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Palavra do Leitor

Chega de tentar reinventar

"Carro do trabalhador": mais uma proposta do
governo para algo que não vai trazer nenhuma solução

por Eduardo Teixeira Küll

Que a situação do setor automotivo é preocupante, para não dizer que está chegando ao desesperador, é mais do que sabido. As próprias montadoras, devido ao péssimo primeiro semestre, estão pessimistas, muito embora a exportação tenha aumentado 40% em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo o editorial da publicação setorial Jornauto, houve um decréscimo na venda total de veículos da ordem de 4% e as exportações estariam “salvando a pátria”, muito embora, segundo elas, não seja possível esperar, e desejar, que a exportação sirva de principal razão para a existência de um parque industrial automotivo em um país (digam isto ao México e à Coréia do Sul; o primeiro tem a existência de seu parque automotivo quase que exclusivamente vinculada ao NAFTA e o segundo exporta algo em torno de 40% de sua produção).

Agora, novamente na bacia das almas, após quase QUINZE anos de “preparação” para assumir o poder, o atual governo acena com possibilidade de algum alívio para o setor. Mas, para horror daqueles que entendem minimamente da vida real, fala-se da reedição do programa do “carro popular”, que se serviu em sua época para salvar o setor, também criou o monstro do motor 1.0.

Uma unidade que deveria, através da redução de impostos, reativar o combalido setor automotivo e, por tabela, satisfazer o sonho do consumidor de baixa renda de possuir um carro zero-quilometro. Acabou-se por criar uma armadilha igualmente monstruosa: carros “populares” equipados com toda a parafernália eletrônica que a redução dos níveis de poluição exigia, abatendo assim o seu já ridículo desempenho, um perigo nas nossas estradas.

As montadoras, aproveitando a brecha, acabaram por criar o “popular de luxo”: um carro 1.0, beneficiado pela redução de impostos, mas equipado com direção hidráulica, ar condicionado, “trio elétrico”e outros que-tais, abalando ainda mais o seu combalido desempenho e aumentando ainda mais a sua ineficiência nas estradas, pois este passou a ser o verdadeiro “carro da família”.

A baderna tornou-se total quando uma empresa lança um motor 1.0 turbo, carregando todo o aparato tecnológico possível (quatro válvulas por cilindro, coletor variável, etc.), institucionalizando de vez o “popular de luxo” e ainda criando o problema adicional -- e o maior deles na minha opinião -- ao desviar recursos das montadoras na criação e desenvolvimento de unidades motrizes que simplesmente não podem ser exportadas, nenhum país do mundo as quer.

Finalmente, final do ano passado, parecia que havia um laivo de racionalidade surgindo num espectro de política para o setor, quando se anunciou a diminuição do IPI, ainda que de forma diferenciada, para todos os carros, mas muito aquém do que deveria ter sido feito, promovendo uma concentração de esforços nas “cilindradas mundiais”, aquelas facilmente encontradas na maioria dos mercados (digamos de 1,2 a 2 litros). Apesar de não ter sido o ideal, apenas este estímulo já foi o suficiente para mostrar o óbvio ululante: que o consumidor brasileiro compra carros 1.0 apenas e tão somente devido ao imposto menor e que, havendo um enquadramento mais justo, o mesmo com certeza vai preferir a cilindrada maior.

Agora, temos novamente a queda brutal do mercado interno, por culpa da queda da renda média do brasileiro em virtude do estado lamentável que se encontra a economia. Que por sinal teve o maior baque devido ao fantasmas do caos, insuflando todos os agentes econômicos CONTRA a eventual vitória do candidato do PT. Infelizmente, após década e meia observando “da janela”, tendo o privilégio de fazer as suas bravatas inconseqüentes, parece que este agora governo tem demonstrado um primarismo assustador ao tratar do tema INDÚSTRIA AUTOMOTIVA.

