Best Cars Web Site
Palavra do Leitor

Biodiesel: um novo Proálcool?

Não vamos criar uma nova "casta" que pode deixar
o mercado a ver navios para exportar e fazer dólares?

por Eduardo Teixeira Küll

Foi mostrada pela afiliada da Rede Globo na região de Ribeirão Preto, a EPTV, uma reportagem à respeito do biodiesel "ribeirão-pretano", que está sendo desenvolvido pela Faculdade de Química da cidade. Este biodiesel, que será apresentado em abril, é feito à base de um óleo vegetal, regional inclusive (babaçu, copaíba para o Norte/Nordeste, pequi e mamona, para o Centro-Oeste e Sudeste, bem como de qualquer oleaginosa, como soja, milho, algodão, etc.) e uma parte de álcool (anidro, acredito eu, bem como um emulsificante para fazer a mistura).

Mas o que interessa é que os técnicos, apesar de terem divulgado pouquíssimas informações, afirmaram que o produto é quimicamente igual ao diesel, com o mesmo poder calorífico, economicamente competitivo, podendo ser usado puro ou misturado ao diesel comum em qualquer motor, sem a necessidade de modificações no mesmo e que puro, reduz em 90% a emissão de fumaça preta e em até 70% a emissão de outros poluentes.

Segundo estes mesmos técnicos, o Brasil gasta, por ano, entre US$ 5 e 6 bilhões e que este percentual poderia ser rapidamente reduzido com a produção do biodiesel, inclusive provendo novas fontes de renda para os produtores rurais, ajudar a fixar o homem do campo nas pequenas propriedades produtoras de oleaginosas, especialmente por ser uma atividade extrativista.

A pergunta que eu gostaria de ver respondida é: já que temos visto a atitude canalha dos usineiros com relação ao álcool, não vamos criar uma nova "casta" de empresários que, quando for mais interessante, vão deixar o mercado nacional a ver navios para exportar e fazer dólares?

Algo perfeitamente normal em um regime capitalista, mas curioso quando ninguém reclama que o preço do álcool está ruim, apenas que lá fora o preço do açúcar está melhor, mostrando a face de sua absoluta falta de compromisso com o país, apenas exigindo compromisso do país com o álcool quando eles estão "a perigo", elitizando o lucro e socializando o prejuízo. Não faltariam regras, inclusive porque as grandes esmagadoras estão nas mãos de multinacionais?

Neste e no presente caso, parece haver uma absurda falta de regras que discipline o setor, obrigando mesmo os empresários a garantir o mínimo abastecimento do mercado, para que não nos vejamos obrigados a, como aconteceu agora, baixar (novamente) o percentual de álcool na gasolina, já tão cara, e ainda por cima aumentar brutalmente a emissão de poluentes na atmosfera.

Quando foi criada a UNICA (União da Indústria Canavieira), iniciativa que começou aqui, em Ribeirão Preto, a desculpa era criar uma entidade que regulasse estoques, algo que o governo simplesmente havia deixado de lado. Vemos agora que isto nada mais foi do que a criação de um novo cartel, daquelas empresas insatisfeitas com a Coopersucar, que nunca representou em pé de igualdade os interesses desta região, mas que serviu de base e forneceu a cartilha agora usada pela nova entidade.

Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br

Página principal - E-mail

Os artigos assinados refletem as opiniões de seus autores e não necessariamente
as do Best Cars Web Site, podendo mesmo ser contrárias às do site

Data de publicação: 22/3/03