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A paixão que leva a correr... e a viver

Alessandro Zanardi completa a prova que quase o matou
em 2001, dando-nos um exemplo de amor à vida

por Luiz Alberto Pandini - Fotos: divulgação
Luiz Alberto Pandini

“Talvez o fato de fazermos algo tão perigoso, que nos deixe tão perto da possibilidade de morrer, nos incentive a viver intensamente”

(Pete Aron, piloto de corridas interpretado por James Garner no filme Grand Prix, tentando explicar por que pilotava automóveis.)

O automobilismo e o motociclismo estão repletos de casos de pilotos que sofreram acidentes graves e voltaram a correr. O mais conhecido talvez seja o do austríaco Niki Lauda. Em 1976, ele liderava o campeonato de Fórmula 1 quando sofreu um acidente no GP da Alemanha. Foi levado ao hospital com queimaduras muito graves, com um quadro clínico tão crítico que chegou a receber extrema-unção.

Quarenta dias depois, Lauda estava a bordo de seu Ferrari em Monza -- e terminou em 4º. lugar. Perdeu o título daquele ano, mas conquistaria o campeonato (seu segundo na F-1) no ano seguinte. Parou de correr no final de 1979, voltou em 1982 e conquistou um terceiro título em 1984. Só pendurou de vez o capacete no final de 1985.

O caso do piloto italiano Alessandro Zanardi, porém, é muito mais pungente que o de Lauda e leva a uma profunda reflexão sobre a vida. No dia 15 de setembro de 2001, o campeão da CART em 1997 e 1998 liderava a corrida de Lausitzring, na Alemanha. A 13 voltas do final, parou nos boxes para um splash-and-go (reabastecimento rápido, com pequena quantidade de gasolina). Ao voltar à pista, perdeu o controle do carro, rodou e foi atingido em cheio por Alex Tagliani.

A batida no carro de Zanardi aconteceu exatamente na altura do cockpit. Naquela velocidade, nem a célula de sobrevivência poderia proteger o piloto, que teve as duas pernas seccionadas e perdeu 70% do sangue. Zanardi foi levado ao hospital, onde ficou em coma, em estado gravíssimo, durante cerca de duas semanas. Ao recobrar a consciência, Zanardi foi informado do que acontecera. Estava acompanhado da mulher e do filho, e sua reação foi esta: “Tenho você e nosso filho. Então, está tudo bem”.

Ao deixar o hospital, no final de outubro, Zanardi deu as seguintes declarações: “A vida é maravilhosa. Vou fazer de tudo para aproveitá-la da melhor maneira possível. Quero ser capaz de carregar meu filho nos ombros. Sinto-me cheio de energia. O automobilismo é importante para mim. Talvez eu volte a correr um dia”.

Ao longo de 2002, Zanardi passou a usar próteses mecânicas. Adaptou-se perfeitamente a elas e logo estava dirigindo seu carro de rua, vivendo normalmente. Até que um dia levou o filho para pilotar um kart. No final do dia, resolveu arriscar algumas voltas. E controlou o kart perfeitamente. Comentou isso com dirigentes da CART, e daí surgiu a idéia: preparar um carro especialmente para Zanardi dar 13 voltas no circuito de Lausitzring, na manhã da corrida de 2003, como se estivesse completando a corrida de 2001. O piloto italiano se entusiasmou com a idéia.

No dia 11 de maio passado, um ano e oito meses depois do acidente, Zanardi estava em Lausitzring. Pilotou um Reynard especialmente adaptado (fotos), com controles manuais de acelerador, câmbio e embreagem. A frenagem seria por pedal e foi adaptada uma canaleta para que o pé não escorregasse. Esse carro tinha pintura idêntica ao que Zanardi usava em 2001, inclusive com o mesmo número (66).

O mais surpreendente é que as 13 voltas de Zanardi foram absolutamente constantes. Da quinta volta em diante, virou tempos entre 37s6 e 37s4, dando voltas consecutivas no mesmo tempo até a casa do centésimo de segundo. A mais rápida delas foi justamente a última (37s487) e lhe daria o 5º. lugar no grid de largada da corrida que aconteceria horas mais tarde. Recebeu então uma bandeirada simbólica, como se tivesse vencido a corrida em que se acidentou.

Depois, durante uma entrevista coletiva, Zanardi comentou: “Não quis provar nada a ninguém, só dar as 13 voltas e encerrar aquela corrida. Amo pilotar. O acidente mudou minha vida, mas não penso nisso. Se alguém ligar a TV porque ficou com preguiça de ir ao supermercado e vir um cara que perdeu as pernas correndo numa pista, talvez perceba que jamais devemos nos acomodar. Foi um dia fantástico em minha vida, com o contato com a velocidade, o carinho do público e de meus colegas pilotos.”

Mais do que paixão por corridas, a história de Zanardi mostra a paixão que se pode ter pela vida. Um exemplo para todos nós.
 

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Data de publicação: 24/5/03

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