| por Eduardo Teixeira Küll |
Lendo a coluna do
jornalista Roberto Nasser desta semana, me deparei novamente com a notícia
de a VW não produzirá o Golf Geração V no Brasil, mantendo a Geração
IV em produção PARA O MERCADO INTERNO e PARA EXPORTAÇÃO. Primeiro,
é lamentável que após receber vultosos subsídios para construir a fábrica
no Paraná, a empresa decida manter em produção no Brasil um carro
sucedido por novo modelo (mais moderno) em outros mercados. Segundo,
sendo o novo carro produzido no México, QUEM, EM SÃ CONSCIÊNCIA VAI
QUERER COMPRAR/IMPORTAR UM MODELO FORA DE LINHA ATÉ MESMO NA MATRIZ?
Eu, não. Prefiro comprar um Stilo ou um Astra (renovado, eu espero),
ambos brasileiros, ou quem sabe um Focus "argentino" (isto
apesar dele ser pura e simplesmente montado por nuestros hermanos,
com alto índice de peças importadas) ou até mesmo um 307, um Xsara,
etc., importados sim, mas em sintonia com o restante do mundo. Aliás,
vamos exportar PARA QUEM? Ou algum ingênuo acredita que logo, logo, o
novo modelo (mexicano) tomará o lugar do velho (brasileiro)?
O Brasil está se tornando um país de Terceiro Mundo produzindo carros
de/para o Quinto Mundo, infelizmente. Afinal, até agora, apenas como
exemplo, nem mesmo exportamos os nossos Corsas e Astras/Zafiras para o
mesmo México que nos vende o Bora e o New Beetle (apenas).
A nós, o que restará? Quantos Polos teremos de vender ao México
(amplamente beneficiado pela vizinhança com os Estados Unidos, aquele
mesmo país que nos pune por sermos competentes em produzir aço, insumo
básico para a produção de carros, como o futuro Golf) para comprarmos
um Golf novo? À fábrica de motores de São Carlos restará produzir
"o mais potente motor 1.0 do mundo" (aquele que NENHUM outro
país quer), ou os "moderníssimos" 1.6 e 2.0, isto quando na
Europa a Volkswagen dá um enorme salto tecnológico equipando os Polo,
Golf e Passat com unidades 1.4, 1.6 e 2.0 FSi (injeção direta) que,
talvez daqui a uns quatro, cinco anos tenhamos acesso. Isto se não
passarmos a importar o 2.0 do México, já que ele equipa o Bora, o
Golf, etc.
No jornal Gazeta Mercantil de terça-feira, novamente o Sr.
Herbert Demel declarou que existem "montadoras demais" no
Brasil. É verdade, mas também é verdade que se está tão ruim, tão
difícil assim, logo, logo outras montadoras vão fechar suas portas. Ou
ele espera que o Governo interfira dizendo quem pode ficar ou não?
Talvez a VW esteja se tornando, involuntariamente, o porta-voz das
outras montadoras, admitindo publicamente o que a "polidez", o
"comportamento de cavalheiros" não permita, mas no momento,
parece muito mais a atitude de quem perdeu a brincadeira e só resta
reclamar do jogo.
Afinal, a VW perdeu o 1º. lugar do mercado e está suando muito para
tirar a diferença, inclusive já tendo sido superada em algum mês pela
Chevrolet e vendo o crescimento das newcomers, ocupando espaços
que dificilmente serão recuperados. Apenas como exemplo, comparar o
Bora com o Civic, o Corolla o Focus é covardia. O carro perde feio em
tecnologia, equipamentos e até mesmo em garantia. Pode-se dizer que as
japonesas estão "comprando" mercado ou sob outro olhar,
revela uma grande (gigantesca, no caso da Toyota) confiança em seus
produtos, isto apesar do nosso piso, do nosso combustível, da nossa
carga tributária, etc.
O que é MONSTRUOSO, um ROUBO DESCARADO, uma AFRONTA AO CONTRIBUINTE
BRASILEIRO é a montadora se alimentar de gordos subsídios e agora
"rebaixar" a fábrica brasileira. Se o Golf produzido no
Brasil é o líder do seu segmento (ainda que com apenas 2.500
unidades/mês, em média) e vendido no exterior, a preço competitivo
creio eu, mas não alcançou as metas da montadora, o problema deve ser
do produto, que já não satisfaz as necessidades dos consumidores, que
prefere outros modelos, do que da produção brasileira, tão freqüentemente
elogiada pela sua alta qualidade pela VW brasileira.
