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Ricardo Dias Sacco - Foto: Rafael Trevisan Lombardi |
Às 21 horas do
dia 10 de dezembro de 2002 a cidade de São Paulo reverenciou o mais
bonito capítulo da história automobilística brasileira. Os felizardos
que se encontravam no Sambódromo Grande Otelo, sito à Av. Olavo
Fontoura, presenciaram o encontro da maior diversidade de Opalas já
vista: na pista encontravam-se 35 Opalas com 20, 30, 90, 100, 900 mil
quilômetros, dos mais variados gostos, anos, modelos, estados e
proprietários.
A festa da democracia se estendia à área de dispersão. Lá, talvez
mais de uma centena de Opalas ocupavam as vagas destinadas aos
expositores órfãos (sem clube) e ao excedente dos próprios sócios.
Mais além, Opalas eram estacionados em todos os vãos da arquibancada
lotada. Pessoas chegavam de viagens de 600 quilômetros com a disposição
de permanecer o tempo que fosse necessário, pois a viagem já fora paga
quando adentraram ao "recinto".
Ouve-se um ritmado de batidas cardíacas e a voz de Zé Rodrix cantando
sobre Chevrolets e paixões. É o prenúncio da exacerbação que
estaria por vir. Os pára-peitos das arquibancadas há muito não
ofereciam espaço para tantos cotovelos. O murmurinho aumenta, em
progressão geométrica, quando o primeiro motor de arranque gira. O silêncio
reina por algum segundo.
Logo vem o som da Bateria Nota 10 do Clube do Opala: exaustores 6-em-2
fazem as vezes dos surdos, os tamborins são tilintados por tuchos mecânicos,
a cuíca ecoa a cada vez que um pneu atrita o asfalto e pára logo em
seguida, o chefe de bateria (em um Diplo preto 92) dá a ordem e a
Unidos do Opala coloca-se em movimento, desfila o apogeu do trabalho de
meses de organização, (seis) anos de preparo, resultado de muita
amizade e muita dedicação e carinho para com algo que não vislumbra
nem a sombra da racionalidade projetada no fundo da caverna de Platão.
É emoção pura e a certeza de que valeu a pena.
O compasso da Bateria faz a Marginal Tietê se calar, o brilho dos
cromados opalesce os refletores, o suor frio das mãos do expectadores
umedece as câmeras fotográficas, que trabalham sem parar. Por um
momento, o Opala é o centro do universo, pelo menos para as presentes.
Quando o desfile chega à dispersão, está só na metade.
No centro da avenida do samba está o carnavalesco. Ao mesmo tempo que
recebe os brios, recebe as responsabilidades de acertar todos os dados
de cada veículo que é entregue à análise do público. Vencendo a
timidez da menarca pública, tendo de falar para mais 4 mil pessoas
presentes e milhões pela televisão, não gagueja; coloca-se em posição
de batalha e, logo de cara, corrige o mestre-de-cerimônias. Ato bárbaro?
Não, a noite é do Opala e de Opala ele entende, já teve... bom, ele
perdeu a conta!
O abre-alas é conhecido, porém não se consegue guardar na memória
tanta perfeição; e olha-se de novo e de novo. É seguido
cronologicamente à história de 34 anos. Segue toda a variedade já
descrita, a bateria não esmorece, o público delira e canta o
samba-enredo. Todos sabem que o Opala é sensacional, afinal todos têm
uma história para contar de uma viagem que fez, ou do carro do pai, ou
de um racha na Panamericana. Bom, tudo transcorre em sua perfeição
quando parte da bateria entra no recuo, três Webers "panderam"
sincronizadas e a cuíca chora por cinqüenta metros: é o 250S
mostrando o seu valor.
Tem mais? Sim. E outro: agora o ronco incorpora mais surdos, tamborins,
V8 e compressor. A arquibancada treme. Foi daí que fizeram aquela música
"não quero cadeira numerada, eu vou de arquibancada, pra sentir
mais emoção"!
Acaba o desfile mas não acaba a festa. As pessoas ao redor comentam,
urram, alguns dançam e o comentário é de que esse ano ela leva o
caneco. O Sport Clube Opala Paulista se retira do campo vitorioso,
orgulhoso. O juiz sai abraçado com o técnico, que comenta "Che
azia!".
Depois da festa, todos se descobrem donos de preciosidades,
privilegiados, contentes; os mais políticos diriam alienados. Esse
torpor é bom para todos. Assim, mantenhamos nossos Opalas como eles
merecem e, no ano que vem, essa festiva precisará acontecer na Basílica
de Aparecida, o maior estacionamento do mundo.
Ricardo Dias Sacco
São Paulo, SP
rids@usp.br
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