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Opala: paixão esquecida


Nosso Diplomata tornou-se mais prazeroso de olhar
do que propriamente possuir e conduzir

por Evandro Araujo Menezes - evandro_es@hotmail.com
Até hoje me surpreende e admira a insistência do velho Opala em aparecer nas revistas especializadas. Sempre tido como referência em desempenho, conforto, resistência e beleza, não para todos, é claro. E qual foi a minha maior surpresa senão a de vê-lo finalista na eleição do carro mais bonito de todos os tempos? Concorrendo nada menos com 3 Ferraris e um Mercedes. É quase um absurdo, mas eu adorei.

Agora falando como ex-proprietário e antigo "opalista" convicto, devo confessar que me prevaleceu a razão e sou obrigado a discordar em muitos pontos do colega leitor Ricardo Dias Sacco, que muito elogia o veterano automóvel em seu artigo (
leia).

Desde criança esse carro me fascinava e tornara-se meu sonho de consumo. Um sonho que poderia se concretizar com o tempo, acreditava. Demorou um pouco e finalmente consegui, convenci meus pais e meu irmão que o Opalão seria a melhor opção depois de nos desfazermos do popular Corsa 1.0 EFI ano 1995! Aquele sonho de cerca de 4,80 m de comprimento, quatro portas, motor 6 cilindros, realizou-se naquele Diplomata 91 verde musgo. Um dos mais lindos que já vi. Daí que apesar de surpreso me fez muito sentido ser apontado como um dos carros mais bonitos da história. Não me cansava de olhar aquelas formas imponentes, com belas rodas 15" e que demonstravam robustez e confiabilidade. O seu interior, escuro, era antiquado, mas aqueles bancos (verdadeiras poltronas) eram demais. Ainda tinham aquele cheirinho de Opala.

Todas aquelas concepções e supostas vantagens mecânicas que nosso colega leitor apontou em seu artigo eu pregava a todos. Porém, meu pai, mecânico experiente, não se cansava de me contradizer mostrando sempre os seus defeitos ocultos debaixo daquela imagem.

E realmente o Opala, como uma mulher somente linda (como dizia Vinícius de Moraes) foi uma decepção. Posso dizer hoje com clareza que suas únicas grandes virtudes eram um excelente sistema de freios, de quatro discos e bem dimensionados, espaço interno, força e beleza. De fato tornou-se um carro mais prazeroso de se olhar (e quem sabe andar de carona) do que propriamente se possuir e conduzir.

O enorme seis cilindros de 4,1 litros esbanjava força (e consumo), mas pecava no projeto muito antigo. A potência máxima de 121 cv era atingida a somente 3.800 rpm, demonstrando baixo desenvolvimento. O funcionamento suave e seu ronco encorpado eram apaixonantes, mas não rendiam o suficiente comparando com motores mais modernos. O câmbio, de apenas 4 marchas (só o modelo 92 possuiu 5 marchas) não contribuía em estradas, aumentando o consumo em velocidades de cruzeiro. Além de apresentar engates demorados, era subdimensionado para o motor, assim como todo o sistema de transmissão.

Sua tração traseira seria uma vantagem se não perdurasse o arcaico eixo rígido na suspensão traseira, muito pesado e que fazia o carro sacolejar preocupantemente quando passava por ondulações, principalmente em curvas. Uma acelerada mais forte poderia causar uma rodada facilmente, devido também à generosidade de torque do motor. Na suspensão dianteira o problema era de subdimensionamento em relação ao peso do carro e do motor. Seu pivô e buchas deterioravam-se facilmente e os amortecedores desgastavam-se idem. Seu peso avantajado afetava também a sua própria estrutura, sendo comum Opalas com suas "longarinas" rachadas e soldadas.

Outros problemas, pequenos ou não, surgiam e pioravam sua reputação. A caixa de direção hidráulica, eletronicamente progressiva (inovação na época), apresentava vazamento frequënte, não solucionável nem com a troca do "reparo". O ar-condicionado nunca atendeu a contento e o gás vazava. Panes elétricas, quebra do velocímetro, ruído na transmissão, não combinavam com sua aparência interna e externa impecáveis, demonstrando pouco uso.

O prazer maior do meu Opala foi me desfazer dele, infelizmente, tornando o meu Monza o melhor carro do mundo. Confesso que ainda sinto uma ponta de saudade, talvez do que ainda fosse sonho. Mas nada melhor que um automóvel que seja estável, que aceite seus erros ao volante e seja controlável, tenha um consumo condizente, uma robustez verdadeira e que não viva no passado.

Evandro Araujo Menezes
evandro_es@hotmail.com
Vitória, ES

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