Consultório de Preparação


por Iran Cartaxo


Comando mais "bravo" no motor VW 1,6 litro


Desde que descobri sua home-page não deixo de acessá-la para ver as novidades. Adquiri um Gol 1.6 96 com 15.000 km. Gostaria que obter algumas informações referentes à preparação do motor. Minhas dúvidas são as seguintes:
1. O uso de um comando mais esportivo degrada o motor?
2. Deve-se ter algum cuidado especial com um motor com comando?
3. O consumo de combustível aumenta? Muito?
4. Qual comando vocês me aconselhariam a colocar?
Não tenho necessidade de um comando muito " bravo" como o 288. Quero apenas que o motor tenha maior rendimento que o normal.

Leonardo Carvalho Discacciati
leonardo@correios.com.br


O motor de 1,6 litro da Volkswagen é um dos prediletos dos preparadores, Leonardo. Por suas características de leveza, resistência e pela possibilidade de atingir altos regimes de giro, tem sido realmente um prazer trabalhar neste motor. Ele convive muito bem com praticamente todos os tipos de preparação, principalmente a aspirada, pela facilidade com que sobe de giro. Pela cilindrada relativamente baixa deve haver um compromisso, durante a preparação, com a preservação do torque, não se devendo, portanto, exagerar em parâmetros que em geral causam perda de força em baixas rotações -- como comandos com muito lift (levantamento de válvulas). Mas um comando de 288° é bem suportado pelo AP 1600.

As curvas de potência (as mais altas) e de torque estimadas para o Gol original (em azul), com as preparações leve (em marrom), média (em rosa), pesada (em verde) e com turbocompressor (em vermelho)

Clique aqui para ver as curvas de potência e torque ampliadas


Uma das dúvidas mais freqüentes de quem pretende preparar um motor é sobre sua durabilidade com o veneno. Saiba que a utilização do motor afeta sua vida útil em proporção bem maior que a preparação feita. O que muitas vezes acontece é que o usuário quer a preparação para explorar mais a fundo o potencial do motor. Como a preparação lhe permite romper os limites originais, o desgaste pode ser bastante acentuado. Assim, respondendo à primeira pergunta, o comando especial não degrada o motor, mas permite que o motor gire mais. Caso o usuário o submeta com freqüência a esse regime maior de giros, ele vai realmente ter sua vida útil encurtada.

Para uso de rua, comportado, a escolha de comando mais coerente fica em até 288° de duração, como o citado pelo leitor. Esses comandos apresentam bom compromisso com o consumo e, se o serviço de preparação for de boa qualidade, devem elevá-lo em no máximo 10%.

Simulamos quatro níveis de preparação para seu carro, a saber:

Leve: remapeamento da central de injeção, comando com 10° a mais de duração de abertura das válvulas e levantamento maior em 0,5 mm;

Média: remapeamento da central de injeção, comando com 15° a mais de duração de abertura das válvulas e levantamento maior em 0,8 mm, além de coletor de escape dimensionado;

Pesada: remapeamento da central de injeção, aumento da taxa de compressão em 1 ponto, aumento do diâmetro das válvulas em 2 mm (para aumento da taxa e do diâmetro das válvulas necessitam-se de serviços de usinagem no cabeçote), comando com 20° a mais de duração de abertura das válvulas e levantamento maior em 1,5 mm, e coletor de escape dimensionado;

Turbo: turbocompressor a 0,4 kg/cm² de pressão de sobrealimentação, sem intercooler (o que barateia o kit), e redução da taxa em 0,5 ponto para garantir a não ocorrência de pré-ignição, que se torna mais freqüente em motores turbo sem intercooler.

