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Palavra do Leitor

O futuro do Golf

Se o mercado nacional não comporta a fabricação de
modelos de luxo, por que teremos o novo Audi A3?

por Eduardo Teixeira Küll

Estava lendo uma reportagem sobre o senhor Paul Fleming, novo presidente da Volkswagen do Brasil, e gostaria de fazer a seguinte colocação: o Golf é um carro de luxo? Eis aí o primeiro e mais gritante contra-senso na marca alemã. O próprio presidente da marca diz que estes carros serão apenas importados, pois o atual nível de renda brasileiro não justifica a produção dos mesmos em nosso país.

Pois se é, como se explica o lançamento em nosso mercado do modelo GTI VR6? Modelo completo, em série especial, R$ 100 mil. Ora, como justificar este lançamento -- que pode ser considerado uma despedida do atual modelo, que vai ser substituído pelo Golf V, mais do que provavelmente fabricado no México, já que não temos mercado para o mesmo. Aliás, esta transferência da linha de montagem do Golf para o México, até agora não admitida oficialmente também é algo de se estranhar.

Em janeiro foram exportados 2.395 Golfs para os mercados canadense e norte-americano, mas nada se sabe sobre o mercado mexicano, sendo que o mercado nacional absorve sozinho um número semelhante; a bem da verdade, de carros mais simples e menos equipados, mas mesmo assim, um número considerável.

Quantos Golfs são vendidos no mercado mexicano por mês ou por ano? Se o mercado brasileiro SOZINHO absorve um número de carros praticamente igual aos mercados americano e canadense JUNTOS, o que justifica esta transferência? Maior produtividade e menor custo de produção? Volta e meia aparecia alguma nota na imprensa, vinda da própria VW, elogiando a qualidade construtiva e os baixos custos de produção da unidade de São José dos Pinhais.

Mercado interno maior e com melhor nível de renda? O México absorveu ano passado 982.000 unidades (fonte: site Terra), um pouco mais da metade do brasileiro, e não sei se o nível de renda comporta mais carros médios que o brasileiro. Parque fabril diversificado para o fornecimento de componentes? Sem brincadeira, o nosso parque industrial automotivo deve ser um dos mais variados do mundo e ainda por cima, contando com unidades produtivas de todas as grandes indústria do setor do mundo.

Até mesmo a desculpa do uso da novíssima tecnologia FSi (injeção direta), que a VW está propagando em sua linha a uma velocidade assustadora, não convence, uma vez que os EUA não têm ainda capacidade (ou interesse) de produzir uma gasolina com tão pouco enxofre quanto a necessária para o bom funcionamento destes motores, ao passo que a Petrobras já produz a gasolina premium Podium, que atende às normas européias antipoluição que só vão entrar em vigor após 2005 -- algo que não deve ser difícil de ser levado para a gasolina comum.

No fim das contas, esta transferência da linha de montagem do Golf V parece ser muito mais fruto de um "incentivo" oferecido/imposto pelos fortes sócios do NAFTA. Vejamos o quanto vamos perder ao não aceitar a "oferta" da ALCA, como eles desejam.

Se "esse é um país muito bom para se exportar", como disse o próprio senhor Paul Fleming, e ainda por cima "os brasileiros não têm poder de compra para manter linhas de montagem de carros de luxo", novamente nas palavras do presidente da VW, não seria muito mais lógico investir na atualização da linha do Golf brasileira em vez de construir uma nova no México?

Apenas como exemplo, a Peugeot anunciou um investimento de 50 milhões de euros na Argentina para que seja montado lá o 307, inclusive com redução dos atuais preços do modelo naquele mercado (fonte: site Terra). Ainda sobre a Peugeot, a empresa projeta a produção de até 80.000 unidades/ano, com exportação de 60% da produção. Quanto custaria a atualização da linha de montagem de São José dos Pinhais? Se hoje, o modelo não vende o esperado lá fora, com certeza a "culpa" não pode e não deve ser atribuída à conjuntura brasileira, afinal, o modelo é vendido no Hemisfério Norte a preços competitivos e mesmo assim parece não vender o esperado.

