Menos é mais — muito mais

O Seville adequou o luxo da Cadillac à crise do petróleo e
provou que ela podia criar grandes carros sem excessos

Texto: Fabiano Pereira - Fotos: divulgação

Poucas vezes um Cadillac pôde ser tão justamente chamado de um exemplo de bom gosto. Habitual produtora de carros nos quais tudo é superlativo em tamanho, a divisão de luxo da General Motors decidiu inovar em 1975 com o Seville. Era sua primeira incursão no segmento dos “compactos”, como os americanos ainda chamavam os carros médios tão menores que seus tradicionais modelos full-size (tamanho máximo). De qualquer forma, a crise do petróleo em 1973 cobrava carros mais econômicos.

Ciente de que o Seville buscaria as vendas perdidas para marcas estrangeiras, principalmente a Mercedes-Benz, a Cadillac se empenhou para criar um carro de beleza e elegância únicas. Em vez de copiar o estilo do Velho Mundo, seus projetistas usaram proporções européias num desenho bem americano, com uma discrição e uma leveza impressionantes para um Caddy. Reto e anguloso, tinha a coluna traseira num ângulo de quase 90° em relação à cintura do carro. Seria inspiração para vários outros modelos.

Resgatando um nome da década de 50, o primeiro Seville, de 1975, tinha tração traseira, motor V8 de 5,7 litros e a peculiar coluna traseira quase vertical

O nome Seville havia sido usado antes numa versão hardtop (de teto rígido, com jeito de conversível) do Eldorado entre 1956 e 1960. Nos anos 70 pensou-se até numa versão do Opel Diplomat alemão, mas por fim a plataforma X da GM americana foi a escolhida. De tão modificada, ganhou a nomenclatura K. O carro era 68 cm mais curto, 20 cm mais estreito e 363 kg mais leve que um De Ville. Menor que os outros modelos da linha em tantos aspectos, ao menos era movido por um V8.

O motor de 5.737 cm³, potência de 180 cv e torque de 37,9 m.kgf vinha da divisão Oldsmobile, mas trazia a primeira injeção eletrônica de combustível que deu certo em um carro americano (saiba mais). A tração ainda era traseira, com eixo rígido, e os freios a tambor. Mesmo assim, choveram elogios da imprensa mundo afora, mesmo com um preço não proporcional ao tamanho: US$ 12.479. Pequeno por fora (para um Cadillac), mas requintado por dentro, ele só custava menos que a edição limitada Fleetwood 75.



Embora 68 cm mais curto que o De Ville, era um Cadillac sofisticado, com muitos
itens de conforto elétricos, mas que passaria por dificuldades com erros do fabricante

Sua lista de equipamentos incluía comandos elétricos em praticamente tudo. Até iluminação para encontrar a fenda da chave na porta era oferecida. Em 1977 chegavam os aguardados freios a disco; em 1978, a versão Elegante vinha em duas cores sobrepostas. Tantos recursos levaram a Cadillac a sua meta: as boas vendas, 53.487 em 1979, estragaram a alegria dos europeus — mas só por algum tempo. Logo seus méritos passariam por uma prova de fogo com algumas estratégias equivocadas do fabricante.

Primeiro foi o V8 a diesel, de mesma cilindrada, com modestos 105 cv e 28 m.kgf, complicado e pouco confiável. Vinha de série no Seville 1980, ao lado do opcional a gasolina. Um ano depois o novo "V8-6-4" de 6.031 cm³, 140 cv e 36,5 m.kgf, que desligava dois ou quatro dos cilindros conforme a solicitação de uso. Funcionava tão mal que muitos motoristas cortavam os fios do computador responsável pela função, para usar sempre oito cilindros. Por fim, em 1982, um novo V8 de 4.081 cm³, 125 cv e 27,6 m.kgf dava ao Seville o motor que ele merecia. Continua

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Data de publicação: 18/11/03

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