por Iran Cartaxo Mille com turbo pode chegar a 138 cv
Leonardo Lucena |
Este consultório já atendeu a muitas preparações com problemas, e na grande maioria a falta de conhecimento dos mecânicos sobre como funciona um sistema de injeção e como fazer adaptações nele são a origem do problema. Realmente, mesmo mais de 10 anos depois do primeiro carro com injeção (Gol GTi) ser lançado no Brasil, "carro injetado" ainda é motivo para muito preparador coçar a orelha. Na realidade, os princípios básicos dos ajustes necessários para atender a uma preparação são os mesmos, quer para carros equipados com carburador ou injeção. Trata-se apenas de reajustar a mistura e a curva de ponto de ignição às novas características impostas pela preparação. Com carburador todos sabiam a receita, mas com injeção o negócio não é tão imediato. Nem por isso deve ser considerado difícil, muito menos impossível. |
As curvas de potência (as mais altas) e de torque estimadas para o Mille EP original (em azul); com turbo a 0,2 kg/cm² (em verde); e com turbo e intercooler a 1,3 kg/cm² (em vermelho) |
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| Quando se começou a
fazer preparação turbo em carros com injeção no
Brasil, logo veio o problema: como reajustar mistura e
curva de ponto de ignição? A solução imediata para a
questão da mistura foi aumentar a pressão da linha de
combustível, fácil de se conseguir com uma intervenção
mecânica, um dosador. A questão do ponto não tinha
solução imediata, então era deixado como estava. A preparação deste Mille seguiu essa receita e, como se vê, os problemas foram muitos. E mistura não é suprida a contento, levando a falhas mesmo em rotações na qual o turbo não atua, e a falta de ajuste em ponto leva logo a detonação. Assim fica-se limitado a pressões baixíssimas, abaixo dos 0,4 kg/cm² -- pressão na qual o turbo começa a valer a pena se comparado a uma preparação aspirada. O aumento da pressão na linha de combustível é uma solução que beira o crime. Como esta linha não é projetada para suportar pressões muito acima da original, o risco de uma mangueira se soltar ou mesmo estourar, levando a um incêndio e expondo os ocupantes do carro à possibilidade de um acidente sério, é motivo suficiente para esta solução ser condenada sem maiores apelações. Ainda pesam contra esse expediente o fato de o aumento de pressão do combustível ser pouco eficiente em resolver o problema da adaptação da mistura, já que a quantidade de combustível injetado não varia linearmente com o aumento de pressão. Ainda, os bicos não conseguem aspergir o combustível corretamente em pressões muito acima das de projeto, e também a bomba elétrica tem a vida útil drasticamente reduzida. Portanto, a pressão na linha de combustível deste Uno deve ser imediatamente reduzida, pois 1,5 kg/cm² a mais de pressão não soluciona nenhum problema e traz muitos riscos. O que fazer? Para quem é leitor assíduo deste consultório a resposta está na ponta da língua: remapear ou usar um sistema de injeção adicional. Ambas as soluções são eficientes e a escolha entre elas depende das configurações da preparação, das exigências do cliente em termos de homogeneidade de funcionamento do motor, e do quanto se pode gastar. Saiba mais sobre esses procedimentos. Vale ressaltar que um sistema de injeção adicional é qualquer equipamento que possa prover o combustível a mais necessário. Podem ser caixas lineares, que simplesmente gerenciam um ou mais bicos injetores, aumentando a injeção linearmente com a rotação. Ou uma injeção adicional, que monitora os sinais de sonda lambda, calculando a quantidade de combustível necessária e gerenciando um bico para atender a demanda. Ou uma completa central auxiliar, semelhante à central de injeção
original. Há também diversas outras variações e
equipamentos semelhantes.Importante não usar só um bico injetor adicional, usando o sinal de acionamento de outro bico original. Montado desta forma, o carro pode até funcionar melhor que com o aumento da pressão na linha de combustível. Mas a quantidade de combustível adicional será ditada aleatoriamente, já que o sinal era destinado ao bico original e seu cálculo não levou em conta as condições da preparação. Assim, deve-se esperar funcionamento nada uniforme, falhas e limitações do motor. O correto será sempre usar um equipamento para gerenciar o bico extra, mesmo que bem simples, ou remapear ou usar outro equipamento para suprir a mistura necessária. Mas não nos esqueçamos da curva de ignição. Para ela as soluções são semelhantes às usadas para a mistura. No caso de preparação turbo, o risco de detonação leva à necessidade de um atraso na curva de ignição. Assim, um remapeamento ou qualquer equipamento que possa promover esse atraso na ignição resolve o problema. Mais uma vez existem equipamentos melhores ou mais apropriados a determinadas configurações e orçamentos. Neste caso existem também os de atuação linear, ligada à rotação. Existem os que permitem um semimapeamento do atraso na curva, ou seja, podem-se definir os atrasos e rotações em que ocorrem para alguns pontos. Há também os completamente mapeados, onde cada ponto e rotação da curva de ignição pode ser definido. Neste plano existem os que atuam diretamente no sensor de rotação, seja qual for seu modelo (hall, polia fônica, etc.), e os que atuam antes da bobina, independentemente do tipo de sensor, mas que precisam ter um circuito de potência interno, como uma ignição eletrônica. Para este Mille aproveitar realmente o turbo que lhe foi adaptado, a configuração da preparação deve ser alterada. A pressão de sobrealimentação deve ser mais elevada -- só assim o turbo valerá seu custo. Uma pressão de 0,6 kg/cm², usando intercooler e mantendo ainda gasolina, seria ideal para um bom rendimento e vida útil, e ainda evitaria a complexidade a mais que advém de uma conversão para álcool. Este desempenho já foi simulado neste consultório (saiba mais). Mas, para atingir o desempenho desejado, será necessário usar uma pressão de sobrealimentação bem mais elevada, 1,3 kg/cm². Isso torna quase obrigatório o uso de intercooler, quer com álcool, quer com gasolina. Neste caso, para evitar detonação, a taxa de compressão deverá ser reduzida para se usar gasolina. A conversão para álcool, mantendo a taxa de compressão original, neste caso passa a ser mais atraente, mas conseguir um funcionamento homogêneo do motor já não é tarefa assim tão fácil. Continua |
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