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Cobras para todos os gostos

A AC, que criou a base para o lendário roadster,
faz 100 anos e mantém o mito em produção

Texto: Marco Antônio Oliveira - Fotos: divulgação

Bastardo. Essa palavra, em desuso devido a outros adjetivos de baixo calão mas de sentido próximo, é perfeita para definir o Cobra. De que mais poderíamos chamar um velho roadster inglês (o AC Ace de 1951) modificado por um texano boquirroto radicado na Califórnia (Carroll Shelby) usando os motores e o financiamento de uma marca popular dos EUA (a Ford)?

Apesar de sua origem nada nobre, o Cobra continua, nesse início de século XXI, a fascinar todos nós. Inúmeras cópias apareceram desde o fim de sua produção, mundo afora (incluindo a brasileira Glaspac), e continuam a aparecer. O que poucos sabem é que o carro original, salvo uma pausa de 1967 até 1984, continua em produção até hoje. E a AC, que o fabrica, deve quase que exclusivamente ao Cobra o fato de estar completando um século de atividade este ano.

Do pacato roadster AC Bristol dos anos 50 (ao lado) até os Cobras recentes, como o Superblower (no alto), uma evolução que fascina milhões pelo mundo

É interessante notar que em 1986, três anos antes da apresentação do Dodge Viper como carro-conceito, Bob Lutz (então chefão da Chrysler) comprou um AC Cobra Mk IV e não se cansava de fazer aparições públicas e "entusiasmadas" com o carro. Com certeza, aquele Mk IV -- ainda hoje na garagem de Lutz -- foi a semente que gerou o Viper.

Mas por que se preocupar em criar um Cobra moderno, se o original ainda está disponível? E melhor: nos últimos anos a AC tem lançado versões do carro para todos os gostos -- mecânica moderna, mecânica tradicional, novos Cobras, velhos Cobras, cupês... O crescimento das vendas indica uma empresa em franca expansão, que não deve mais ser considerada apenas uma relíquia do passado. 

Cem anos de AC   Quem poderia imaginar hoje uma fábrica de automóveis nascendo com o financiamento de um açougueiro? Mas o mundo era diferente no início do século passado, e foi para um açougueiro -- John Portwine, cujo açougue continua operado por sua família, em Covent Garden, Londres -- que John Weller, mecânico autorizado da DeDion Bouton na Inglaterra, pediu dinheiro para produzir seu próprio automóvel. Desta forma nascia, em 1901, a empresa que conhecemos hoje como AC. O nome veio de um triciclo de carga de grande sucesso, o AutoCarrier, produzido a partir de 1904.

Um dos primeiros AC, no início do século, e o Ace de 1956: tradição

Em 1919, a pequena empresa de Thames Ditton lançou um pequeno motor seis-em-linha de apenas 2,0 litros de cilindrada e comando de válvulas no cabeçote, avançadíssimo para seu tempo. Esse motor a colocaria em condições de produzir carros-esporte. O primeiro deles foi o 16/80 da década de 30, um atraente roadster conhecido pela agilidade e excelência de seu propulsor.

Em 1951 a AC lançou o carro mais importante de sua história, o Ace. Esse pequenino roadster apresentava, em suas versões iniciais, desconfortável semelhança com os primeiros Ferrari 166 Barchetta, mas era tão bom que até hoje estão sendo lançadas versões diferentes dele, como veremos mais adiante. O Ace era um excelente carro em todos os quesitos, exceto um: o motor.

Inicialmente, a AC o oferecia apenas com uma versão de seu venerando 2,0-litros, com três carburadores SU e 90 cv de potência. Aquele motor, já naquela época, estava velho demais. Sem dinheiro para investir em um novo, a AC resolveu comprá-lo de terceiros, o que gradualmente acabou com seu propulsor próprio. Foram oferecidos o Ford Zephir de 2,6 litros e comando no bloco e o Bristol (um BMW modificado) de 2,0 litros, ambos seis-em-linha. Continua

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