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Efeito guilhotina


Código prevê altura do pára-choque traseiro dos veículos, mas ignora a estrutura de fixação e o material empregado

por Ricardo Dias Sacco - rids@usp.br


"A neblina encobre quase toda a extensão da estrada mal conservada, com buracos e falta de sinalização. As faixas duplas, amareladas desbotadamente, partem apenas de uns cinco metros à frente do automóvel, que quase pára de tão lento. O motorista, cansado de sacolejar, resolve que logo que abrir o nevoeiro vai pisar para descontar o atraso.

Aos poucos a neblina vai se atenuando e a visibilidade aumenta. O motorista, mais seguro, pressiona o pé direito o suficiente para elevar a rotação para a próxima marcha e assim vai se entusiamando diante da possibilidade de igualar o limite de velocidade máxima da estrada. Quando, de repente, reflexos de 'olhos de gato' vermelhos o encaram de frente. Num baque surdo, de metal contra metal, uma fina barra de aço apoia-se na frente do carro, logo cedendo. Uma segunda, mais parecendo um trilho de ferrovia, acerta em cheio as colunas do para-brisa (coluna A), sanfonando o teto do carro como se fosse de papel, levando junto, parte do corpo do nosso impaciente motorista, a parte que toma as decisões como a de acelerar ou frear. O 'trilho' que converteu o automóvel fôra o parachoque de um caminhão, que trazia pintado no barra-lama traseiro: 'garagem de cego'."

Esse acidente pode ter acontecido há uns dois anos, quando o Novo Código de Trânsito ainda não vigorava, assim, não regulamentando a altura máxima do pára-choque traseiro dos autos, mas, infelizmente, acidentes como esse acontecem ainda hoje, diariamente.

O Código prevê as alturas mínima e máxima para o acoplamento e fixação do pára-choque traseiro, assim como a envergadura do mesmo. Mas ignora, irracional e irresponsavelmente a estrutura de fixação e o material empregado nesta.

As carrocerias fabricadas por empresas idôneas e com respeito à vida trazem pára-choques regimentalmente corretos e testados, muitas vezes em simulações de impacto; fazem testes de fadiga do material e impõem normas de revisão e substituição de várias peças. O problema está na pequena proporção dos produtos dessas empresas no comércio de autopeças e o preço final, muitas vezes supervalorizado, colocando um número de peças frágeis e apenas ilustrativas à disposição dos caminhoneiros, muitas vezes desavisados.

Outro aspecto agravante é a perspicácia de alguns caminhoneiros em desenvolver meios para otimizar o caminhão às suas vontades. Alguns caminhões, além de ter recebido um prolongamento inferior do pára-choque, também ganharam dobradiças nesses. Assim, numa manobra de estacionamento mais infeliz, que cause um pequeno acidente, os danos são menores; bem menores do que se alguém entre com o carro dobradiça adentro. Nesse caso, o caminhoneiro não terá nem a responsabilidade culposa (de quem não tem a intenção), desde que não haja uma inspeção mais apurada da situação do caminhão antes do acidente.

Mais uma vez, através de leis, vêm atentar contra a inteligência do motorista, fazendo normas pela metade, tornando-as sem uso prático, servindo apenas para confundir e aparentar. Afinal, você sabia que existem velocidades máximas diferentemente estipuladas para caminhonetes e caminhonetas e a diferença entre elas pode ser apenas uma capa de lona na caçamba? É esse tipo de inutilidade que traz a desobediência e o não-funcionamento da fiscalização, muitas vezes ceifando vidas.

Do outro lado da questão estão as montadoras de automóveis. Para um exemplo prático, vamos pegar um dos carros mais seguros do mundo (pelo menos comercialmente tachado), um da linha Volvo. A segurança ativa no carro faz com que este não derrape, freie conforme esperado pelo condutor, evite pequenos impactos através de sensores, não haja o impacto da face do condutor contra o pára-brisa e mais alguns itens de extrema importância para a segurança dos ocupantes. A segurança passiva cuida para que, em caso de capotamento, o teto seja alto o suficiente, as barras nas portas agüentem impactos de até 20 toneladas, a parte frontal e traseira do auto absorva impactos para deixar o habitáculo intacto e inúmeros outros artifícios pensados durante o desenvolvimento do projeto do auto. Mas ninguém cuida de impactos como o "efeito guilhotina". Eu nunca vi um crash-test feito com outro obstáculo senão um plano perpendicular ao chão.

Destarte, contando com a inoperância da fiscalização, as ausências nas leis, o pouco-caso de alguns motoristas e a audácia de outros, a abstenção das montadoras e a falta de informação, temos, hoje em dia, um índice altamente alarmante: de cem acidentes entre autos e caminhões, onde há colisão traseira sofrida pelo caminhão, perto de sessenta resultam em mortes e cerca de trinta nem chegam a frear antes da colisão.

A apatia diante desses fatos foi quebrada por um grupo de pesquisadores da Unicamp, que decidiriu organizar um movimento de alerta contra esses acidentes e de conscientização da população quanto ao fato de nada estar sendo feito regimental, prática e educativamente. Tal movimento deu origem ao Projeto Impacto que já integra uma rede de informações mundial sobre o assunto, através de páginas na internet, as quais podem ser encontradas em sites de procura.

Considerando a possibilidade de condições adversas, espero que, se um dia, eu sofrer uma colisão frontal, que seja contra um bloco de concreto plano e perpendicular ao chão e não contra algo escrito "garagem de cego".


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