Consultório de Preparação
por Iran Cartaxo
Chevette: veneno aspirado
e motor de Opala
Possuo um Chevette DL 91 1.6/S
gasolina. O que posso fazer para pelo menos amenizar o problema
de falta de potência, mantendo-o aspirado? Não gostaria de
trocar a carburação por uma Weber 40, porque acho que iria
beber demais. Dizem que o motor do Chevette é muito frágil. É
verdade?
Jorge Luiz Ramos Silva
jorge.rad@openlink.com.br
Rio de Janeiro, RJ
Tenho um Chevette 91 a gasolina. Fui aconselhado por uma
oficina a colocar um comando de válvulas de 280º, polia
regulavel, filtro de ar esportivo, jogo de velas Champion e
bobina de ignição Mallory Pro-Master. Gostaria de saber o que
acham disso, qual o ganho de potência e o aumento de consumo com
essas alterações.
Gley Müller
gmuller@mbox1.pa.unisul.rct-sc.br
Preparar um motor como o do Chevette sem recorrer à
sobrealimentação ou aumentar bastante o consumo é algo
difícil, pois trata-se de motor de reduzido volume e, por seu
projeto antigo, provido de pouco avanço tecnológico.
As curvas de potência (as mais altas) e de torque
estimadas para o Chevette original (em azul), com preparação
leve (em vermelho) e com motor de 2,5 litros do Opala (em verde)
Clique aqui para ver as curvas de potência e torque ampliadas
Uma opção interessante seria a troca do motor pelo de 4
cilindros e 2,5 litros que equipou o Opala. É uma adaptação
relativamente simples, bem conhecida -- com inúmeros casos de
sucesso -- e que manteria o nível de consumo próximo ao
original, mas tem a desvantagem de alterar a distribuição de
peso do carro, com prejuízos à estabilidade. Por isso devem ser
feitas mudanças na suspensão, para reajustá-la ao novo
desempenho e peso. Os "chepaleiros" (donos de Chepala,
ou Chevette com motor Opala) recomendam as molas e amortecedores
dianteiros do pickup Chevy 500 em sua versão completa, dotada de
ar-condicionado.
O câmbio também deve ser adequado à curva de torque do
motorzão, sendo o diferencial do Chevette automático (3,07:1)
uma boa opção para conciliar desempenho, consumo e nível de
ruído. Apesar de alongar demais as relações, desajustando as
rotações de potência e velocidade máximas, permite bom
aproveitamento do alto torque em baixa rotação. É possível
esticar bem as marchas sem forçar o motor e viajar em boa
velocidade com baixo nível de ruído. O diferencial original
"casa" as rotações, mas exige maior número de trocas
de marcha no trânsito e ficará muito curto se o motor Opala
vier a ser preparado.
Outra receita para o Chevette é uma preparação leve no motor
original, que não resolve o problema de desempenho fraco mas
deixa o carro mais esperto em alta rotação. É o que sugere a
preparadora procurada por você, Gley. A receita só peca por
não aumentar a taxa de compressão, serviço relativamente
barato e que não apresenta riscos ao motor se efetuada com
critério. A receita ideal, portanto, envolve o aumento da taxa
em 0,8 ponto e a troca do comando pelo de 280o -- um
pouco bravo demais para o motor do Chevette, mas ainda aceitável
para uso de rua.
Pode-se apenas adequar os giclês do carburador original às
possibilidades do novo comando. Sua substituição por um de
maior vazão, porém, seria benéfica ao desempenho e melhoraria
a dirigibilidade em baixa rotação. A troca do filtro de ar,
velas e bobina é desnecessária para este nível de
preparação, mas acrescenta 1 ou 2 cv à receita e pode melhorar
o funcionamento do motor. O consumo deve ficar cerca de 15%
maior, caso a regulagem seja bem-feita, pois o aumento da taxa de
compressão melhora o consumo.
Observem o desempenho estimado:
| Original | Motor Opala * | Preparação leve | |
| Potência máxima | 73 cv | 84 cv | 87 cv |
| Rotação de potência máxima | 5200 rpm | 4800 rpm | 5700 rpm |
| Velocidade máxima | 151 km/h | 158 km/h | 160 km/h |
| Rotação à velocidade máxima | 4560 rpm | 3740 rpm | 4825 rpm |
| Aceleração de 0 a 100 km/h | 15,6 s | 14,0 s | 13,1 s |
| Torque máximo | 12,6 mkgf | 16,9 mkgf | 11,8 mkgf |
| Rotação de torque máximo | 3200 rpm | 2600 rpm | 3500 rpm |
| Encurtamento recomendado na relação de transmissão |
- | 22,0 % | 14,9 % |
| Aceleração longitudinal no interior do veículo |
0,40 g | 0,41 g | 0,47 g |
| A margem de erro é de 5% (para cima ou para baixo), considerando-se instalação bem-feita. Calculamos a aceleração de 0 a 100 km/h e a aceleração longitudinal máxima (sentida no interior do automóvel) a partir da eficiência de transmissão de potência ao solo do carro original. Para atingir os resultados estimados pode ser necessária a recalibragem da suspensão, reforços no monobloco e/ou o emprego de pneus mais largos. A velocidade máxima estimada só será atingida com o ajuste recomendado da relação final de transmissão. Os resultados de velocidade são para velocidade real, sem considerar eventual erro do velocímetro. |
| * A rotação à velocidade máxima foi calculada considerando a relação de transmissão original, exceto para o motor de Opala, em que foi simulado o diferencial de relação 3,07:1. |
| Algoritmo
de simulação de preparação de motores desenvolvido
pelo consultor Iran Cartaxo, de Brasília, DF. |
A simulação com motor Opala foi feita já com o diferencial de
relação 3,07:1 e pneus 185/60 R 14. Isso explica os valores
modestos de aceleração e velocidade máxima. A maior vantagem
na utilização deste motor não está na potência, mas no
torque abundante em qualquer regime, que faz do Chevette um carro
bem mais esperto e gostoso de dirigir. A durabilidade desse motor
também promete ser enorme, pois estará sendo pouco exigido num
carro muito mais leve.
Vale dizer que o motor de Opala ainda permite uma preparação.
É possível aumentar a taxa de compressão e utilizar um comando
bem mais bravo -- o que o generoso torque possibilita --, além
de outros artifícios que podem transformar o Chepala num
verdadeiro foguete. A título de curiosidade, alguns preparadores
já montaram o motor de 6 cilindros e 4,1 litros no Chevette, mas
o "transplante" requer extensas modificações
estruturais. A suspensão deve ser reprojetada, o câmbio precisa
ser reforçado e, evidência de alteração pouco recomendável,
é necessário recortar a "parede de fogo" (divisão
entre o compartimento do motor e o de passageiros) para alojar o
motorzão. O acesso às velas dos dois últimos cilindros é
feito pelo painel do veículo!
Não procede a informação de que o motor do Chevette seja
frágil. Depois dos problemas iniciais de durabilidade do comando
de válvulas (nos longínquos anos 70), não mais apresentou
defeitos crônicos e sua vida útil é bem razoável. Claro que,
como em todo motor, cuidados com lubrificação, uso moderado na
fase de aquecimento e respeito às características originais --
não é um motor esportivo -- são vitais para usá-lo com
confiança por muito tempo.