O que não é possível de admitir é este "chororô" que não
leva a nada. Deveria a montadora reagir mais prontamente às
necessidades do mercado, honrar compromissos assumidos e PARTIR PARA A
LUTA.
A favor da VW e de todas as outras montadoras, temos o nosso imbróglio
fiscal. Mas até agora as montadoras não divulgaram, até mesmo como
uma forma de pressão através dos consumidores, se enviaram a proposta
de criação de uma alíquota de 15% de IPI para os veículos entre
1.000 e 2.400 cm³, englobando toda a produção atual brasileira e
beneficiando inclusive modelos importados. Não se comentou, como
deveria, que a proposta de não-cumulatividade do PIS/COFINS não foi
votada porque a bancada ruralista não concordou, por não ser o setor
beneficiado com um crédito presumido de 1,65% do imposto, apesar dos
dados do Governo que o setor recolhe muito pouco PIS, não fazendo jus,
portanto, a este benefício.
Assim, agora que já estão definidas as chapas e as coligações,
dificilmente se reunirá quorum suficiente para votar esta proposta,
ficando a mesma para o ano que vem. Perde o país preciosos meses, que
desde agora desonerariam a nossa produção, melhorariam o preço do
produto, aqui e no exterior, inclusive com relação à ALCA. Lamentável
que tenhamos no Congresso tantos representantes de interesses menores,
corporativos, que destroçam o nosso parque industrial, matam a nossa
possibilidade de progredir e que depois ainda jogam a culpa no
"Governo", esquecendo-se que fazem parte dele, tanto na situação,
como na oposição, mas nos dois casos de forma irresponsável, até
mesmo suicida (me lembra muito a atitude de governadores de província e
congressistas argentinos, onde quanto pior, melhor) ou acusando "os
países desenvolvidos".
Eles, os nossos representantes, que foram escolhidos muitas vezes devido
ao seu discurso "modernizante", sua "compreensão"
do mundo atual e que agora, novamente, jogam a culpa nos outros. É
frase corrente que "o mercado não é lugar nem para viúvas, nem
para freiras" e que aqueles que não têm uma ficha corrida que os
afastam tranqüilamente destas categorias, deveriam honrar o mandato
recebido TRABALHANDO PELO PAÍS ou assumindo sua INCOMPETÊNCIA e
deixando o cargo para outrem mais capaz ou com melhores propostas.
O que não é possível é postergar mais reformas que são VITAIS para
o país, principalmente quando a não-votação das mesmas está ligada
pura e simplesmente a interesses tão mesquinhos. Não é possível que
uma montadora como a VW ameace diuturnamente "abandonar" o país,
parcial ou completamente, algo que parece que ela já fez sem o admitir,
no caso do Golf.
Se a situação é tão negra quanto disse o Sr. Demel, no jornal, com
as montadoras tendo US$ 5 bilhões de prejuízo em quatro anos, é mais
do que hora das mesmas passarem a publicar REGULARMENTE seus balanços
para comprovar o prejuízo ou mostrarem sua verdadeira situação, dando
contas ao país, aos contribuintes e aos consumidores; afinal, apesar
dos prejuízos citados, ninguém foi embora...
Para quem é apaixonado por carros e que se considera
"antenado" com o que acontece no mundo, é humilhante ver o país
e o mercado submetido a tais pressões, ainda mais sabendo do nosso
potencial. Poucas vezes tive tanto orgulho quanto da vez em que entrei
em um Golf GTi "made in Brasil", um carro moderno, com os
mesmos padrões de qualidade, segurança e tecnologia do modelo
importado. Mas o mesmo foi ficando para trás, recuperando apenas este
ano a semelhança com o modelo europeu. Estou agora esperando o Stilo
para mais uma vez colar um adesivo na traseira do "meu" carro
com esta mesma inscrição, pois não espero poder fazer o mesmo em um
próximo VW Golf, algo que eu desejava muito.
Sejamos menos hipócritas, por parte das montadoras, e menos canalhas,
por parte dos políticos (de qualquer matiz ideológico) e façamos o
que é correto: TRABALHAR para ganhar respeito.
Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br
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