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A FIA, Federação Internacional do Automóvel, impôs mudanças ao regulamento da Fórmula 1 para a temporada de 2003.
Entre as alterações técnicas está a proibição de uso de telemetria
boxe-carro (que permite, por exemplo, que um técnico altere a
mistura ar-combustível pelo simples apertar de um botão no
computador instalado no boxe) e dos sistemas eletrônicos embarcados (esta última entrando em vigor a partir do GP da Inglaterra).
Entre as desportivas, mudanças no sistema de treinos classificatórios e na
pontuação.
Ao efetuar essas modificações, a FIA tinha dois objetivos básicos: baratear os custos para as equipes e tornar as corridas mais imprevisíveis para o público. Não creio que o primeiro seja atingido de imediato nem que isso venha a acontecer no futuro -- o pacote de mudanças inclui propostas que só deverão entrar em vigor ao longo dos próximos três anos. O segundo objetivo será provavelmente alcançado, mas confesso que não gostei nem um pouco das regras que a F-1 terá este ano.
Cada piloto terá apenas uma volta para marcar o tempo que determinará sua posição de largada. Encerrada essa volta, o carro vai para o parque fechado, de onde só sairá para o grid. Os pilotos irão à corrida às cegas, sem ter chance de fazer uma última checagem antes da prova. Quem bater ou quebrar e precisar usar o carro reserva largará em último.
Tudo isso transforma a definição do grid em uma loteria -- um amigo comparou a nova fórmula a uma gincana escolar. As regras foram claramente inspiradas no automobilismo americano, onde o mais importante é o tal "espetáculo para o público", mesmo que para isso seja necessário alterar artificialmente o andamento da competição.
Na "nova F-1", o sistema de classificação vai definir o grid de largada não pela qualidade do conjunto carro-piloto, e sim pela sorte. Não quebrar, não errar, não rodar, não bater e não pegar pista escorregadia vai ter muito mais importância do que a competitividade do carro e a capacidade de ser rápido. É quase como definir o grid em uma roleta de cassino.
O novo sistema poderá proporcionar eventuais "zebras" (como um Ferrari largando em último ou um Minardi largando na primeira fila). Na corrida, a tendência é que tudo volte ao normal em poucas voltas. Efeitos de mágica duram um segundo ou dois, no máximo -- nunca duas horas...
Imaginemos ainda um piloto que está 2°. ou 3°. lugar na corrida e precisa forçar um pouco mais o carro, ou mesmo arriscar uma manobra ousada, para tentar vencer. A nova pontuação (10-8-6-5-4-3-2-1, do 1°. ao 8°. colocado) certamente vai conter esses ímpetos. Afinal, a pequena diferença de pontos entre o 1°. e o 2°. colocado encoraja muito mais a regularidade do que a busca pela vitória.
Um exemplo prático: imagine dois pilotos, A e B, separados por 10 pontos. Antes, quando a pontuação era 10-6-4-3-2-1, o piloto B precisaria vencer três GPs para superar seu adversário por dois pontos, caso este terminasse em 2°. lugar nas três corridas. Agora, para fazer o mesmo, o piloto B precisará do dobro de corridas para fazê-lo, também considerando que o piloto A termine sempre em 2°. lugar. Pode ser muito interessante para evitar decisões antecipadas de título, mas é a maneira mais artificial de fazê-lo.
Para os responsáveis pela F-1, porém, não interessa a competição esportiva nem a vitória do melhor piloto e da melhor equipe. Interessa, isto sim, que a audiência da F-1 na TV seja o mais alta possível, para que a FIA e a FOM cobrem mais pelos direitos de transmissão. E isso só seria possível tornando o "espetáculo" o mais imprevisível possível, para atrair mais o público leigo (aquele que só se interessa em ver largadas, acidentes e brasileiros no pódio).
O público mais qualificado, que não confunde "competitividade" com "imprevisibilidade", está órfão da verdadeira F-1. Uma pena.
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