| por Eduardo Teixeira Küll |
Há algum tempo escrevi
para o BCWS falando da "grama mais verde no jardim do
vizinho". Vejo que, infelizmente, a previsão está se confirmando
além de se tornar um pesadelo de grandes proporções.
Fiquei pra lá de decepcionado com a Chevrolet em relação ao lançamento
do Corsa. Um carro "novo", "adaptado ao gosto
brasileiro" e muito pobre: perdeu equipamentos, não oferece nada
de novo no mercado (o subchassi dianteiro pode ser novidade no segmento,
nada mais), com uma família de motores defasada (1.8 baseado na família
I e 1.0 com o "veneno caseiro" da altíssima taxa de compressão).
Até mesmo a multiplexagem está se tornando algo tão corriqueiro
quanto a quinta marcha. Portanto, temos, no máximo, uma
"casquinha" nova e zero de conteúdo tecnológico.
Até mesmo no México, os Corsas, Astras e Zafiras são importados da
Europa, com mais equipamentos e motores mais modernos que os daqui. Será
que o sr. Pinheiro Neto conseguirá vender lá o "novo" Corsa
brasileiro?
Ainda na coluna do sr. Nasser aparece a nota que a VW estuda a transferência
da linha de montagem do Golf/Audi A3 para o México, e que aqui vamos
ter o "privilégio" de montar o sucessor do Gol, o projeto
Tupi. Novamente, podemos perder a sinalização mais clara do
desenvolvimento tecnológico de uma indústria, que é a fabricação de
modelos com maior conteúdo tecnológico que, devido à enorme
capilaridade da indústria automobilística, tendem a disseminar novas técnicas
entre os seus participantes.
Nem mesmo o fim do fantasma do apagão, após terem se beneficiado
amplamente de benefícios fiscais concedidos pelos gênios que povoam
gabinetes em todas as esferas de governo do país, parece ter sido o
suficiente para sustentar no país uma indústria que deveria agregar
tecnologia ao parque aqui instalado.
Triste ver que estamos sendo reduzidos a meros montadores de caixinhas
de fósforo motorizadas, alijados da disseminação da tecnologia,
quando é mais do que conhecido o fato que fabricamos motores aos quais
não temos acesso, sejam unidades com alta tecnologia a gasolina ou
diesel. Realmente parece estar acontecendo o que alguns jornalistas já
haviam predito que seria o mote das montadoras no Brasil: o máximo
lucro com mínima produção, mas não produção em número de unidades,
e sim a mínima incorporação de avanços tecnológicos.
O segmento dos médio-grandes está morto, vide seus representantes
Santana (!) e Vectra (eu não compraria); agora, também o segmento dos
médios parece seguir o mesmo rumo: o incerto futuro do VW Golf; a Ford,
que acabou preferindo montar o Focus na Argentina (!); a Peugeot que, se
vier a montar o 307 na América do Sul, o fará também na Argentina; até
mesmo a Citroën, que monta o Xsara no Uruguai (!).
Sinto-me frontalmente ofendido, como consumidor e como brasileiro, pois
exatamente como o sedutor que deseja apenas a castidade da donzela
(figura muito comum nos dramalhões do México), as montadoras, depois
de devidamente saciadas com a orgia de incentivos e a maximização dos
lucros via "carrocinhas" peladas, atrasadas e, geralmente 1.0,
abandonam o país. Dia 26/3 vi uma nota em que o Secretário da Receita
Federal dizia que a idéia da unificação do IPI continua de pé, mas
que não progride devido a desentendimentos entre as montadoras. Muito a
propósito para o governo e extremamente interessante para as montadoras,
que assim, criando factóides, mantêm tudo como está.
Se os motores 1.0 são tão bons, por que outros grandes produtores de
carros não os adotam? "VW Gol 1.0 16v, 76 cv: o 1.0 mais potente
do mundo". Grande coisa! À exceção de alguns países na Ásia,
que equipam minicarros com motores 1.0 ou menores, NENHUM outro país
adota seriamente esta motorização.
Gostaria de ver um teste sério e completo que pusesse frente a frente o
Chevrolet 1.0 VHC contra o 1.2 ou o 1.4 da Opel, o VW 1.0 de 76 cv
contra o 1.4 europeu ou, ficando naquilo que é feito aqui, o Renault
1.0 de 70 cv contra o 1.2 ou o 1.4 (fabricados aqui e exportados).
Vejamos ainda que já começam a chegar ao mercado os motores com injeção
direta, como o VW 1.6 FSI que já equipa o Audi A2 e logo, logo vai
equipar o Golf e também o Polo na cilindrada 1.4 (este 1.6 é uma evolução
do 1.6 16v de 105 cv europeu, que nem ao menos se cogitou em lançar
aqui). Será que lá pela próxima década veremos esta tecnologia aqui?
Definitivamente, não dá pra entender o que está acontecendo no
Brasil, principalmente para justificar alguns acordos de livre comércio,
caso do México, quando eles podem comprar os veículos na Europa, e o
que é pior, bem mais equipados e evoluídos tecnologicamente. Em
recente troca de e-mail com um jornalista especializado, este
justificava ausência da direção eletroidráulica no Corsa devido a
seu alto custo, por utilizar muitas peças importadas.
Acabei vendo um erro/abuso por parte das montadoras: se os Astra/Zafira
já as têm (opcional, mas têm), se foi divulgado que que o Stilo vai
ter o equipamento (informação de clínica) e ele tende a se
popularizar, não era a hora da indústria, através da divisão
Powertrain, equipar todos os médios com o equipamento, oferecê-lo nas
versões de topo dos pequenos e até mesmo como opcional nas outras,
exigindo dos fornecedores preços mais baixos via nacionalização de peças?
De que vale então tal associação?
Comprar barato peças para montar motores baratos (atrasados) e equipar
as novas casquinhas com eles? Espero que a Fiat não abdique de equipar
o Stilo com o 1.6 16v pelo 1.8, ou pior, substituir o excelente 1.8 16v
pelo outro. Afinal, se motor não fosse tão importante para a
personalidade do veículo, seu compartimento não seria chamado de
COFRE.
Lamento se, às vezes, não consigo tornar minhas idéias lógicas, mas
estou muito, muito indignado: depois da "globalização",
enxergo no nosso mercado a "pauperização" da indústria
automobilística, que acaba por refletir um todo. Vejo simplesmente o
consumidor ser ignorado como se o consumo de um carro não fosse
importante (nosso combustível já é e está ficando cada vez mais
caro), como se o conforto não fosse importante (pagamos caro demais por
um veículo que oferece cada vez menos, comparado aos seus gêmeos
europeus e/ou asiáticos).
Admito que o nível de renda influencia, mas se temos escala, onde estão
os ganhos para o consumidor brasileiro? A quem interessa a não-unificação
das alíquotas? Imaginei que com a desvalorização do real e o preço,
em dólar, dos nosso carros, nos tornaríamos um grande exportador de
carros e peças, mas, no máximo, estamos exportando peças, sendo
incorporada a tecnologia lá fora, ficando nós, brasileiros, alijados
destes avanços.
Realmente, os executivos das montadoras, em reuniões com os integrantes
do governo, andam escutando muito Ney Matogrosso: "Não existe
pecado do lado de baixo do Equador".
Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br
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