| por Ubiratã Muniz da Silva |
Quem nunca foi fechado por um taxista, empurrado por um motorista de ônibus, ameaçado por um perueiro ou teve o retrovisor arrancado por um motoboy, que atire a primeira pedra!
Todos os motoristas com um mínimo de tempo de direção já passaram pelo menos uma vez na vida por uma das situações acima. Trata-se do pior exemplo da selvageria reinante no trânsito. Motoristas e motoqueiros "profissionais", que usam o trânsito e seus veículos motorizados como meio de vida -- o que teoricamente nos levaria a supor que seriam os motoristas mais cuidadosos, já que não querem ficar sem trabalho --, acabam sendo, na verdade, os mais temidos seres que habitam nossas vias.
Esses "profissionais", que consideram todos os pedestres e outros veículos com quem precisam dividir as pistas como um empecilho ao seu trabalho, são uma minoria que suja o nome dos profissionais de verdade (maioria). Estes consideram as outras pessoas como clientes em potencial, sendo cordiais com as mesmas e tratando com zelo o seu patrimônio, o patrimônio alheio que transportam, as vidas de seus passageiros e, sobretudo, respeitam as leis de trânsito e do bom senso.
Os maus profissionais citados acima se julgam superiores aos outros motoristas apenas pelo fato de estarem dirigindo a trabalho. Por isso, se julgam no direito de cometer arbitrariedades no trânsito (normal, pois acham que a pista é só deles e que todos os outros só servem para atrapalhar), utilizando-se de meios ilícitos para driblar a fiscalização (por exemplo, dobrando as placas de seus carros e motos para não serem identificados), e que, além de burlarem todas as leis do trânsito e do bom senso, ainda reclamam que o limite de infrações para cassação da carteira (previsto no novo Código de Trânsito Brasileiro) é baixo demais.
Para completar, eles se defendem, alegando que precisam correr para cumprir prazos absurdos (desde o motoboy que precisa entregar documentos do outro lado da cidade, até o taxista que precisa levar um passageiro ao aeroporto no horário e os caminhoneiros que tomam medicamentos -- os famosos arrebites -- para dirigirem a noite inteira sem parar). Mas o fato é que a culpa é deles próprios, que correm para fazer mais viagens e ganhar mais dinheiro (corridas, comissão, frete, passageiros, etc.), a um custo muito alto, normalmente de vidas (próprias ou alheias), e
nada justifica essa selvageria.
Convém destacar que outra grande causa dessas infrações ocorre devido à
impunidade. Se a fiscalização fosse realmente eficiente e as penas fossem severas e, o mais importante, aplicadas de fato, os motoristas ficariam com medo de fazer besteira no trânsito.
Cito três exemplos da absoluta falta de respeito com a vida alheia que esses maus profissionais têm:
Primeiro, ocorrido comigo em Brasília. Um dia (sábado à noite), precisei pedir uma informação sobre como chegar a uma conhecida pizzaria da cidade (que não recordava onde era), e fui pedir informações aos motoristas de praça que estavam em um ponto de táxi. Qual não foi minha surpresa ao ver que os taxistas estavam com um isopor cheio de cerveja, e que estavam visivelmente alcoolizados, e que não conseguiram sequer informar onde era o local que eu procurava. Detalhe: eu estava a apenas uma quadra do meu destino.
Segundo, também ocorrido comigo em Brasília. Numa sexta-feira à noite, estava eu trafegando pelo balão do Aeroporto (que tem três ou quatro faixas de rolamento e várias saídas), pela faixa do meio, quando um táxi que estava na faixa esquerda, para não perder sua saída, jogou seu Voyage branco para a direita com toda a imprudência que se pode esperar. Não só quase acertou meu carro, como no instinto de desviar do táxi, por pouco não acertei um Corsa que vinha à minha direita e um pouco atrás de mim. E o motorista ainda colocou sua mão para fora do seu táxi e me fez um gesto obsceno. Isso porque ele estava levando passageiros, que no evento de uma colisão entre meu carro e o dele, com certeza sairiam muito machucados.
Terceiro, ocorrido com um amigo em São Paulo. Estava ele a circular com seu Palio, e estava parado em um sinal, quando um motoboy parou do lado direito do seu carro. Para não cair, apoiou o pé na lateral do seu carro, e para piorar, na hora de arrancar raspou o guidão da moto na porta direita do seu carro. Meu amigo buzinou e foi atrás para reclamar, e qual não foi sua surpresa ao ver que o motoboy, percebendo que meu amigo estava chamando a polícia pelo celular (para passar a placa da moto), pegou um tijolo no chão, passou a perseguir o Palio no Complexo Viário Maria Maluf, e arremessou o tijolo contra o carro (por sorte bateu apenas na lataria e ninguém se machucou). E fugiu. Detalhe importante: a polícia averiguou o número da placa da moto e foi constatado que o número pertencia a um Gol.
E, por fim, falta pressão dos próprios profissionais (os bons profissionais de verdade), que deveriam fazer o possível para coibir os abusos da minoria que suja o nome de suas categorias. Só os bons taxistas, por exemplo, podem acabar com o
estereótipo do "todo taxista é selvagem". Como? Primeiro, dando o exemplo. Segundo, tomando ações corretivas contra os maus profissionais da praça, que pode ir desde o ostracismo (por exemplo, impedir um taxista que tenha ocorrências de selvageria no trânsito de participar de cooperativas), ou mesmo a denúncia às autoridades (in)competentes.
Só fica a pergunta: Se os motoristas profissionais não derem o bom exemplo, quem dará?
Ubiratã Muniz da Silva (Bira)
Brasília, DF
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