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Palavra do Leitor

Para onde vamos? E de quê?

(Sem) rumos da indústria automobilística

por Eduardo T. Kull

Nada me entristece mais do que ler as atuais reportagens sobre o setor automotivo brasileiro: só uma revista do meio esteve em Genebra, cada vez menos se falam de novos lançamentos nacionais, carros já lançados há um bom tempo parece que vão se perpetuar ad eternum em nosso mercado, fazendo um remake do que ocorre com Kombi, Santana, Corsa Classic etc.

Fora casos como de modelos em que o preço sobe, o número de equipamentos cai, ou retrocede (direção eletroidráulica nos Astra/Zafira; idem para o Polo, com até mesmo a perda até mesmo da luz das portas). Quando não, modelos lançados de cara bem mais pelados e atrasados tecnologicamente do que seus "primos" europeus (Corsa e Meriva em relação a equipamentos e Polo, idem, Fiesta em relação ao acabamento, sem falar nos seus motores antiquados).

Acho curioso quando um presidente de empresa, no caso da Chevrolet, vem ele, um estrangeiro recém-chegado, sem intimidade com o mercado brasileiro, dizer que o Astra novo pode não ser o ideal para o mercado brasileiro. Qual será então? Será o atual modelo tão bom assim que o ideal para o consumidor brasileiro é a sua perpetuação por tempo longo e indefinido? Se assim o é, por que o atual modelo também não continuou na Europa? Este é o tipo de desculpa ingênua que pode esconder a intenção de lançar o novo modelo ou, pior, serve de cortina de fumaça para a não-admissão da falta de interesse em investir em nosso mercado (espero, sinceramente, estar errado).

Gostaria de comentar a opinião do jornalista Roberto Nasser, de que para alavancar as exportações e garantir investimentos é necessário um mercado interno forte. Acredito que ainda hoje isto não seja exatamente verdadeiro. Qual o tamanho do mercado interno da Coréia do Sul? Nunca vi ou li nada a respeito, mas me parece que este país primou primeiro por atender à demanda do mercado (carros simples e baratos), substituindo o lugar anteriormente ocupado pelo Japão, e agora sim, está desenvolvendo veículos próprios mais avançados tecnologicamente, inclusive com tecnologias autóctones.

No caso do México, vendeu-se ano passado por lá algo em torno de 60% do número de Golfs que se vende por aqui e o equivalente a uns dois meses de produção do A3 brasileiro. Portanto, de novo, cai por terra este argumento do mercado interno forte para justificar a produção de determinado modelo em um país. Creio que o Brasil tem sim, sérios problemas econômicos, um governo que, ainda mais do que o anterior, quer ser "sócio" da produção sem a mínima contrapartida.

Mas também acredito que o setor não têm feito a pressão de que seria capaz em virtude de seu tamanho, nem que o mesmo tenha deixado de lado a delicadeza, como eu acredito que seja necessário, para colocar algumas sugestões factíveis e EXIGIR uma resposta e aí sim, dizer a que veio. Neste caso, ainda pesa a desunião entre as próprias montadoras, por conta de diferenças pontuais, bloqueando sugestões que serviriam a todas.

Onde estaria a indústria automobilística de países como o México (futura linha de montagem do Golf V) e a República Checa (fábrica VW do Touareg) se os mesmos não fizessem parte do NAFTA e União Européia? Não se fala também que o volume de produção, o ganho de escala, compensa outras deficiências ou obstáculos naturais, como distância.

Ou isto não é verdade, ou se é, é necessário explicar, o por que de perdermos o bonde da indústria automobilística. Temos matéria-prima abundante e com preços competitivos, mão-de-obra preparada, fábricas modernas e possibilidades de exportação a custos razoáveis, até mesmo por conta da desvalorização de nossa moeda e dos baixos salários pagos aqui. Se faltam acordos comerciais, que o setor se mobilize e PRESSIONE SEM DÓ o governo, EXIGINDO estes acordos, inclusive como forma de sobrevivência para o setor.

Eduardo T. Kull
Ribeirão Preto, SP - ekull@uol.com.br

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Data de publicação: 8/5/04

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