| por
Eduardo
Teixeira Küll |
Li com muita tristeza a
coluna de Luís Alberto Pandini, "Globalização
temporária". Já há algum tempo tenho me pronunciado a
respeito e muito indignado; dez anos atrás dizia-se que com a produção
da época não era possível ter escala para modernizar nossos produtos,
hoje temos uma produção duas vezes e meia maior absorvida pelo mercado
interno e parece que a modernização dos modelos produzidos aqui está
a passos de tartaruga, ou quem sabe, novamente, a passo de carroça.
Como é possível querer exportar modelos produzidos apenas aqui (vide
os modelos 1.000)?
Eu e alguns amigos fizemos um trato alguns anos atrás: cada um de nós
assina uma publicação automotiva diferente e após a leitura,
trocamos; assim todos lêem todas as publicações disponíveis no
mercado. No mês de setembro, Quatro Rodas mostrava um design
possível do Fiesta brasileiro (nada mais que o modelo europeu com faróis
semelhantes ao do Focus) e dizia que o nosso carro foi desenvolvido nos
Estados Unidos, simplificado ao máximo, para baratear a produção e
torná-lo "exportável".
Outra publicação dizia que a unidade de Camaçari é a fábrica da
Ford mais moderna do mundo; chegou-se a dizer que as portas do Fiesta
brasileiro teria um desenho diferente, pois a melhor (sic) tecnologia
utilizada aqui daria um encaixe que não era possível nas
"velhas" fábricas da Europa... CONTRA-SENSO: como é que se
gasta tanto dinheiro, se aplica tanta tecnologia para produzir um pé-de-boi?
Um design "de teste" para uma marca que depende
visceralmente deste modelo para sua sobrevivência em nosso mercado?
Em Motor Show, ao contrário, na matéria sobre o novo Polo, o
repórter explica que o modelo a ser fabricado aqui vai ser igual ao
europeu para simplificar o projeto, cita nominalmente os esforços em
dobro da VW para cada atualização de seu produtos de entrada (Polo
atual: motor transversal e Gol: motor longitudinal); explica que modelos
mundiais barateiam a produção, uma vez que a fábrica pode encomendar
peças em qualquer lugar do mundo para qualquer uma de suas unidades, no
caso de necessidade (greves, paralisação de alguma unidade, etc.) e
diz com todas as letras que o consumidor é igual em todo o mundo: quer
um modelo bonito, com design atualizado e tecnologicamente avançado.
Mesmo assim, foi divulgado no site Carsale a opinião do
presidente da VW que tanto o Golf quanto o Audi A3 poderiam ter sua vida
estendida no nosso mercado -- apesar destes modelos não oferecerem aqui
bolsas infláveis de janela, controle de estabilidade ESP, câmbio automático
de 5 marchas, oferecidos na Europa e EUA. Mais uma vez já estamos em
atraso e o mesmo pode aumentar ainda mais.
Fica de novo aquela sensação de estarmos sendo enganados, de sermos
consumidores de segunda classe, de que nosso dinheiro vale menos do que
dos consumidores europeus, americanos e japoneses; eu sei o que eu quero
e tenho dúvidas sobre o que está ou vai ser oferecido a mim no(s) próximo(s)
ano(s).
Não seria a hora das montadoras brasileiras surpreenderem o mercado; de
atualizarem os modelos fabricados no Mercosul e partirem para a briga
equiparando, na medida do possível os carros feitos aqui aos europeus
(nossa preferência declarada)? Já imaginaram o Fiesta com um Zetec
RoCam 16V? Um Focus com o design atualizado para já e este motor
1.6 16V? Da parte da Fiat, o Stilo "nacional" 1.6 e 1.8 16V já
estaria de bom tamanho (incluindo-se aí a versão três-portas -- a
mais interessante), montando-se a Abarth com o motor e câmbio
importados.
Fala-se da aplicação pela General Motors de US$ 1,5 bilhão no triênio
2002/2004. Não seria a hora de surpreender o mercado, lançando aqui o
Vectra com a família de motores Ecotec (de alumínio, menos poluente,
1.8/125 cv e 2.2/142 cv)? Inclusive o 2.2 16V turbo no lugar do V6
(poderia até mesmo equipar o modelo da Fiat que vai partilhar a
plataforma Epsilon), usar esta motorização no Astra e na Zafira (1.8 e
2.2 16V) e até mesmo em um Corsa GSi.
Alguns meses atrás divulgou-se na imprensa que talvez as montadoras
brasileiras adotassem o velho método de produzir pouco, e caro, para
garantir rentabilidade. Espero que tal notícia não seja verdadeira.
Está na hora das montadoras perderem os pudores e usarem o seu peso
para pedirem uma carga tributária mais justa, um horizonte de
investimentos, mas isto atrelado a um programa de modernização e lançamentos
competitivos para o nosso mercado e para a exportação, que
definitivamente insiram a nossa indústria no mapa do mundo, colocando o
modelo 1.000 no seu lugar devido, enquadrando mais justamente os modelos
superiores.
Espero não chegar ao fim do ano de 2002 com a impressão de que a grama
é mais verde no jardim do vizinho e com a vontade de comprar um modelo
importado porque aquele nacional está "velhinho",
"desatualizado".
Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br
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