Primarismo econômico ou um absurdo descaso com um setor onde infelizmente só temos multinacionais, numa visão “cubana”, diferentemente da atual visão utilitarista da China, que apesar de ter recentemente passado a OBRIGAR a transferência de tecnologia para as empresas chinesas, sócias obrigatórias de qualquer empresa multinacional que lá queira se instalar, se tornou a nova Meca para o investimento automotivo, inclusive tendo sido anunciado um dos maiores investimentos da história da VW para DUPLICAR a sua capacidade de produção naquele país.

O mais assustador em toda esta história foi a entrevista do Ministro do Trabalho (!) Jacques Wagner, anunciando a tomada de medidas para revitalizar o setor, com a concepção de “um novo carro popular” para o trabalhador brasileiro. TENHA SANTA PACIÊNCIA! Se o governo ao menos entendesse que deveria COPIAR o que já deu certo em vez de FICAR TENTANDO REINVENTAR A RODA, talvez mais pessoas passassem a acreditar na atual administração federal.

No BCWS, na coluna do jornalista Roberto Nasser, há uma menção ao “programa”, com o projeto nomeado, bem a propósito, de JEGUE. Só falta saber quem vai fazer o papel do nobre asinino.

Ou o Governo, com este projeto ridículo, requentando uma idéia que se conceitualmente foi correta, foi desvantajosa ao consumidor, implicou em custos extras de pesquisa e desenvolvimento que se voltaram CONTRA, apenas e tão somente, o consumidor e que ainda por cima alijou as montadoras aqui instaladas de alcançar uma maior economia de escala para competir no mercado global.

Ou será o eleitor/consumidor/contribuinte que, vítima de mais “uma idéia brilhante” gestada no seio da administração federal, além de impedir a livre escolha do indivíduo, pode ser a última pá de cal a ser jogada sobre a pretensão, nada injusta, de que o Brasil se torne um grande polo produtor e exportador de automóveis. Um carro “popular” com preço abaixo dos US$ 5.000, incluindo impostos, só se for com rodas de bicicleta, carroceria de papelão e com um motor de liquidificador para movê-lo.

Seria muito mais produtivo que se enterrassem estas idéias esdrúxulas, parassem de tentar reinventar a roda e se passasse a tratar o assunto sob a ótica GLOBAL que o mesmo exige: tratando de favorecer a produção local de carros com REAL POSSIBILIDADE DE EXPORTAÇÃO, nas chamadas cilindradas médias, via isenção fiscal sobre o que JÁ EXISTE, possibilitando inclusive a instalação/expansão de indústrias de partes e peças.

De que adianta ficar falando em Reforma Tributária se, nem bem esta foi sequer formatada, que dirá aprovada, já se fala em isenções, exceções, etc, apenas e especialmente para uma idéia DO Governo? Pelo amor de Deus, chega de assistencialismo, de  qualquer espécie; que em vez de ficar “inventando moda”, gastando fosfato com a invenção de um automóvel para o Brasil (o que contraria toda a lógica da inserção global, que deveríamos estar buscando), por que não definir regras, especificações SOBRE O QUE JÁ EXISTE, evitando inclusive a exigência de novos investimentos em algo que ainda nem existe e que provavelmente ninguém, até mesmo o governo, sabe o que é.

Por que não enquadrar na categoria de “carros populares” todos os modelos do segmento chamado subcompacto, com motorização ATÉ 1,6 litro, ficando definido que, para este enquadramento, além dos equipamentos obrigatórios por lei, deveria o mesmo poder contar, NO MÁXIMO e À ESCOLHA DO CONSUMIDOR, com direção hidráulica (para facilitar o uso de pessoas com restrições físicas, seja por deficiência, seja pela idade) e ar-condicionado (devido ao óbvio de morarmos em um país tropical, conjuntamente com a insegurança corrente em nossos dias)?

Tudo o mais que o consumidor quisesse (“trio elétrico”, rodas de liga leve, acabamento interior diferente, etc.) deveria ser considerado como ACESSÓRIO, e se colocado pela concessionária, cobrado com a alíquota de imposto “cheia”, sem nenhuma vantagem adicional.

