por Fabrício Samahá 

Torque: pico em rotação mais alta
nem sempre é perda em baixa


Tenho notado que algumas montadoras implementaram modificações em seus motores de 1,0 litro para o aumento de potência, a exemplo do Fiesta, Siena e Gol. No entanto, a rotação de torque máximo desses motores se elevou acima de 4.000 rpm. Qual a opinião do BCWS quanto a estas modificações, especialmente no tocante ao uso do veículo em trânsito urbano?

Francisco Xavier dos Santos
Tamandaré, PE

Não resta dúvida de que contar com mais torque em baixas e médias rotações, até 4.000 rpm, é proveitoso sobretudo no uso urbano. O que se deve observar é que o ponto de torque máximo não diz como o torque se distribui por toda a faixa de operação do motor.

Embora faltem informações sobre os motores citados de 1,0 litro, há outro exemplo recente, o do Focus 1,6, que ilustra bem esta questão.
O torque máximo, que na antiga versão a gasolina era de 14,6 m.kgf a 2.750 rpm, passou no motor flexível a 15,1 m.kgf com gasolina e 16 m.kgf com álcool, sempre a 4.250 rpm. À primeira vista, a impressão é de que se perdeu em baixa para ganhar em alta, pois o regime de maior torque foi elevado em 54%. No entanto, de acordo com a Ford, a 2.500 rpm o flexível já tem 98% de seu torque máximo, isto é, 14,8 ou 15,7 m.kgf conforme o combustível em uso. Na prática, com menor rotação que os 2.750 rpm do pico anterior, o novo motor já supera seus 14,6 m.kgf.

Outro caso interessante, porém mais antigo, é o do extinto Astra de 1,8 litro. Quando o modelo foi lançado, em 1998, desenvolvia nessa versão potência de 110 cv a 5.400 rpm e torque máximo de 15,8 m.kgf a 4.800 rpm, este um regime inesperadamente alto para as características do motor. Meses depois, para aproveitar a vantagem tributária de modelos com até 99 hp, a GM modificou a central eletrônica e limitou o motor a 100,5 cv a 5.400 rpm, com pico de 15,4 m.kgf a 2.600 rpm. Neste caso, a sensação ao ler os números é de que o motor "amansado" ficou com torque maior que o do antigo, já que o valor máximo caiu apenas 0,2 m.kgf, mas o regime abaixou em 2.200 rpm. Na verdade, como informou o fabricante ao Best Cars, o pico ao redor de 2.600 rpm já existia na versão anterior, mas era suplantado pelo de 4.800 rpm. Com a calibração visando a conter a potência, o que aconteceu foi o pico de 2.600 rpm se tornar o mais alto da curva, passando a constar dos dados técnicos.

Por tudo isso, analisar o comportamento do motor apenas pelo torque máximo pode levar a erro. O ideal é contar com as curvas de torque e potência do fabricante ou, na falta delas, com informações sobre o quanto está disponível em regimes mais baixos.

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Data de publicação: 11/12/07

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