Pelo fato
da maioria da população brasileira viver nos centros
urbanos do Sudeste, nunca teve a possibilidade de
conduzir um veículo comum nos estados do Nordeste, o
bugue, ou bug, ou bugre, como é chamado em alguns
lugares. Ele consiste num chassi (sendo mais usual o do
VW Brasília ou alguns tubulares fabricados no Nordeste)
montado em cima de quatro rodas de aros diferentes, duas
a duas, com pneus 165 na dianteira e 420 na traseira.
Impulsionado por um conjunto de motor e câmbio VW (o de
Brasília é o mais usado por ser mais baixo); e "forrado"
por uma das diversas carrocerias moldadas em fibra de
vidro. As demais especificações são as mais variadas
possíveis, sendo que há, pelo menos, quinze modelos de
diferentes montadores.
Tal experiência torna-se única quando comparada à
condução dos autos vistos no cenário automotivo atual.
As semelhanças entre conduzir seu automóvel de passeio
de casa para o trabalho e domar um bugue acabam ao virar
da chave.
O motor exposto causa, no começo, certa irritação
auditiva a quem está acostumado com autos com o elemento
silencioso, proteção acústica, etc. O conforto também
distancia-se dos autos "comuns"; os bancos
dianteiros, com estrutura de ferro, quase não têm
acolchoamento; o de trás não passa de um "madeirite"
coberto por uma capa plástica, pelo motivo do interior
do bugue tomar chuva eventualmente. Aliás, por esse
mesmo motivo são raros os botões no painel e
simplificados os mostradores, sendo que estes raramente
funcionam com eficácia e precisão.
O acesso aos bancos dianteiros requer certo esforço,
pois a altura do assoalho, somada à lateral de fibra,
significam um obstáculo a pessoas de baixa estatura,
demasiadamente obesas ou deficientes físicos. Ao assento
de trás, deve-se escalar, através do gigante pneu
traseiro, o respectivo pára-lama, com o cuidado de não
encostar no motor, que pode estar quente e sujo de graxa.
Uma vez dentro do auto, não leve quaisquer objetos
desnecessários, pois a maioria dos bugues não tem porta-luvas
nem porta-objetos e, por ser o assoalho munido de dutos
para escoamento, a entrada de água, areia ou poeira é
quase inevitável, podendo danificar objetos alojados ao
chão.
A posição de dirigir não é muito variável, sendo que
os bancos dianteiros ficam próximos ao assoalho, sobre
trilhos com um pouco mais de trinta centímetros de
comprimento. A direção herda a mesma posição da VW
Brasília, porém sempre é menor que a original, pelo
motivo de dirigibilidade na areia, onde o estilo do
manejo é diferente se comparado ao asfalto.
Engata-se a primeira marcha e ele começa a rodar. O
torque é superdimensionado para o carrinho, que,
geralmente, quando muito acelerado, começa a jogar a
traseira com violência para um dos lados. Logo se
percebe que a frente é bem mais estreita que a traseira,
algo importante de se lembrar ao parar ao lado de outro
carro no semáforo.
Os retrovisores (geralmente de moto) não ajudam nas
trocas de pistas, mesmo sendo o carro conversível. O pára-brisa
resume-se à metade do tamanho de um usual; centrado ao
meio do painel, ele é baixo e estreito. Não pare muito
próximo aos semáforos, pois estes ficam invisíveis. As
curvas, em baixa velocidade, são feitas com uma
facilidade incrível, mesmo considerada a força necessária
para manejar uma direção sem qualquer assistência.
Porém, todos os incovenientes desaparecem quando se
chega ao habitat natural do bugue: a areia fofa. A
primeira providência é a de recalibrar os pneus: os
enormes traseiros ficam com apenas seis libras, enquanto
os dianteiros ficam por volta de oito. Deste modo se
dificulta o "atolamento", situação comum a
bugueiros iniciantes. Outra providência a tomar é a
informação: se estiver na praia, se informar sobre a
maré, a presença de foz de algum rio e outras
periculosidades como os conhecidos maceiós, buracos
invisíveis na areia, que podem causar acidentes com
conseqüências graves.
O cuidado na condução do bugue deve ser redobrado, pois
um acidente de proporções até pequenas pode causar
conseqüências graves para os ocupantes do veículo,
pelo motivo das condições de segurança serem precárias
na maioria desses. Em alguns trechos de praia, o tráfego
de autos é proibido, com aviso por placas.
A superlotação também deve ser evitada. Por ser um
carro pequeno, sem espaço interno para mais de quatro
ocupantes, não se deve levar mais pessoas, pois há o
perigo até do pneu traseiro "comer" a fibra do
pára-lama e ferir um dos ocupantes (acidente comum
nessas situações).
Enfim, o uso do bugue, restrito ao lazer, é simples e
interessante e a sensação de liberdade é inigualável
-- ainda mais se o passeio for feito em uma das diversas
dunas de areia que nos reserva o Nordeste.
Ricardo Dias Sacco
rids@datoro.com
São Paulo, SP
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