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Antigomobilismo com marketing,
a aula de Pebble Beach

Daimler 1932

Numa praia da Califórnia ocorre um Concours
d'Elegance
com clássicos muito valiosos

por José Roberto Nasser

Pebble Beach é uma prainha entre Monterey e Carmel, costa californiana. Endereço dos mais caros. E é a origem da variante conceitual sobre o melhor dos melhores, superando o original. Ao seu Concours d'Elegance agregaram-se os leilões, as corridas, o Concorso, num fim de semana feérico.

No circuito de Laguna Seca, para as Monterey Historic Races, havia uns 300 automóveis. Aos brasileiros a atração maior eram os Malzoni GT, primeiros sul americanos convidados ao evento, no stand da Audi, homenageada por seu centenário, atraindo apreciadores como o veterano piloto Stirling Moss e o de Fórmula 1, Michelle Alboreto, e o designer Sérgio Pininfarina, membro honorário do júri de Pebble Beach.

Expostos, os míticos AutoUnion Flecha de Prata, monopostos à época imbatíveis, com motores V 16, com supercompressor, 600 cv, traseiros, entre eixos, soluções que a Fórmula 1 adotou na década de '60. Junto, o AutoUnion '38 carenado para bater recordes, os Audi que participaram na última Le Mans, os Quattro para rallyes e DTM.

No domingo, os Malzoni GT 10 e 11, versão competição, dirigidos com pompa e circunstância por Boris Feldman e Eduardo Pessoa de Mello -- o street de Paulo Lomba quedou-se exposto -- alinharam o pó-pó-pó dos motores 2-tempos, na bateria contra Ferrari GTO, Aston Martin DB5, Corvette '62, Alfas SS e Zagato; Morgans 4 e Plus 4; e afins. Ficaram com as melhores colocações na Classe 1.000 cm3.

É um evento nacional, reunindo participantes equipados e torcida. De MGs TA, pré-guerra, a Jaguar C, Mustangs Shelby, Camaros Yenko, Cobras, GTs 40, Porsches Speedsters, antigos Fórmula 1...

CONCORSO

Noutro programa, o Concorso Italiano, uns 500 veículos feitos na Itália -- talvez 200 Ferraris, e Maseratis, Lamborghinis, Alfas, Fiats, Morettis... peças e automobilia. Ostensivo adesivo vermelho dizia "Tragam a Alfa de Volta" -- a Alfa saiu dos EUA há alguns anos. A campanha se destinava à Fiat of North America, patrocinadora do evento.

Tem padrão próprio. Sem as aditivações da Blackhawk Collection ou do Concours d'Élegance de Pebble Beach, mas preciosista ao reverenciar a originalidade. Ferraris, Lambos, Maserattis, Alfas, usavam escapamento Borgo, original de fábrica, com adesivo perfeito -- e o interior no vermelho brilhante que os caracteriza -- sem marcas de funcionamento...

SEM LEILÃO

A Blackhawk Collection mostrou 50 veículos raros, Bugattis, Packards, Rolls, Bentleys, três Mercedes Gull Wing, e inacreditável reunião de 13 Duesenberg, os mais luxuosos americanos, disponíveis entre US$ 1,5 e US$ 2 milhões. Padrão Pebble Beach, ou seja, o superlativo do superlativo -- cromados e enfeites em excesso, pintura PU em 16 demãos!

Ao lado, time brasileiro, Malzonis no estande da Audi. No alto, Daimler Double Six, Special Saloon, 1932, Best of Show (fotos R. Nasser)
TIPO COMEÇO

Leilões integram o programa. Começa com o do DoubleTree Hotel nas noites de quinta e sexta. Veículos variados, preços menores. Um Fórmula Jr DKW a razoáveis US$ 7.500. Um Ford Thunderbird, '56, tipo restauração brasileira, US$ 25 mil. E um Chaparral circa '65, vendido por US$ 2 milhões. De corridas, inaplicável às ruas, mostra como é segmentado o gosto norte-americano pelos antigos. Os leilões seguem com o Brooks, onde um Mercedes-Benz, protótipo de Gull Wing chegou a US$ 1,8 milhão -- e o dono não aceitou!!! -- e encerram-se no Christie's.

A RAZÃO

O Pebble Beach Concours d'Elegance criou padrão, individualização e fama mundiais. O convite valoriza os 140 automóveis. Ser um dos melhores, dobra seu valor. Ser o Best of Show, multiplica -- e note, são veículos de centenas de milhares ou alguns milhões de dólares. É o marketing do charme. Esta 49a. edição homenageou a Packard e seus 100 anos. Foram a unidade no. 1 e exemplares com carrocerias especiais, desconhecidas no Brasil, pinturas a refletir grama e flores... O Best of Show, inacreditável Daimler Double Six Special Saloon, motor V com 12 cilindros, cujos cromados e pintura eram superlativas, absolutamente dentro do evento: muito superiores à sua construção em 1932.

SEM PARÂMETRO

Um Alfa Romeo 8C 2900B Cabriolet Pininfarina, 1937, bateu todos os recordes de preço assinalados pela Casa Christie's nesta década: impensáveis US$ 3.700.000. Mas o Maserati Ghibli, '72, perfeito, ex-Frank Sinatra, mereceu meros US$ 38.000. Um Mercedes Gull Wing, perfeito para exposições brasileiras, mas para reforma nos padrões europeus e norte-americanos, saiu por US$ 140.000. Num Fiat 500, com teto em lona listrada, um insano pagou risíveis US$ 34.000; um Morris Mini Cooper obteve o mesmo preço de um Jaguar E Type V12: US$ 38.000. Um Ford Thunderbird '57, janela Opera, opção supercharger, e rodas raiadas, objeto do desejo, US$ 65.000.

FILOSOFIA

O Mais do Mais buscado em Pebble Beach, criou os Carros de Exposição, tão acima da originalidade máxima, que não rodam para não se desgastar.

O próximo irá de 16 a 20 de agosto de 2000. É uma aula a quem gosta dos antigos. Se é seu caso, avie-se para conseguir vaga em hotel. Não é fácil. No fim de semana de 4 dias, participantes, famílias, organizadores, transportadores, corretores de seguro e transporte, vendedores de serviços, expositores, imprensa, visitantes de todo o mundo, lotam os hotéis.

Sou crítico assumido da restauração superior à obra original, mera demonstração de tecnologia moderna movida a muito dinheiro -- o que não é o espírito da preservação dos veículos antigos. Mas entendo os eventos de Pebble Beach como válidos ensinamentos, a começar pelos concursos com jurados competentes e parâmetros para julgamento, incentivando o aperfeiçoamento e a qualidade. Pelo padrão, pela forma de apresentação, pelos leilões. É um programa bonito e instrutivo. Para aplaudir ou criticar, conheça.


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