De que vai nos servir criar nova e artificialmente um produto que provavelmente exigirá novos investimentos, em vez de se aproveitar os já ocorridos, alguns nem mesmo maturados, para gerar um produto único, único no mesmo sentido dos carros 1.0? Algo que não acrescentará nada em termos tecnológicos ao nosso mercado, não nos servirá como vitrine para atrair novos investimentos e, provavelmente de novo, será algo “invendável” no exterior, portanto onerando a nossa balança de pagamentos com o envio de lucros, mas sem a menor possibilidade de gerar retorno via exportação.

Volta e meia se fala de carga absurda de impostos, chegando em alguns modelos a quase 50%, algo monstruoso, obsceno. Na média, fala-se de algo em torno de 35% sobre o preço de venda de cada carro. Ora, se fizermos uma “regra de três” inversa, considerando como valor base os 65 (igualando-os aos 100%), teremos que estes 35% de impostos sobre o preço de venda são, na realidade, absurdos, monstruosos, indecentes 54,85% sobre o preço de custo de cada automóvel vendido no país.

Mesmo em países reconhecidos por sua cunha fiscal, como Alemanha e Itália, o imposto chega NO MÁXIMO a algo em torno de 20% do preço do carro, praticamente A METADE do cobrado por aqui. Não é possível que continuemos com tal carga de impostos, não apenas nos carros, mas em geral. Mais: não é possível continuarmos a gerar excrescências como os ditos “carros populares 1.0”, que não acrescentaram praticamente nada ao mercado, nos alijaram da competição internacional, nos atrasando em muitíssimo na inserção global de nossas fábricas pela disputa de uma parte das vendas das montadoras.

Será que novamente veremos um “factóide”, como o dito carro popular, ocupar o espaço do debate sério e profundo, além de extremamente necessário, que é uma política industrial para o setor automotivo brasileiro, especialmente neste momento de retração mundial? Será que o personalismo do governo vai gerar mais uma “bravata”, neste caso em um setor onde o que se viu foi uma completa desarticulação, deixando inclusive o balizador que serviria como espelho para as empresas aqui instaladas, aquele representado pelas marcas que apenas importam seus veículos para o nosso país, sem fábrica por aqui, ficasse à míngua, representando hoje, no máximo, algo em torno de 5% do mercado total?

Pior, foi-se postergando normas reguladoras, inclusive prejudicando os importadores ao adiar a adoção da tarifa de 22%, acordada anteriormente e que poderia chegar a ser até mesmo de 20%, equiparando-se à TEC. Quem parece ter sido o beneficiado? A meu ver, tal mimo foi oferecido à Argentina, para que esta recuperasse seu parque fabril, à custa inclusive do Brasil aceitar condições que devem desviar investimentos para aquele país, fazendo de suas montadoras algo bem próximo às “maquillas” mexicanas, uma vez que após anos seguidos de medidas “de proteção”, de “exceção”, etc., os industriais portenhos sempre postergaram os investimentos necessários à modernização de seu parque fabril e agora, com o aval do Brasil, lhes demos a permissão para que se tornem meros embaladores de peças importadas, inclusive prejudicando a pesquisa, introdução e a produção de novas técnicas no Brasil.

A conseqüência? A mais visível é que com a diminuição da competição dos modelos fabricados no Brasil com os importados, enxerga-se uma INVOLUÇÃO gritante nos modelos produzidos no Brasil, obrigando o consumidor brasileiro a comprar carros cada vez mais caros, mais depenados e com menos tecnologia embarcada.

Portanto, o que eu enxergo é um “desinvestimento” brutal no Brasil por parte das montadoras, mas também vejo uma atitude absurda do Governo Federal ao QUERER REINVENTAR o chamado carro popular, quando existem outras questões tão mais importantes e prementes à sua frente.

