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Palavra do Leitor

Dias Gomes morreu em vão?

Será que os brasileiros aprenderão
algum dia a usar cinto de segurança?

por Luciano Nogueira Marmontel

Na madrugada do dia 18 de maio de 1999 o dramaturgo, escritor e membro da Academia de Letras Alfredo Dias Gomes, autor consagrado de diversas obras de grande sucesso como O Pagador de Promessas e O Bem Amado, estava em um táxi na Av. Nove de Julho, São Paulo, retornando de uma churrascaria para o hotel onde estava hospedado. Na Rua Estados Unidos, o motorista do táxi tentou fazer uma conversão proibida. O táxi foi atingido por um ônibus urbano e rodopiou na pista. O corpo do dramaturgo foi arremessado para fora do carro e colidiu com uma mureta. Este acontecimento, no passado recente, pôs fim à vida do genial escritor.

Na época, na cobertura da imprensa dada ao caso, havia uma unanimidade repetida à exaustão por diversos especialistas em investigação de acidentes: se Dias Gomes estivesse usando cinto de segurança, teria sobrevivido. Segundo um relato feito por uma emissora de TV, ele chegou a perguntar se, por sentar-se no banco de trás do veículo, deveria usar cinto de segurança. O taxista, Ozias da Silva, de 29 anos, teria respondido que não, já que o percurso era curto.

Infelizmente, apesar do ocorrido ter se dado num passado recente, parece ter caído no completo esquecimento.

A realidade é bem simples: o brasileiro usa cinto de segurança, mas não pela segurança. Usa somente para evitar multa. Se achar que não será multado, não usa. É o caso típico das pessoas que usam o carro em pequenos percursos ("só daqui até ali") ou em vias secundárias nas zonas rurais ou bairros distantes dos centros.

Pior ainda é quando os ocupantes do veículo sabem que nunca serão multados. Refiro-me a policiais ou certas autoridades, como juízes e políticos. Exatamente aqueles que teriam o dever moral de dar exemplo. Tenho uma amiga que, ao engravidar, não usava o cinto de segurança porque este lhe apertava a barriga.

No banco traseiro dos automóveis, então; nem se fala. São raríssimos os passageiros que espontaneamente o colocam.

Também raros são os ônibus rodoviários que possuem cinto de segurança (quem souber a razão, favor explicar). Mas são menos ainda os passageiros que os colocam. Já viajei em ônibus onde os cintos estão totalmente depredados, o que me impossibilitava de colocá-los. Ninguém reclama por sua falta.

Muitos pais deixam suas crianças soltas nos bancos de trás ou mesmo no da frente. Não ocorre na cabeça deles que num inocente trajeto, do tipo casa-escola-casa da vovó-clube, algum imprevisto possa acontecer. Certamente, eles se julgam pais extremamente responsáveis e exemplares e que nunca permitiriam que algo ruim acontecesse aos seus preciosos tesouros!

Há alguns anos peguei um táxi em São Paulo. Notei que o motorista não prendia o cinto na fivela, mas se sentava sobre a presilha. Assim, conseguiria evitar uma multa pelo não-uso do acessório, já que um policial que o visse pensaria que o cinto estava preso. Mas não evitaria que fosse arremessado contra o volante e o pára-brisa, em uma colisão frontal.

Em outra ocasião tomei um táxi em Belo Horizonte, com alguns amigos. Sentei-me no banco de trás, e reparei não haver cinto (como sempre, estavam embaixo do banco). Questionei o fato ao motorista e o mesmo me veio com o infalível "aí atrás não precisa. Eu só uso para evitar uma multa, senão, nem colocava...". Para provocá-lo, perguntei se ele se lembrava do ocorrido com Dias Gomes e o motorista desconversou. Contou que o cinto suja a roupa, é incômodo e é totalmente desnecessário, já que no perímetro urbano o máximo de velocidade possível a um carro é "apenas" 60 km/h.

Brasileiro tem mesmo memória muito curta!

Sempre que ocorrem certos tipos de acidentes, como o que vitimou Dias Gomes, invariavelmente a imprensa mostra uma grande quantidade de debates, entrevistas com especialistas de segurança e matérias sobre o assunto. Inutilmente. As pessoas assistem ao programa e ficam impressionados pelas imagens nos testes de colisão. Mas ao entrar em um automóvel, perece que instantaneamente que se esquecem do que viram. Não porque não acreditem na eficácia do acessório, mas talvez por, inconscientemente, acharem não ser passíveis de se acidentar.

Quantos mais deverão morrer por nada até aprendermos a lição?

Luciano Nogueira Marmontel
Pouso Alegre, MG - automat@net.em.com.br

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Data de publicação: 13/12/03