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“Talvez o fato de fazermos algo tão perigoso, que nos
deixe tão perto da possibilidade de morrer, nos incentive a viver
intensamente”
(Pete Aron, piloto de corridas interpretado por James Garner no filme
Grand Prix, tentando explicar por que pilotava automóveis.)
O automobilismo e o motociclismo estão repletos de casos de
pilotos que sofreram acidentes graves e voltaram a correr. O mais
conhecido talvez seja o do austríaco Niki Lauda. Em 1976, ele liderava o
campeonato de Fórmula 1 quando sofreu um acidente no GP da Alemanha. Foi
levado ao hospital com queimaduras muito graves, com um quadro clínico
tão crítico que chegou a receber extrema-unção.
Quarenta dias depois, Lauda estava a bordo de seu Ferrari em Monza -- e
terminou em 4º. lugar. Perdeu o título daquele ano, mas conquistaria o
campeonato (seu segundo na F-1) no ano seguinte. Parou de correr no
final de 1979, voltou em 1982 e conquistou um terceiro título em 1984.
Só pendurou de vez o capacete no final de 1985.
O caso do piloto italiano Alessandro Zanardi, porém, é muito mais
pungente que o de Lauda e leva a uma profunda reflexão sobre a vida. No
dia 15 de setembro de 2001, o campeão da CART em 1997 e 1998 liderava a
corrida de Lausitzring, na Alemanha. A 13 voltas do final, parou nos
boxes para um splash-and-go (reabastecimento rápido, com pequena
quantidade de gasolina). Ao voltar à pista, perdeu o controle do carro,
rodou e foi atingido em cheio por Alex Tagliani.

A batida no carro de Zanardi aconteceu exatamente na altura
do cockpit. Naquela velocidade, nem a célula de sobrevivência
poderia proteger o piloto, que teve as duas pernas seccionadas e perdeu
70% do sangue. Zanardi foi levado ao hospital, onde ficou em coma, em
estado gravíssimo, durante cerca de duas semanas. Ao recobrar a
consciência, Zanardi foi informado do que acontecera. Estava acompanhado
da mulher e do filho, e sua reação foi esta: “Tenho você e nosso filho.
Então, está tudo bem”.
Ao deixar o hospital, no final de outubro, Zanardi deu as seguintes
declarações: “A vida é maravilhosa. Vou fazer de tudo para aproveitá-la
da melhor maneira possível. Quero ser capaz de carregar meu filho nos
ombros. Sinto-me cheio de energia. O automobilismo é importante para
mim. Talvez eu volte a correr um dia”.
Ao longo de 2002, Zanardi passou a usar próteses mecânicas. Adaptou-se
perfeitamente a elas e logo estava dirigindo seu carro de rua, vivendo
normalmente. Até que um dia levou o filho para pilotar um kart. No final
do dia, resolveu arriscar algumas voltas. E controlou o kart
perfeitamente. Comentou isso com dirigentes da CART, e daí surgiu a
idéia: preparar um carro especialmente para Zanardi dar 13 voltas no
circuito de Lausitzring, na manhã da corrida de 2003, como se estivesse
completando a corrida de 2001. O piloto italiano se entusiasmou com a
idéia.
No dia 11 de maio passado, um ano e oito meses depois do acidente,
Zanardi estava em Lausitzring. Pilotou um Reynard especialmente adaptado
(fotos), com controles manuais de acelerador, câmbio e embreagem. A
frenagem seria por pedal e foi adaptada uma canaleta para que o pé não
escorregasse. Esse carro tinha pintura idêntica ao que Zanardi usava em
2001, inclusive com o mesmo número (66).
O mais surpreendente é que as 13 voltas de Zanardi foram absolutamente
constantes. Da quinta volta em diante, virou tempos entre 37s6 e 37s4,
dando voltas consecutivas no mesmo tempo até a casa do centésimo de
segundo. A mais rápida delas foi justamente a última (37s487) e lhe
daria o 5º. lugar no grid de largada da corrida que aconteceria
horas mais tarde. Recebeu então uma bandeirada simbólica, como se
tivesse vencido a corrida em que se acidentou.
Depois, durante uma entrevista coletiva, Zanardi comentou: “Não quis
provar nada a ninguém, só dar as 13 voltas e encerrar aquela corrida.
Amo pilotar. O acidente mudou minha vida, mas não penso nisso. Se alguém
ligar a TV porque ficou com preguiça de ir ao supermercado e vir um cara
que perdeu as pernas correndo numa pista, talvez perceba que jamais
devemos nos acomodar. Foi um dia fantástico em minha vida, com o contato
com a velocidade, o carinho do público e de meus colegas pilotos.”
Mais do que paixão por corridas, a história de Zanardi mostra a paixão
que se pode ter pela vida. Um exemplo para todos nós.
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