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Palavra do Leitor

A abertura dos mercados e
nós: acabou a graça?

por Thiago Mariz Nunes

Poucos carros importados entravam no Brasil nas décadas de 70 e 80. Geralmente os diplomatas e os consulados eram os que tinham a permissão de ter os, digamos, “veículos pátrios” em solo tupiniquim. A importação era proibida. E o que isso trazia para o mercado?

Grande parte dos carros fabricados em nosso país era exclusivo. Ou melhor ainda, era made in Brazil. O que de melhor poderia acontecer era a exportação de nossos veículos, como no caso da Brasília, por exemplo, nunca o contrário. Adiantando alguns anos no tempo, vemos hoje uma chuvarada de modelos caindo em nossas cabeças, mesmo que não tenhamos condições de tê-los propriamente. O mesmo carro fabricado no Brasil é fabricado na França, no México, na Alemanha e por aí afora. A variabilidade genética tão elogiada na biologia parece não existir mais no ramo automotivo.

Claro que a abertura efetuada na época do nosso amável e bondoso Fernando Collor foi importante para a indústria nacional, independente dos reais motivos,  já que a forçou a mudar seus conceitos. Hoje em dia um modelo tem vida curta, o que é muito bom, mas qual parcela dos brasileiros pode acompanhar as mudanças? 

Os clássicos brasileiros deixaram o picadeiro há muito tempo. E provavelmente os projetos desenvolvidos por aqui vão se diluir ainda mais. O Gol, por exemplo, deve logo deixar o posto para o novo Polo ou ser rebaixado a uma categoria inferior, como veículo de entrada. Que pena. É tão bom ver nossos modelos, como o Pointer, serem elogiados por comunidades internacionais ou serem vendidos para outros países, como o Corsa Sedan e sua versão Wagon.

Vamos ter que engolir o que vem de fora mesmo. Isso me faz lembrar da Gurgel, que foi assassinada pelo governo quando se deu a isenção de impostos no carros populares que, hoje em dia, estão longe de seu ideal no que diz respeito ao preço, pois a qualidade e conforto... E somos passíveis de estarmos fadados aos pequenos, já que as fábricas estão deixando de lado os grandes, como o Omega e o Vectra, e trazendo modelos importados com um preço pra lá de vexatório.

Doravante, é muito bom ver carros bem resolvidos circulando em nossas ruas. Isso é inegável. Mas aquele “quê” de surpresa, de um projeto exclusivamente nacional, isso sim, vai ser difícil ver novamente.

Thiago Mariz Nunes
São José do Rio Preto, SP
tmnunes@ig.com.br

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