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Palavra do Leitor

O fim dos segmentos superiores

Se a GM não produzir aqui o novo Vectra, contribuirá
para manter-nos meros fabricantes de carros 1.000

por Eduardo Teixeira Küll

Lendo a revista Carro deste mês, estava lá uma nota afirmando que o sucessor do Vectra não será fabricado no Brasil, apenas o atual modelo terá seu estilo atualizado.

Caso tal informação seja verdadeira, nós, brasileiros em geral, além daqueles apaixonados por automóveis, temos muito o que lamentar. Lembro-me que na época um pouco anterior à eleição de Fernando Collor se dizia que, produzindo 600 mil unidades/ano no Brasil, era impossível se gerar escala para a redução de preço dos carros e tornava-se inviável a incorporação de tecnologia a novos modelos.

Mais de dez anos depois, estamos chegando a uma produção próxima a DOIS MILHÕES de unidades/ano, com capacidade de produção de mais de TRÊS MILHÕES, várias novas marcas produzindo, etc., etc. Talvez quando foi criado o programa do "carro popular" esta fosse a melhor solução, mas como em tudo neste país, acaba-se por adotar a política do "deixa como está para ver como é que fica" e espera-se aparecer a próxima pedra no caminho para resolver o caso. Nada se planeja, nada é preparado, cuidado tendo uma visão de futuro médio e longo (lembrem-se que contando o tempo do senhor Itamar Franco na Presidência o atual grupo vai completar praticamente DEZ anos de governo ininterrupto).

Não sou nem nunca fui contra os carros 1.000, mas com certeza, após a saída da "emergência" da baixa produção, deveria ter sido conversado e estruturado uma plano entre Anfavea e Governo também para favorecer outras faixas de motorização e categorias de veículos. É inconcebível pensar que estamos condenados a produzir carros 1.000 em sua maioria e que tão poucas fábricas produzam os médios, e que estes tenham tanto de seu conteúdo importado. Lembrem-se: agregar tecnologia garante a qualidade e bom preço de venda para o produto, mas se esta for produzida/desenvolvida no país, será melhor ainda para nós e nossa combalida balança comercial.

Vejam o ridículo: o primeiro carro nacional com sidebags (Marea) tem, segundo a Fiat, 38% do seu conteúdo importado; o Astra vendido no México é importado da Alemanha (de que valeu então o acordo automotivo entre os dois países?); o Bora vendido aqui é mais caro e menos equipado que um Golf equivalente; o Scénic vendido na Argentina é equipado com sidebags, vidro traseiro basculante e teto solar, por isso, provavelmente importado da França (!); temos tido que esperar, em média um ano para poder comprar veículos produzidos aqui com as atualizações feitas em seus países de origem.

Da parte do governo então, nem se fala. Além dos aumentos absurdos cobrados pelos combustíveis, apesar de produzirmos mais de 80% dos derivados de petróleo consumidos no país, do álcool ser 100% nacional e de sermos o 2º. maior produtor de soja do mundo (cadê o Biodiesel?), temos a estúpida sanha arrecadatória que nos faz ter um dos veículos mais tributados do mundo.

Fala-se muito que o Brasil é (ou será) o maior produtor de motores do mundo, mas ainda falta agregar tecnologia aos produtos feitos e vendidos para nós. Onde é que estão os motores GM 1.8, 2.0 e 2.2 16V, iguais aos europeus? Feitos em alumínio, portanto mais leves e econômicos, e até mesmo com as árvores contra-rotantes para torná-los mais silenciosos, especialmente o 2.2, que são produzidos aqui. Isso sem falar no bendito V6, sempre adiado.

É ridículo um país com tantos problemas de estradas produzir tão poucas picapes; esperava que com a transferência da produção da Silverado para o Brasil tivéssemos acesso ao modelo novo ou, permanecendo esta que aí está, continuasse a produção da Grand Blazer. De onde e quando teremos estes produtos? E a Trailblazer? Não deveria ser produzida aqui, inclusive o motor?

Nunca imaginei que o Brasil fosse produzir um Mercedes, no caso o Classe C, apesar de ser simplesmente a montagem do carro importado. Mas sempre achei que poderíamos produzir alguns dos médios-grandes, como o próprio Vectra, o Mondeo, o Passat, até mesmo alguns gêmeos de marcas superiores, mas com maior conteúdo importado pelo motivo óbvio de serem destinados a públicos diferentes (Audi A4, Alfas 147 e 156, Astra Coupé, etc.). Apenas posso dizer que lamento muito tais notícias.

Tudo isso e muito mais, apesar de ainda assim pagarmos caro pelos nossos carros, sermos explorados nos pedágios, tungados pelos governos nos três níveis e maltratados pelos fabricantes/importadores (justiça seja feita, com algumas exceções, e a maioria entre os importados -- fora da realidade para a maioria da população), ainda nos faz apaixonados por automóvel.

Gostaria muito de ver, mesmo que fosse apenas um exercício de tecnologia, um motor moderno, equipado com tudo aquilo que a ciência proporcionou até hoje para melhorar o desempenho e principalmente o consumo e a emissão de poluentes, preparado para o álcool e/ou o biodiesel (se liguem, Fiat e Volkswagen, vocês têm verdadeiras jóias nas mãos: motores Fire e 1.0 turbo).

Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@zipmail.com.br

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