Se o aço brasileiro está tão caro quanto reclamam constantemente as montadoras aqui instaladas, não será muito mais difícil produzir carros a preços competitivos ficando apenas na base da pirâmide? Não será apenas e tão somente uma boa desculpa para abrirmos as importações de aço às ineficientes siderúrgicas européias e americanas?

Da mesma forma, se o Brasil não tem mercado para a produção de carros de luxo, como explicar a recorrente possibilidade da fabricação do novo Audi A3 de quatro portas aqui para abastecimento do mercado interno e exportação? Não é ele também filhote da plataforma do Golf V, mas tem este modelo um índice muito mais alto de tecnologia incorporada, encarecendo sua produção? Não seria muito mais lógico centrar a produção aqui do modelo com maior saída, o Golf, inclusive diluindo-se seu custo de produção em um maior número de unidades produzidas?

Se o Golf não é um carro de luxo, bate-se de novo no contra-senso: por que, então, levar a linha de montagem daqui para o México, uma vez que a mesma poderia ajudar a mara, com um produto novo e a preços competitivos, a recuperar a liderança no mercado nacional (por exemplo: vendendo-se aqui os modelos mais simples e guardando para a exportação os modelos mais sofisticados, exatamente como é hoje)? Se o nosso aço é tão caro para produzir carros de segmentos superiores, por que não o é também para produzir carros "populares"?

Finalmente o mais mal explicado dos fatos: quando da instalação da fábrica de São José dos Pinhais, a Volkswagen foi amplamente beneficiada com incentivos fiscais e incentivos diversos PARA A PRODUÇÃO DO VW GOLF E DO AUDI A3 mas, se os incentivos continuam no mesmo nível, PARA UM MODELO MAIS BARATO, o índice dos incentivos por modelo produzido é muito maior.

Para mim, isto configura uma quebra de contrato, pois se produz, por exemplo, a mesma quantidade de veículos (120.000 unidades/ano, a capacidade da planta), com o mesmo valor de incentivo por veículo, mas com custo de produção e preço de venda menores, portanto TODO O POVO DO PARANÁ E, PROVAVELMENTE, DO BRASIL, ESTÁ SUBSIDIANDO O LUCRO DA VOLKSWAGEN.

Como o presidente da VW pode explicar o sucesso estrondoso da Fiat que, com apenas uma ou duas famílias de modelos, exatamente como a VW, roubou-lhes a liderança dois anos consecutivos? Esta recuperação parece passar agora também pelo muro da Chevrolet que, com seus (des)investimentos no país, pelo novo método de apuração de vendas, também lhe passou a perna. As duas têm modelos médios em nosso mercado (Stilo e Astra) e a segunda, apesar de ter desistido do segmento dos modelos médio-grandes (Vectra), parece que vai continuar a investir no segmento dos médios (rezo por isso), com o novo Astra.

Sinto muito, mas o raciocínio usado pelos executivos da marca alemã e, principalmente, a conta não fecham, não "batem". Existe algo muito estranho a ser explicado...

Obs.: Apenas como ilustração do meu raciocínio, gostaria de lembrar que em dezembro de 2002 uma reportagem do jornal Valor Econômico disse que, em 2001, a General Motors enviou US$ 200 milhões de lucro aos Estados Unidos. Ano passado foi inaugurada uma fábrica de motores no Estado de Nova York para a produção dos motores 2.2 Ecotec, que equipam agora os carros da Divisão Saturn (e provavelmente toda a linha de compactos da corporação).

Lembro que a unidade brasileira exporta (o exportava) um volume considerável de motores aos EUA exatamente para estas linhas de modelos, agora supridas por fábrica lá. Enquanto isto, pagamos caro por motores defasados e com menos uma fonte de dólares para o país. De que serve então o acordo bilateral com o México? Nós vamos comprar um Golf e pagar com quantos Polos, Gol ou Tupi? Será que a tão anunciada picape média da VW, bem como o SUV baseado no Golf, vão ser produzidos no México? Idem com relação à Chevrolet no quesito motores, algo que também vale para a Ford.

Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br

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Data de publicação: 8/3/03