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Nada me entristece mais
do que ler as atuais reportagens sobre o setor automotivo brasileiro: só
uma revista do meio esteve em Genebra, cada vez menos se falam de novos
lançamentos nacionais, carros já lançados há um bom tempo parece que vão
se perpetuar ad eternum em nosso mercado, fazendo um remake
do que ocorre com Kombi, Santana, Corsa Classic etc.
Fora casos como de modelos em que o preço sobe, o número de equipamentos
cai, ou retrocede (direção eletroidráulica nos Astra/Zafira; idem para o
Polo, com até mesmo a perda até mesmo da luz das portas). Quando não,
modelos lançados de cara bem mais pelados e atrasados tecnologicamente
do que seus "primos" europeus (Corsa e Meriva em relação a equipamentos
e Polo, idem, Fiesta em relação ao acabamento, sem falar nos seus
motores antiquados).
Acho curioso quando um presidente de empresa, no caso da Chevrolet, vem
ele, um estrangeiro recém-chegado, sem intimidade com o mercado
brasileiro, dizer que o Astra novo pode não ser o ideal para o mercado
brasileiro. Qual será então? Será o atual modelo tão bom assim que o
ideal para o consumidor brasileiro é a sua perpetuação por tempo longo e
indefinido? Se assim o é, por que o atual modelo também não continuou na
Europa? Este é o tipo de desculpa ingênua que pode esconder a intenção
de lançar o novo modelo ou, pior, serve de cortina de fumaça para a
não-admissão da falta de interesse em investir em nosso mercado (espero,
sinceramente, estar errado).
Gostaria de comentar a opinião do jornalista Roberto Nasser, de que para
alavancar as exportações e garantir investimentos é necessário um
mercado interno forte. Acredito que ainda hoje isto não seja exatamente
verdadeiro. Qual o tamanho do mercado interno da Coréia do Sul? Nunca vi
ou li nada a respeito, mas me parece que este país primou primeiro por
atender à demanda do mercado (carros simples e baratos), substituindo o
lugar anteriormente ocupado pelo Japão, e agora sim, está desenvolvendo
veículos próprios mais avançados tecnologicamente, inclusive com
tecnologias autóctones.
No caso do México, vendeu-se ano passado por lá algo em torno de 60% do
número de Golfs que se vende por aqui e o equivalente a uns dois meses
de produção do A3 brasileiro. Portanto, de novo, cai por terra este
argumento do mercado interno forte para justificar a produção de
determinado modelo em um país. Creio que o Brasil tem sim, sérios
problemas econômicos, um governo que, ainda mais do que o anterior, quer
ser "sócio" da produção sem a mínima contrapartida.
Mas também acredito que o setor não têm feito a pressão de que seria
capaz em virtude de seu tamanho, nem que o mesmo tenha deixado de lado a
delicadeza, como eu acredito que seja necessário, para colocar algumas
sugestões factíveis e EXIGIR uma resposta e aí sim, dizer a que veio.
Neste caso, ainda pesa a desunião entre as próprias montadoras, por
conta de diferenças pontuais, bloqueando sugestões que serviriam a
todas.
Onde estaria a indústria automobilística de países como o México (futura
linha de montagem do Golf V) e a República Checa (fábrica VW do Touareg)
se os mesmos não fizessem parte do NAFTA e União Européia? Não se fala
também que o volume de produção, o ganho de escala, compensa outras
deficiências ou obstáculos naturais, como distância.
Ou isto não é verdade, ou se é, é necessário explicar, o por que de
perdermos o bonde da indústria automobilística. Temos matéria-prima
abundante e com preços competitivos, mão-de-obra preparada, fábricas
modernas e possibilidades de exportação a custos razoáveis, até mesmo
por conta da desvalorização de nossa moeda e dos baixos salários pagos
aqui. Se faltam acordos comerciais, que o setor se mobilize e PRESSIONE
SEM DÓ o governo, EXIGINDO estes acordos, inclusive como forma de
sobrevivência para o setor.
Eduardo T. Kull
Ribeirão Preto, SP - ekull@uol.com.br
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