| por Marcelo Altomare Carreiro |
"Aqueles sim é que
eram carros!"
Já ouvi muito essa frase de saudosistas e até cheguei a acreditar.
Olhava um Aero e o meu pensamento, condicionado pelos nostálgicos,
levava-me a crer que estava diante de um auto que fazia parte de uma
estirpe de veículos fortes, robustos, que não apresentavam defeitos e
que "infelizmente não existem mais".
Para começar, acho que somos tendenciosos na arte de comparar o passado
(que consideramos erroneamente a nossa época de ouro da vida) aos dias
de hoje, pelo menos em alguns assuntos. Música, por exemplo. Curti
muito o rock britânico nos anos 80 e acho até hoje que nada se
compara a esse gênero. Estou certo? Em termos técnicos não.
A mesma coisa acontece com os automóveis. Um veículo hoje em dia não
pode se "dar ao luxo" de quebrar facilmente. A relação
montadora x consumidor é outra. Antigamente motores ferviam, câmbios
simplesmente se recusavam a cumprir com as suas tarefas, peças de
acabamento saíam na mão, freios acabavam em uma ladeira e embreagens
trepidavam com 40.000 km. Pouco se fazia a favor do consumidor e, assim,
o indivíduo que tinha um carro o qual com dois anos "nunca tinha
dado defeito" era considerado um sortudo, e que aquele veículo foi
montado no dia seguinte à vitória do Corinthians.
Hoje um carro tem que chegar a, por exemplo, 80.000 km sem reclamar de
nada; em caso contrário, "o dono deu muito azar". Vamos à
realidade. Comparar os Fiat de hoje com aqueles da década de 70 e 80 é
uma brincadeira de mau gosto. Um Volkswagen tem acabamento muito melhor
do que os de outrora. Antigamente as montadoras davam-se ao luxo de lançar
veículos pouco testados às condições brasileiras (Simca Chambord,
Dodge 1800, etc.) e se houvesse defeito... fazer o quê? Hoje um carro
"mal lançado" no mercado pode resultar em indenizações
milionárias contra uma fábrica.|
E aqueles que argumentam da "chapa de aço dos carros
antigos"? Cansei de ver carros recém-lançados na década de 70
que em dois anos já estavam todos enferrujados. Chapa grossa igual a
maior segurança? O que importa é o quanto aquela chapa pode absorver
de energia em uma colisão, e não a sua espessura. Isso somado a
longarinas mais finas e deformáveis resulta em muito mais segurança do
que um "blindado" da década de 60.
Devemos olhar estes veículos como ícones de uma época e não como parâmetros
de excelência, que aliás, mudam rapidamente.
Marcelo Altomare Carreiro
Rio de Janeiro, RJ
maltomare@ig.com.br
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