou fazer o proprietário
do veículo apresentar um termo, no licenciamento, de que o veículo
passou pelo recall? Nesse caso, os Detrans espalhados pelo Brasil
deverão saber quais os veículos e quais os números de chassi
envolvidos em todos os recalls. É uma idéia, mas que tem que ser
amadurecida.
De qualquer maneira, vale ressaltar que o proprietário que vendeu um
veículo chamado para o recall, sem ter atendido à campanha, pode ser
responsabilizado pelo comprador do bem em caso de lesão, pessoal ou
patrimonial, que venha a ser causada pelo sistema defeituoso não
reparado. Não resolve o problema, mas ajuda.
Na realidade, o que devemos ter em mente é que, além de objeto de
paixão e desejo para uns e meio de transporte para outros, o
automóvel é um bem que pode ferir e matar quando não usado
corretamente. E, para usá-lo corretamente, é necessário que ele
esteja dentro das especificações — seja do fabricante, seja as
exigidas pelas normas em vigor. E não custa nada cumpri-las. |
A
perda de tempo em levar o carro não causa impacto tão severo assim
quanto o de uma lesão — ou até uma vida perdida — em função da falta
da troca de uma peça de segurança |