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Palavra do Leitor

Como encarar a qualidade de um veículo

O consumidor já sabe avaliar o padrão adotado pelo
fabricante, descartando slogans distantes da realidade

por Rodrigo O. A. M. Ferreira

Existe uma característica extremamente desejável para os produtos fabricados em série cujo nome é repetibilidade. Ela consiste de se executar determinada tarefa inúmeras vezes, da mesma maneira, observados os parâmetros evolutivos. Obviamente interessa repetir uma tarefa correta, tanto quanto evitar cometer erros. Também é preciso distinguir entre erro e obsolescência, pois as práticas padronizadas na montagem do Ford Modelo T eram corretas, no cômputo geral, más não se prestam à montagem de um carro do terceiro milênio porque são obsoletas. 

Contudo, há uma feição comum entre práticas corretas antigas e atuais: elas geram resultados conformes, aprováveis sob o enfoque da qualidade, e deveriam ser passíveis de repetição. O advento da robótica industrial tem assegurado taxas de repetibilidade elevadas, não implicando necessariamente, entretanto, na boa qualidade da tarefa realizada: tanto um homem, quanto um robô, podem fazer coisas mal feitas, por razões distintas, às vezes, e com resultados idênticos, sempre. O resultado é um produto de qualidade duvidosa, corretamente fabricado.

Pode-se, então, depreender que conformidade não se traduz em produtos de qualidade esmerada? Esta correto, e também é admissível gerar-se produtos errados em série devido a taxas de repetibilidade altas. Provas disso são, respectivamente, a "Família BX" da Volkswagen (Gol 'quadrado'), estritamente conforme e qualitativamente deficiente, e os recalls, correção de erros em série admitidos pelas montadoras. Em ambos os casos o consumidor depara-se com um produto, a grosso modo, incapaz de atendê-lo, seja por aspecto desagradável (a carroceria do Gol 'quadrado' é de uma imperfeição gritante), ou pela potencial capacidade de falhar inesperadamente (violentamente, caso dos Fiat Tipo 'pirotécnicos').

Os resultados possíveis das combinações entre erro e acerto, taxa de repetibilidade, e normas de qualidade são singulares. Há os produtos de má qualidade bem fabricados, como também produtos de boa qualidade precariamente fabricados. A MG inglesa exemplificou este último caso, empregando martelos para conformar chapas, utilizando madeira no assoalho dos carros, cada um 'diferente' do outro quanto ao ajuste das peças -- mas todos detentores de uma qualidade intrínseca respeitável, repetitiva, difícil de encontrar noutro carro de grande série, por melhor que sejam as máquinas usadas para fabricá-los.

Mal feitos os MG? Nunca; precariamente, apenas, do ponto de vista atual. E por que frestas irregulares são aceitáveis num MG e criticadas num Gol BX? Simplesmente devido ao fato de o Gol nada ter a oferecer de extraordinário -- quem o compra é por razão ordinária, comum, mero meio de transporte, coisa inimaginável pelo comprador de um carismático MG. Quanto aos produtos de boa qualidade e bem fabricados, eles são o resultado da observância de normas de fabricação e de controle de qualidade rigorosas com a vocação de profissionais comprometidos com as funções desempenhadas.

Convém mencionar a matéria-prima no elenco de fatores constituintes da boa qualidade. Ora, seria inusitada a presença de placas de nogueira no painel de um Gol, ou de fibra de carbono no de um Palio. Plástico é o esperado, sendo exatamente o material utilizado. Não são mais admitidos plásticos de segunda linha, e quase todos os fabricantes não se atrevem a instalar num carro fabricado hoje um painel que não seja de diabizal, sob pena de ser suplantado pelo concorrente.

Atualmente inúmeros produtos, dentre eles os veículos, estão mais ao alcance do público. Quem dita a qualidade desses produtos é o consumidor, felizmente capaz de aprimoramento do critério seletivo, a ponto de começar a perceber quais fabricantes têm-no levado a sério, aprimorando os produtos oferecidos, e quais apelam para slogans grandiloqüentes, cujo tema não passa de um 'chavão', efetivamente distantes da realidade. Qualidade hoje é posta à prova. Com o usuário, a palavra final.

Rodrigo O A M Ferreira
São José dos Campos, SP
roamf@ig.com.br

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