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Palavra do Leitor

Bugue, experiência (no
mínimo) inusitada

Os simpáticos veículos que circulam pelas praias
nordestinas exigem algum aprendizado

por Ricardo Dias Sacco

Pelo fato da maioria da população brasileira viver nos centros urbanos do Sudeste, nunca teve a possibilidade de conduzir um veículo comum nos estados do Nordeste, o bugue, ou bug, ou bugre, como é chamado em alguns lugares. Ele consiste num chassi (sendo mais usual o do VW Brasília ou alguns tubulares fabricados no Nordeste) montado em cima de quatro rodas de aros diferentes, duas a duas, com pneus 165 na dianteira e 420 na traseira.

Impulsionado por um conjunto de motor e câmbio VW (o de Brasília é o mais usado por ser mais baixo); e "forrado" por uma das diversas carrocerias moldadas em fibra de vidro. As demais especificações são as mais variadas possíveis, sendo que há, pelo menos, quinze modelos de diferentes montadores.

Tal experiência torna-se única quando comparada à condução dos autos vistos no cenário automotivo atual. As semelhanças entre conduzir seu automóvel de passeio de casa para o trabalho e domar um bugue acabam ao virar da chave.

O motor exposto causa, no começo, certa irritação auditiva a quem está acostumado com autos com o elemento silencioso, proteção acústica, etc. O conforto também distancia-se dos autos "comuns"; os bancos dianteiros, com estrutura de ferro, quase não têm acolchoamento; o de trás não passa de um "madeirite" coberto por uma capa plástica, pelo motivo do interior do bugue tomar chuva eventualmente. Aliás, por esse mesmo motivo são raros os botões no painel e simplificados os mostradores, sendo que estes raramente funcionam com eficácia e precisão.

O acesso aos bancos dianteiros requer certo esforço, pois a altura do assoalho, somada à lateral de fibra, significam um obstáculo a pessoas de baixa estatura, demasiadamente obesas ou deficientes físicos. Ao assento de trás, deve-se escalar, através do gigante pneu traseiro, o respectivo pára-lama, com o cuidado de não encostar no motor, que pode estar quente e sujo de graxa. Uma vez dentro do auto, não leve quaisquer objetos desnecessários, pois a maioria dos bugues não tem porta-luvas nem porta-objetos e, por ser o assoalho munido de dutos para escoamento, a entrada de água, areia ou poeira é quase inevitável, podendo danificar objetos alojados ao chão.

A posição de dirigir não é muito variável, sendo que os bancos dianteiros ficam próximos ao assoalho, sobre trilhos com um pouco mais de trinta centímetros de comprimento. A direção herda a mesma posição da VW Brasília, porém sempre é menor que a original, pelo motivo de dirigibilidade na areia, onde o estilo do manejo é diferente se comparado ao asfalto.

Engata-se a primeira marcha e ele começa a rodar. O torque é superdimensionado para o carrinho, que, geralmente, quando muito acelerado, começa a jogar a traseira com violência para um dos lados. Logo se percebe que a frente é bem mais estreita que a traseira, algo importante de se lembrar ao parar ao lado de outro carro no semáforo.

Os retrovisores (geralmente de moto) não ajudam nas trocas de pistas, mesmo sendo o carro conversível. O pára-brisa resume-se à metade do tamanho de um usual; centrado ao meio do painel, ele é baixo e estreito. Não pare muito próximo aos semáforos, pois estes ficam invisíveis. As curvas, em baixa velocidade, são feitas com uma facilidade incrível, mesmo considerada a força necessária para manejar uma direção sem qualquer assistência.

Porém, todos os incovenientes desaparecem quando se chega ao habitat natural do bugue: a areia fofa. A primeira providência é a de recalibrar os pneus: os enormes traseiros ficam com apenas seis libras, enquanto os dianteiros ficam por volta de oito. Deste modo se dificulta o "atolamento", situação comum a bugueiros iniciantes. Outra providência a tomar é a informação: se estiver na praia, se informar sobre a maré, a presença de foz de algum rio e outras periculosidades como os conhecidos maceiós, buracos invisíveis na areia, que podem causar acidentes com conseqüências graves.

O cuidado na condução do bugue deve ser redobrado, pois um acidente de proporções até pequenas pode causar conseqüências graves para os ocupantes do veículo, pelo motivo das condições de segurança serem precárias na maioria desses. Em alguns trechos de praia, o tráfego de autos é proibido, com aviso por placas.

A superlotação também deve ser evitada. Por ser um carro pequeno, sem espaço interno para mais de quatro ocupantes, não se deve levar mais pessoas, pois há o perigo até do pneu traseiro "comer" a fibra do pára-lama e ferir um dos ocupantes (acidente comum nessas situações).

Enfim, o uso do bugue, restrito ao lazer, é simples e interessante e a sensação de liberdade é inigualável -- ainda mais se o passeio for feito em uma das diversas dunas de areia que nos reserva o Nordeste.

Ricardo Dias Sacco
rids@datoro.com
São Paulo, SP

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