O BRASIL NÃO PRECISA E NÃO DEVE GASTAR TEMPO E DINHEIRO, TANTO DO CONTRIBUINTE, QUANTO DAS MONTADORAS, EM TEMPO DE INVESTIMENTO ESCASSO, CRIANDO UM “CARRO DO TRABALHADOR”, ALGO QUE MUITO PROVAVELMENTE SÓ VAI SERVIR DE PROPAGANDA PARA O ATUAL GOVERNO AO PENSAR NOS MAIS NECESSITADOS.

DE BOAS INTENÇÕES O INFERNO JÁ ESTÁ CHEIO. NÃO PRECISAMOS DE MAIS UMA QUE NÃO VAI ACRESCENTAR NADA AO BRASIL. O QUE PRECISAMOS É DE TRIBUTAÇÃO JUSTA, RESPONSÁVEL E EM SINTONIA PARA QUE POSSAMOS PRODUZIR A CUSTOS COMPETITIVOS, TANTO PARA O BRASIL, QUANTO PARA EXPORTAÇÃO.

O TRABALHADOR BRASILEIRO, CREIO EU, NÃO QUER E NÃO PRECISA DE UM CARRO PARA ELE; O QUE É PRECISO É CRESCIMENTO DO PAÍS, AUMENTO DA RENDA PARA QUE O PRÓPRIO TRABALHADOR DECIDA O QUE DESEJA COMPRAR, DE QUE MARCA, EM QUAL CILINDRADA, ETC. OU, ATÉ MESMO, QUE NÃO É UM CARRO O SEU OBJETO DE DESEJO E ELE POSSA IR E VOLTAR AO SEU TRABALHO EM UM TRANSPORTE PÚBLICO DECENTE, LIMPO, SEGURO, EM VIAS DE TRÂNSITO TAMBÉM DECENTES, EM RAZOÁVEL ESTADO DE CONSERVAÇÃO, QUE PERMITAM A CIRCULAÇÃO DE PESSOAS E MERCADORIAS, AJUDANDO A PROMOVER O CRESCIMENTO DO PAÍS.

Obs.: Este é o desabafo de um brasileiro que não agüenta mais tantos “experimentalismos”, tantas aventuras que, apenas nos últimos quinze anos, desde a primeira eleição presidencial após a Ditadura, têm custado tanto ao Brasil e aos brasileiros e enxerga nas dificuldades de um setor da economia, que é uma paixão para si, escorrer entre os dedos uma oportunidade de inserção no mundo dito globalizado, vê novamente o país perder o bonde da história, refletindo toda uma situação terrível pela qual passamos neste momento  e vê, ainda assim, os atuais governantes “inventando moda”, em de se aterem àquilo que é mais substantivo, necessário, no atual momento brasileiro: clareza, simplicidade de propósitos, visão de mundo, não apenas a “visão global”, mas a visão necessária para enxergar ONDE podemos chegar, desde que partamos não de fórmulas batidas mundo afora, mas sim daquilo que tem eficiência comprovada, possibilidade de execução com os (parcos) atuais recursos disponíveis, que permitam nos integrarmos ao atual ambiente de globalização, mantendo foco no que é necessário, sem mais aventuras, que tanto custam e custaram ao Brasil e aos brasileiros.

Este texto expressa apenas e tão somente a opinião daquele que o escreveu, não estando ligado a nenhum grupo, partido e/ou agremiação. Espero apenas estar externando uma opinião que, creio eu, deve ser compartilhada por um grande número de brasileiros. Estou enviando este texto aos Ministérios da Fazenda, ao do Planejamento, Secretaria de Presidência, à Anfavea e ao maior número possíveis de jornais impressos, sobre economia ou não, revistas semanais e especializadas, bem como para sites, em especial, aqueles sobre o assunto automóvel.

Eduardo Teixeira Küll
Ribeirão Preto, SP
kull@ribermail.com.br

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Data de publicação: 26/7/03