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Estive em Interlagos para cobrir a 31ª.
Mil Milhas Brasileira. Tive várias surpresas agradáveis (principalmente com a organização, acima da média registrada em outras edições) e vi ao vivo uma corrida sensacional. Durante as quatro primeiras horas,
dois Porsches 911 GT3 -- um de Ingo Hoffmann, Xandy Negrão, Ricardo Etchenique
e Fernando Nabuco, o outro de Raul Boesel, Paulo Bonifácio e Ricardo Maurício
-- correram como se estivessem em uma corrida curta.
Os dois carros se alternaram na liderança e andaram sempre muito próximos (com diferenças inferiores a um segundo na maior parte do tempo), até que um defeito no macaco hidráulico fez o carro de Boesel,
Boni e Maurício perder 10 minutos nos boxes. Eles terminaram em terceiro, atrás do Porsche vencedor e de um protótipo nacional ANR equipado com motor Opel e pilotado por Vítor
Meira, Rogério Vilas Boas, José Alexandre Rodrigues e Antônio Vilas Boas. Tinha valido a pena ficar acordado durante as 12 horas de corrida, da meia-noite ao meio-dia do último domingo, dia 26.
Aproveitei os dias seguintes à Mil Milhas para rever um filme clássico para quem gosta de automobilismo:
Le Mans (no Brasil, 24 Horas de Le Mans), com Steve McQueen. Não é tão bom quanto
Grand Prix (do qual já falei duas vezes aqui no BCWS), mas as imagens de ação são sensacionais.
Le Mans foi rodado durante a 24 Horas de Le Mans de 1970 e mostra a luta pela vitória entre as equipes Porsche (pela qual corre McQueen, cujo personagem é um piloto americano chamado Michael Delaney) e Ferrari. Esta, no filme, tem como grande astro um piloto alemão chamado Erich Staller, interpretado por Siegfried Rauch.
Le Mans teve tratamento e orçamento de superprodução. McQueen já fizera algumas corridas como piloto: naquele mesmo ano de 1970, havia terminado em segundo lugar na 12 Horas de Sebring, dividindo seu Porsche 908 com Peter Revson. Para que as cenas de
Le Mans tivessem mais realismo, McQueen inscreveu esse mesmo carro, equipado com câmeras, apenas para fazer tomadas de dentro da pista.
Ele pretendia pilotar, mas desistiu ao ser comunicado de que sua seguradora não arcaria com as responsabilidades em caso de acidente. Na época, McQueen era um dos grandes astros de Hollywood e Le Mans era considerada uma das corridas mais perigosas do mundo. Se ocorresse algum sinistro, o prêmio a ser pago seria altíssimo.
O filme teve uma produção tumultuada por causa das brigas entre McQueen (que além de ator era o produtor da fita) e o diretor inicialmente contratado. O resultado é que o filme vale unicamente pelas cenas de corrida: a história é chata demais. Mas fez um tremendo sucesso, principalmente entre o público fanático por automobilismo. Além disso, naquela época as corridas de longa duração --
endurance, como preferem alguns -- tinham popularidade idêntica à da Fórmula 1. Ao contrário do que acontece hoje, os grandes pilotos de F-1, com poucas exceções, eram presença certa nessas corridas.
Parece difícil imaginar hoje em dia provas de longa duração tão populares quanto a F-1, não é? Mas naquela época era assim. E não é difícil entender por quê. Essas corridas reuniam grandes pilotos que corriam de dia, de noite, em autódromos ou em circuitos de estrada (a Targa Florio, na Itália, era disputada por um circuito de 72 quilômetros formado por estradas e ruas da Sicília). Alguns pilotos tornaram-se verdadeiros deuses por causa de seus desempenhos nessas provas. Só para citar alguns: Olivier Gendebien, Vic Elford, Jo Siffert, Pedro Rodriguez, Jacky Ickx, Derek Bell e Stefan Bellof.
E os carros? Era impossível ignorar aqueles carrões maravilhosos, de linhas futuristas e agressivas e quase tão velozes quanto os F-1. Alguns deles marcaram época. Nos anos 60, o Ford GT
40 e o Porsche 908; nos 70, o Porsche 917, o Ferrari 512, o Matra-Simca e o Mirage; nos 80 e 90, os Porsches 956 e 962, o Jaguar XJR, os Sauber-Mercedes e o Mazda com motor
rotativo.
Não é para menos que houvesse uma pequena legião de fanáticos que acompanhava o Campeonato Mundial com enorme interesse. Ele foi disputado entre 1953 e 1992, com diversos nomes: Mundial de Marcas, de Carros Esporte, de Endurance, de Esporte-Protótipos. As corridas tinham normalmente 24 horas (Le Mans, Daytona), 12 horas (Sebring), 6 horas (Silverstone) ou 1.000 quilômetros (Nurburgring, Spa, Brands Hatch, Monza). Um caso à parte foi a Targa Florio: era na Sicília, na Itália, por estradas e ruelas sem a menor proteção. Cada volta tinha cerca de 72 quilômetros -- a corrida tinha 11 voltas quando foi disputada sua última edição, em 1977.
Por que esse campeonato acabou? Em boa parte, por causa da FIA, Federação Internacional do Automóvel. Ao longo da história, a entidade fez alterações no regulamento que revelaram-se verdadeiros desastres -- a ponto de, em vários anos, os organizadores de Le Mans criarem um regulamento próprio e abrirem mão do status de etapa válida pelo Campeonato Mundial. Outro motivo, mais contemporâneo, é que a necessidade de uma cobertura televisiva forte praticamente inviabiliza um campeonato inteiro composto por corridas com mais de duas ou três horas de duração.
O tiro de misericórdia aconteceu em 1991, quando a FIA baixou uma norma determinando que os motores fossem de 3,5 litros e
aspiração natural, com a clara intenção de incentivar (ou forçar) os fabricantes a entrar na F-1. Isso tornou inviáveis motores como os de 7,0 litros da Jaguar, os turbos da Porsche e os rotativos Wankel da Mazda. Alguns fabricantes até entraram na F-1, mas
não por causa das normas da FIA.
O mundial teve sua última edição em 1992. Hoje, alguns campeonatos (como a American Le Mans Series e a European Sports Car Series) são disputados com protótipos, mas estão longe da agitação e da relevância dos bons tempos. De qualquer maneira, ainda falta uma conquista para pilotos brasileiros: vencer a 24 Horas de Le Mans. Até hoje, nossos melhores resultados foram dois segundos lugares -- um de José Carlos Pace, em 1973, e outro de Raul Boesel, em 1991.
Está aí uma honra inédita para quem quiser entrar para a história.
Na foto, o Porsche 908 em Le
Mans, em 1970. Os "calombos" na frente e na traseira abrigam
as câmeras usadas para captar as imagens do filme Le Mans
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