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Palavra do Leitor

Carro popular: cilindrada ou estilo?

Será que deve existir um conceito de carro "popular"?

por Daniel Shimomoto de Araújo

Juntamente com a equipe de transição, muitas propostas do novo governo estão ganhando as páginas dos jornais, entre elas a mudança do conceito de “popular” para os carros de menor valor.

Hoje o conceito de “carro popular” está baseado no tamanho do motor, conceito este surgido em 1991, quando o então governo Collor, numa medida bizarra e bastante discutível em todos os aspectos, definiu o carro popular como sendo todos os veículos de até 1.000 cm3, havendo um IPI diferenciado (numa época em que o IPI era classificado pela potência do motor e não pela cilindrada).

A cilindrada do motor, na sua época, consistiu na solução mais fácil encontrada pelo governo como forma de classificação de veículo popular, permitindo a construção de motores econômicos. Os elevados investimentos em tecnologia (simbolizados pela introdução dos sobrealimentadores) permitiram o acréscimo de potência a esses motores, deixando-os equivalentes nesse aspecto aos similares aspirados de cilindrada maior.

Contudo, as indústrias automobilísticas nacionais voltaram-se completamente para a produção dos 1,0-litro, inibindo o desenvolvimento de motores maiores, assim como sua produção voltada para exportação. Por sua vez, muitos consumidores passaram a preferir os semi-novos mais potentes a um “popular" zero-km, dentro de um conceito perfeitamente explicado pela microeconomia: “o carro de maior cilindrada oferece uma utilidade (microeconômica) maior que o 1,0-litro”.

Por sua vez, a proposta do novo governo é a de oferecer como “popular” veículos de modelos mais antigos como o Gol geração II, o Santana, o próprio Mille (acho que o único carro que mudou de nome de um ano para outro). Esta idéia permitiria veículos mais baratos, pois os veículos de carroceria (e em alguns casos, de concepção) mais antiga já teriam, teoricamente, amortizado os investimentos em pesquisa e desenvolvimento ao longo de sua vida útil, além de ter uma flexibilidade maior em termos de motorização.

Entretanto, essa idéia implica impingir ao consumidor veículos defasados, em tecnologia de projeto e design, incentivando a não atingirmos a eficiência econômica da indústria como um todo. Soma-se a isso o fato de o consumidor de um popular também merecer um design mais moderno, aliado a um projeto mais recente.

Se o governo incentivasse a produção nacional de veículos indistintamente, sem definir o “popular” e o “não popular”, a industria atingiria um grau de eficiência econômica maior, permitindo ao consumidor escolher o veículo ideal, de forma a atender suas expectativas de consumo e financeiras, e permitindo a indústria atender as expectativas do mercado.

A história mostrou que o livre mercado, em determinados momentos, pode se tornar incontrolável, principalmente em momentos de crises. Contudo, a intervenção mal planejada pode implicar resultados ainda piores, sobretudo num pais onde o desenvolvimento se pautou, de forma acentuada, na indústria automobilística.

Daniel Shimomoto de Araújo
São Paulo, SP
shimomoto@terra.com.br

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