Este é o desempenho de seu Gol com as sugestões de preparações citadas:

  Preparação leve Preparação média Preparação pesada Preparação com turbo
Potência máxima 90 cv 98 cv 125 cv 104 cv
Rotação de potência máxima 6000 rpm 6300 rpm 7100 rpm 5500 rpm
Velocidade máxima 170 km/h 175 km/h 189 km/h 178 km/h
Rotação à velocidade máxima 4760 rpm 4910 rpm 5310 rpm 5000 rpm
Aceleração de 0 a 100 km/h 10,8 s 9,9 s 7,8 s 9,4 s
Torque máximo 14,0 mkgf 14,5 mkgf 14,2 mkgf 18,1 mkgf
Rotação de torque máximo 3490 rpm 3650 rpm 4100 rpm 3200 rpm
Encurtamento recomendado na relação de transmissão 20,5 % 21,7 % 24,8 % 8,2 %
Aumento recomendado na injeção de combustível - - - 33,3 %
Aceleração longitudinal no interior do veículo 0,57 g 0,63 g 0,79 g 0,66 g
A margem de erro é de 5% (para cima ou para baixo), considerando-se instalação bem-feita. Calculamos a aceleração de 0 a 100 km/h e a aceleração longitudinal máxima (sentida no interior do automóvel) a partir da eficiência de transmissão de potência ao solo do carro original. Para atingir os resultados estimados pode ser necessária a recalibragem da suspensão, reforços no monobloco e/ou o emprego de pneus mais largos. A velocidade máxima estimada só será atingida com o ajuste recomendado da relação final de transmissão. Os resultados de velocidade são para velocidade real, sem considerar eventual erro do velocímetro. A rotação à velocidade máxima é calculada considerando a relação atual de transmissão.
Algoritmo de simulação de preparação de motores desenvolvido pelo consultor
Iran Cartaxo, de Brasília, DF.

 

Observe que a transmissão original do Gol de 1,6 litro é bastante longa, o que beneficia a durabilidade e os níveis de consumo e ruído, mas torna o carro um pouco lento nas retomadas em última marcha. Isso explica a necessidade de se encurtar a relação final mesmo na preparação com turbo -- que de modo geral requer marchas longas e espaçadas -- a fim de "casar" as rotações de potência e velocidade máxima.

A utilização de câmbio e diferencial do atual Gol 1,8, com quinta marcha de relação 0,80:1 (0,68:1 em seu carro) e diferencial de 4,11:1 (3,89:1 no seu), responderia por cerca de 24% de encurtamento e seria uma alternativa para as preparações aspiradas. Substituir apenas o câmbio resulta em 17,6% de encurtamento. Só o diferencial, por discretos 5,6% -- uma opção para o uso do turbo. Se mantiver as relações de transmissão originais você pode contar com uma quase eliminação do uso da quinta marcha.

No motor com comando especial deve-se ter o cuidado de não ultrapassar o limite de giros original -- ou ao menos de não o fazer sem que seja realmente necessário utilizar toda a potência disponível --, pois é justamente essa atitude que compromete o motor. Caso isso seja freqüente recomenda-se o uso de lubrificante de melhor qualidade para minimizar o desgaste. Para ajudar na tarefa de vigiar o regime de giros é conveniente instalar um conta-giros, caso seu caro já não disponha de um. Ao escolher o módulo de injeção remapeado, prefira os que mantêm o limitador de giros, naturalmente readaptado aos novos regimes de potência.

A preparação aspirada costuma aumentar o consumo, portanto deve-se esperar uma despesa maior com combustível. Esse aumento ocorre porque crescem as perdas do motor com o aumento de giros, quer por atrito ou pelas dificuldades no escoamento dos gases de aspiração e escape. Para minimizar o efeito sobre o consumo pode-se recorrer ao aumento de taxa de compressão, que também melhora o torque, mas com isso cresce o risco de pré-ignição e quebra do motor. Trata-se, portanto, de alteração bastante delicada que exige um preparador capaz e experiente. Pode-se recuperar o consumo também com uma boa regulagem na curva de ignição -- o que também requer grande experiência do preparador.



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