Consultório de Preparação


por Iran Cartaxo


Como melhorar as retomadas do Mille EP


Sou proprietário de um Uno Mille EP e gostaria de saber o que fazer para melhorar seu desempenho, principalmente as retomadas que são muito ruins. Algo que não tivesse um custo muito alto. É possível envenenar esse motor mexendo na injeção? Por que a injeção desse modelo apresenta tantos problemas com engasgos? Por que mesmo depois de mapeado e aprovado pelo aparelho Kaptor 2.000, o carro continua engasgando e exalando um forte cheiro de gasolina?

Renato Gonçalves S. Vianna
renatosv@rio.com.br
Rio de Janeiro, RJ


Existe mesmo, Renato, um problema de falta de torque em todos os carros de 1.000 cm³. As fábricas têm buscado contornar essa deficiência, causada pelo baixo volume do motor, levando ao limite todos os sistemas. Os carros 1.000 atingem hoje cerca de 60 cv/l de potência específica, marca respeitável para motores de duas válvulas por cilindro.

Desta forma seu carro já está bem próximo do limite em termos de preparação e não se devem esperar grandes resultados de um remapeamento da central de injeção, mas essa é uma boa medida para quem quer obter mais torque, pois os regimes de baixa rotação são mais sensíveis ao remapeamento. É possível melhorar o desempenho desse motor trabalhando apenas na injeção, mas pode-se também optar pela colocação de um novo comando de válvulas e de um coletor de escape especialmente dimensionado.

As curvas de potência (as mais altas) e de torque estimadas para o Mille EP original (em azul), com remapeamento de injeção (em verde) e com preparação média (em vermelho)

Clique aqui para ver as curvas de potência e torque ampliadas


O que se faz no remapeamento é um reajuste dos valores de injeção e de ignição para adequá-los ao modo de dirigir mais usual do motorista, processo semelhante ao que se fazia reajustando o carburador e o distribuidor. Dois motores, mesmo do mesmo lote de fabricação, nunca são exatamente iguais. Além disso, quando em uso sofrem desgastes diferentes e são utilizados em regiões de propriedades climáticas diferentes. O fabricante não tem como fazer uma regulagem para cada caso e deve ainda deixar uma margem de segurança, para caso de abastecimento com combustível de má qualidade ou de funcionamento em condições críticas. O programador pode avançar sobre essa margem de segurança, pois conhece as condições de funcionamento e exigência do motor, o que permite obter mais torque e potência, sem contudo fazer milagres.

Simularam-se para seu caso um motor apenas com um (bem-feito) remapeamento de injeção, e outro no qual a taxa de compressão foi elevada em 0,5 ponto, trocou-se o comando por um com 15° a mais de duração de abertura das válvulas e levantamento (lift) maior em 0,8mm, e colocou-se um coletor de escape dimensionado.

Eis o desempenho obtido na simulação, incluídos os tempos de retomada de velocidade:

  Mille
original
Com injeção
remapeada
Preparação
média
Potência máxima 58 cv 62 cv 74 cv
Rotação de potência máxima 6000 rpm 6200 rpm 6800 rpm
Velocidade máxima 152 km/h 156 km/h 166 km/h
Rotação à velocidade máxima 6020 rpm 6200 rpm 6220 rpm
Aceleração de 0 a 100 km/h 17,2 s 16,1 s 13,5 s
Retomada 40 a 80 km/h em 3a 10,2 s 9,5 s 8,0 s
Retomada 60 a 100 km/h em 4a 16,5 s 15,4 s 12,9 s
Retomada 80 a 120 km/h em 5a 31,4 s 29,3 s 24,6 s
Torque máximo 8,2 mkgf 8,8 mkgf 8,8 mkgf
Rotação de torque máximo 3000 rpm 3100 rpm 3400 rpm
Encurtamento recomendado na relação de transmissão - 0,9 % 3,7 %
Aumento recomendado na injeção de combustível - - 25,0 %
Aceleração longitudinal no interior do veículo 0,38 g 0,41 g 0,48 g
A margem de erro é de 5% (para cima ou para baixo), considerando-se instalação bem-feita. Calculamos a aceleração de 0 a 100 km/h e a aceleração longitudinal máxima (sentida no interior do automóvel) a partir da eficiência de transmissão de potência ao solo do carro original. Para atingir os resultados estimados pode ser necessária a recalibragem da suspensão, reforços no monobloco e/ou o emprego de pneus mais largos. A velocidade máxima estimada só será atingida com o ajuste recomendado da relação final de transmissão. Os resultados de velocidade são para velocidade real, sem considerar eventual erro do velocímetro. A rotação à velocidade máxima é calculada considerando a relação atual de transmissão.
Algoritmo de simulação de preparação de motores desenvolvido pelo consultor
Iran Cartaxo, de Brasília, DF.


Quanto às falhas, Renato, nenhum automóvel deve sair de fábrica com defeitos naturais. Se você observar um defeito em seu carro, exija a solução do problema e não aceite desculpas de que seja natural do modelo. Os engasgos devem estar sendo causados pela má queima do combustível, por isso o cheiro de gasolina exalado. Como foi feita uma verificação da injeção com o Kaptor 2.000, e considerando-se que tenha sido bem-feita -- sugerimos confirmá-la realizando a mesma verificação em outra oficina --, conclui-se que o problema não está na central de injeção. Antes de mais nada observe a qualidade do combustível utilizado, trocando de posto e utilizando-se dos recomendados por amigos. Se não for este o problema verifique o estado das velas, procurando por óleo ou incrustrações, e troque-as se necessário. Cheque também o estado dos cabos de vela e das bobinas (que são duas no Mille EP, uma para cada dois cilindros).

Caso o problema não seja nenhum dos relatados, retire o bico injetor e providencie uma limpeza, que deve ser realizada em oficina especializada para não danificá-lo. Mesmo a verificação com o Kaptor 2.000 não consegue detectar todos os problemas que podem surgir com o carro em movimento, pois com o motor submetido a carga a admissão de ar é bem maior. Observe, portanto, se não há problema no medidor de pressão absoluta no coletor de admissão, ou MAP Sensor, que pode estar bloqueado ou defeituoso. Uma indicação disso é a ocorrência de engasgo em outras rotações que não a marcha-lenta.

Outro defeito que pode provocar engasgos, mas não produz cheiro de gasolina, é a ocorrência de furo ou má vedação no tubo que sai do filtro de ar e leva o ar para o coletor. Pode entrar ar por esse furo e "enganar" a medida de vazão de ar fornecida para a injeção, o que empobrece a mistura e produz engasgos. Em geral esse tipo de defeito impede o funcionamento do carro, pois o motor tende a morrer quando se acelera.



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