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Brasil-potência... na F-1

Pode parecer incrível, mas o Brasil tornou-se um dos
países mais fortes da Fórmula 1 em presença de pilotos

por Luiz Alberto Pandini - Fotos: divulgação
Luiz Alberto Pandini

Passadas as primeiras quatro corridas do Campeonato Mundial de Fórmula 1, alguns torcedores já começam a se perguntar sobre as chances de os novatos Cristiano da Matta e Antonio Pizzonia se darem bem nesta temporada. É uma pergunta que se junta a outra, mais antiga: será que um dia Rubens Barrichello poderá ser campeão mundial?

A todas essas perguntas, costumo dar a mesma resposta: “Não sei”. E sempre acrescento: quem não curtiu as fases gloriosas de Émerson, Piquet e Senna dificilmente terá chance de viver algo parecido. Não que falte talento a nossos novos pilotos, mas porque as circunstâncias vividas pelo Brasil na F-1 entre 1970 (estréia de Émerson) e 1993 (última temporada completa de Senna) foram excepcionais e praticamente únicas.

Com raras exceções, dificilmente mais de um piloto de um mesmo país estabelece uma hegemonia tão marcante na Fórmula 1. A Alemanha teve sua fase nos anos 30, quando o campeonato era chamado de Grande Prêmio, mas ela foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial. Depois disso, só nos anos 90 é que surgiu um grande piloto alemão -- Michael Schumacher, é claro.

Hoje, a Alemanha tem os irmãos Schumacher, mas apenas Michael pode ser considerado um “monstro sagrado”. Ralf é bom piloto, mas dificilmente será um grande campeão. Dos pilotos atuais, Heinz-Harald Frentzen já está decadente e Nick Heidfeld, por uma série de fatores que independem de seu talento, tende a ficar perdido na bruma.

A Itália teve duas fases de grandes pilotos, sendo uma nas primeiras décadas do século passado e outra logo após a Segunda Guerra Mundial. E só: nenhum piloto italiano surgido depois do começo dos anos 50 se aproximou dos feitos de Tazio Nuvolari, Acchille Varzi, Giuseppe Farina e Alberto Ascari.

Ainda nos anos 50, a Argentina teve Juan Manuel Fangio, até hoje um dos três ou quatro melhores pilotos de todos os tempos, cujo recorde de cinco títulos mundiais só foi igualado no ano passado. Froilan Gonzalez, também argentino e contemporâneo de Fangio, era um ótimo piloto (venceu dois GPs, o primeiro deles sendo também o primeiro da Ferrari no Mundial de F-1), mas também faz parte daquela imensa galeria de vencedores que só são conhecidos e reconhecidos pelos fãs ou por quem realmente acompanha o esporte.
 

 

Entre o final dos anos 50 e o começo dos anos 60, o domínio da F-1 ficou com pilotos de países de língua inglesa. Todos os campeões mundiais entre 1958 e 1969 nasceram na Inglaterra, Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia ou Escócia. Foi nessa época que brilhou Jim Clark e que surgiu Jackie Stewart, ambos escoceses. Mas depois que Stewart se aposentou, em 1973, a Escócia só voltou a ter um piloto de expressão em 1994, quando David Coulthard estreou na F-1.

E o caso da Oceania? Nova Zelândia e Austrália, países de grandes pilotos nos anos 60 (incluindo os campeões mundiais Jack Brabham, australiano, e Denis Hulme, neozelandês), atravessaram temporadas inteiras sem representantes na categoria. E a França, que nos anos 70 e 80 revelou inúmeros pilotos talentosos, chegou a ter oito representantes em um único ano (1979). Mas somente Alain Prost foi campeão mundial. Hoje, a F-1 tem apenas um piloto francês: Olivier Panis, da Toyota.

A Inglaterra produziu vários campeões mundiais, mas o único que é mencionado (às vezes) entre os “grandes” é o bicampeão Graham Hill. Isto, porém, acontece mais pelo fato de Hill ser o único piloto que, além de títulos na F-1, conquistou também as clássicas corridas 24 Horas de Le Mans e 500 Milhas de Indianápolis. Áustria e a Finlândia também tiveram seus campeões mundiais, mas não se pode dizer que esses países dominaram a F-1.

Os Estados Unidos são um caso à parte: os pilotos de lá se interessam somente pelo riquíssimo (em termos de dinheiro) automobilismo interno. Daí a pouco expressiva participação americana na F-1, traduzida em apenas dois campeões mundiais -- Phil Hill e Mario Andretti, este um italiano naturalizado americano.

O Brasil, portanto, é um caso excepcional: teve três campeões mundiais extremamente talentosos em espaço de tempo relativamente curto, sendo que dois (Senna e Piquet) se enfrentaram diretamente. Mas essa fase também acabou. Analisando a trajetória de outros países, alguns com muito mais tradição no automobilismo e quase todos pertencentes ao chamado “primeiro mundo”, vê-se que os pilotos brasileiros, ao longo dos últimos 30 anos, praticamente demarcaram um território na F-1.

Desde 1970, nunca houve casos de temporadas transcorridas sem a presença de pelo menos um piloto do Brasil na categoria, com ou sem chances de vitória. Quase sempre foram dois, e em várias oportunidades mais do que isso.

Para quem acha pouco, lembro que a Argentina não tem um piloto vencedor desde 1981 e que o último argentino a correr na F-1 o fez em 1998. Por isso, o simples fato de termos um vencedor (Barrichello) e a cada ano uma ou duas promessas (como Pizzonia e da Matta este ano) já deveria ser motivo de orgulho para os torcedores brasileiros.
 

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Data de publicação: 26/4/03

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