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A crise econômica mundial espalhou seus tentáculos pelos mais
diversos segmentos e ramos da sociedade. Que isso aconteceria, todos
sabíamos. Alguns especialistas chegaram a alertar que a crise
poderia chegar ao meio ambiente e aos esforços para sua preservação,
prejudicando-os. E parece que essas previsões se concretizaram.
Temos no Promot — Programa de Controle de Poluição do Ar por
Motociclos e Veículos Similares — algo muito semelhante ao que foi
instituído para automóveis há alguns anos. O programa, que vem sendo
cumprido à risca, é composto por diversas fases de implementação. A
terceira fase (Promot 3) deveria entrar em vigor agora em janeiro,
obrigando motos e veículos similares a um novo limite de emissão de
poluentes.
Como o novo limite é bem mais rígido que os anteriores, motos e
veículos similares seriam obrigados a sofrer mudanças drásticas em
seus motores e sistemas de controle de emissões para que pudessem
atender à nova regulamentação. E mais: alguns modelos teriam de ser
descontinuados, por não atender às novas exigências e porque o
investimento para adequação do modelo não seria compensador para o
fabricante da moto. Isso, de pronto, evidencia que precisamos de uma
atualização mais constante dos veículos de duas rodas.
Em razão dessa necessidade de mudanças profundas e da eventual
descontinuação de alguns modelos, os fabricantes de motos vinham
reclamando uma extensão de prazo para a implementação do programa,
alegando que a mudança era muito drástica. Isso tudo antes da crise
financeira mundial que se instalou em setembro do ano passado. Nesse
sentido, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama) manteve-se firme em sua posição como
órgão responsável pela implementação das mudanças: confirmou a
vigência da terceira fase para o início de 2009.
Ocorre que, pouco antes, a crise chegou e as coisas tiveram que
mudar. E mudaram.
Os fabricantes vieram com força total para cima das autoridades, que
tiveram que ceder nos planos de implementação das novas normas. O
início de vigência da terceira fase passou de janeiro para abril de
2009, já que o Ibama permitiu que se fabricassem motocicletas com as
especificações antigas até 31 de março. Isso ocorreu em função,
segundo os fabricantes, da queda das vendas das motocicletas. |
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Cronograma de produção
A primeira pergunta que se faz é: o que tem a ver a queda de
vendas das motos com a instituição de um programa de controle de
emissão de poluentes? As medidas e os novos limites não são
conhecidos há muito tempo pelos fabricantes? Eles não têm um extenso
cronograma de produção que previsse a entrada em vigor do programa?
De acordo com a Abraciclo, a entidade que representa os fabricantes
de motocicletas, o próprio cronograma de produção é que pode ter
sido o vilão. A entidade e os fabricantes alegam que o terceiro
quadrimestre de 2008 teve um volume de produção muito inferior ao
previsto, em função da grande queda no volume de vendas. Com isso,
todas as previsões de estoque, de compras de matéria-prima e de
suplementos para a produção foram prejudicadas, causando grande
excesso disso tudo.
Tal desajuste, por si só, não seria motivo para postergar a entrada
do programa. Entretanto, de acordo com os fabricantes, nessa mudança
de ano-modelo as mudanças nos componentes que integram as
motocicletas foram muito grandes, de maneira que os componentes e
matérias-primas usados na fabricação de uma moto 2008 seriam muito
diferentes daqueles utilizados em uma moto 2009.
Com isso, componentes já adquiridos para modelos 2008 não poderiam
mais ser usados, pois estariam fora da configuração exigida pela
nova norma. Com a situação já critica dos fabricantes de
motocicletas, amargar mais esse prejuízo não seria nada saudável
para a economia e para os cofres dessas empresas.
Não se pode esquecer que os fabricantes de motos reclamaram muito
durante 2008 a respeito da entrada em vigor do Promot 3. Isso nos
permite especular que pode ter havido um atraso na implementação
dessas mudanças nas linhas de montagem, à espera de um possível
adiamento na vigência da terceira fase. Caso tenha havido essa
postergação, ela se torna um grande problema para quem ficou para
trás e, agora, precisa se adequar rapidamente à norma.
O senso de prudência nos faz crer que a crise, a queda nas vendas e
o excesso de estoque de componentes e matéria-prima para as antigas
especificações de motocicletas sejam as principais razões para o
adiamento da implementação do Promot 3. Mas a dúvida sobre essas
razões são claras quando pensamos que a indústria de grande porte
trabalha com extensos cronogramas. Parece mesmo que as fábricas
contaram com a tolerância em prejuízo do meio ambiente. |
De acordo com a Abraciclo, pelo volume de produção muito inferior ao
previsto, as previsões de estoque, de compras de matéria-prima e de
suplementos para a produção foram prejudicadas, causando grande
excesso. |