Recall
virou termo da moda, e agora o consumidor sabe um pouco
mais de seus direitos com relação à segurança dos
bens e serviços que utiliza. No caso dos veículos, nas
últimas semanas houve uma bateria de informações
relativas à chamada dos automóveis que portariam
equipamentos cujo emprego arrisca a vida dos usuários,
para sua substituição, sem ônus.
Recall, uma convocação do veículo, é uma
obrigação determinada pelo Código de Defesa do
Consumidor. Sempre que um fabricante percebe, sabe ou
descobre que o produto tem um componente que traz perigo
aos seus ocupantes, convoca-o a um revendedor para trocar
a peça ou conjunto perigoso. A chamada técnica, outra
modalidade de assistência aos consumidores, se faz com
ou sem conhecimento do dono do veículo, constituindo-se
em substituição de um componente que dá ou pode dar
problemas, sem entretanto risco de segurança.
Pára ou anda
Desde agosto há noticiário constante no setor. Á época
houve uma conclusão por órgãos norte-americanos de que
pneus Firestone, equipamento de série dos utilitários-esporte
Ford Explorer, estavam envolvidos em mais de cem
acidentes com mortes.
A Ford, que comprava os pneus, agiu imediatamente: parou
de produzir Explorers para que os pneus de outras marcas
que estavam em estoque pudessem substituir os Firestone
dos carros dos clientes; fez anúncios enfáticos de página
inteira nos jornais norte-americanos se solidarizando com
os usuários e abrindo suas revendas, e a das marcas que
controla, além de cadeias de lojas que dão assistência
a veículos, para trocar, sem discutir, os pneus
Firestone, por outros de outras marcas; avisou que não
mais compraria pneus da marca, encerrando uma relação
de décadas. A Firestone demorou a reagir e foi tímida
ao estender a mão aos usuários.
Moral da história: a Ford saiu bem do evento -- perdeu
16% de seu lucro trimestral por conta da suspensão
temporária da produção dos Explorer, mas manteve a
credibilidade da clientela. A Firestone vê cair vendas
-- mês passado, nos EUA, supermercados ofereciam quatro pneus da marca por
US$ 99, menos que pneus coreanos de qualidade discutível
--, despencar suas ações e seu conselho diretor acaba
de fazer cair seu presidente.
No Brasil a GM fez um recall para a família
Corsa e o Tigra, importado que utiliza a base mecânica
do Corsa. Troca do mecanismo de fixação dos cintos de
segurança dianteiros, cujo uso pode causar fissuras no
metal e seu rompimento em caso de solicitação extrema,
o que pode matar. Mas só o fez porque uma jornalista --
Marly Olmos, do jornal Valor Econômico -- publicou a notícia.
A GM, que não estava preparada, teve que agitar-se às
pressas e até a entrevista de imprensa para o anúncio
foi adiada. Com o deflagrar do processo, descobriu-se que
a empresa conhecia o problema há meses e não cuidou de
corrigi-lo, o que causou ira do Procon paulista.
A Fiat está anunciando um recall para colocar
um espaçador na ancoragem do cinto, para aumentar sua ação.
Saiu na frente do problema levantado por uma publicação,
que realizou crash tests -- testes de impacto --
com carros nacionais 1.000 e neles os cintos do Palio EX
abriram.
A marca não tem indicações de lesões ou mortes
causadas pelo sistema, e o método utilizado pela revista
não segue as normas européia ou brasileira, mas ainda
assim adiantou-se, anunciando a revisão do sistema e a
colocação do espaçador na família Palio 1.000
produzida de 1998 para cá, além do picape Strada de
qualquer motorização, exceto a linha 2001.
As duas empresas são acionariamente embricadas, mas
pensam e agem de maneira diferente.
O público
A Gazeta Mercantil, através de seu portal, fez uma
pesquisa a respeito e concluiu que ao público a demora
em agir prejudica a imagem dos fabricantes. No caso,
aproximadamente 60% dos consultados acharam que o aviso
tardio compromete a imagem das marcas. Aproximadamente 30%
têm visão mais ampla, achando que falta segurança aos
carros nacionais; 4% dos consultados entendem que é
comum aparecer problemas nos carros e que isto ocorre em
todo o mundo; outros 4% acham que a convocação pode ser
tardia, mas se for realizada não afeta a imagem das
montadoras. Restantes 2% não se manifestaram.
Causa
Há vertentes várias com relação aos itens que podem
causar problemas nos automóveis nacionais. Teoriza-se
que o fato de o Brasil ter-se globalizado, reduzindo sua
engenharia por receber projetos prontos, adequados aos países
de origem, de primeiro mundo, pode surpreender-se com
problemas advindos das solicitações extremadas num país
de terceiro mundo.
Outras, que a pressa em busca da produtividade, que reduz
o tempo de projeto, testes e produção de um novo veículo,
não permite testes muito extensos, e que problemas podem
surgir com o uso intensivo, depois do lançamento. Outra
ainda que os veículos são produzidos para durar cada
vez menos, com ciclo de vida menor, forma de induzir um
giro mais rápido para sua substituição.
Caminho
Talvez a solução para estes casos seja a implantação
de um organismo oficial e o estabelecimento de um padrão
de exigências para testar e aferir características,
padrão construtivo, resistência ao uso árduo -- como
é o nas condições nacionais -- durabilidade, segurança
ou, até, se os veículos cumprem todas as exigências
legais.
Qualquer seja o desdobramento, a impressão que me resta
é que o consumidor vai lentamente reagindo e buscando
seus interesses e direitos. É exatamente esta ação do
comprador e seu julgamento sobre os fabricantes, que
ajudará a consolidar qualidade construtiva.
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