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O veneno da víbora

Potente, agressivo, quase brutal, o Dodge Viper
mantém aficionados pelos supercarros americanos

Texto: Fabrício Samahá - Fotos: divulgação

Quando o Dodge Viper foi mostrado como carro-conceito, no Salão de Detroit de 1989, GM e Ford -- fabricantes de mitos norte-americanos como Mustang, Camaro e, sobretudo, o Corvette -- talvez não imaginassem que a Chrysler teria ousadia o bastante para colocar nas ruas um esportivo de linhas tão agressivas e motorização tão avantajada. Ela teve.

Lançado no mesmo salão em janeiro de 1992, em configuração aberta (o roadster R/T 10, sigla para road and track, ou estrada e pista, e o motor de 10 cilindros), o Viper -- víbora em inglês, nome que não poderia ser mais apropriado -- angariou uma legião de fãs e conquistou seu lugar entre os carros mais carismáticos do mundo. Em janeiro de 1993 era apresentado o cupê GTS, produzido a partir de junho de 1996.

O conceito mostrado no Salão de Detroit de 1989 parecia impraticável, mas suas linhas se repetiram em muito no Viper de produção
Começa-se a entender esse sucesso ao primeiro olhar: capô longo, faróis afilados, saídas de ar nas laterais e à frente do pára-brisa, a grade Dodge de quatro motivos, os bancos quase sobre o eixo traseiro. O estilo do Viper, inspirado em antigos esportivos norte-americanos (como os Corvette de outrora e, em particular, o Cobra de Carrol Shelby -- leia história), transmite força e velocidade em doses cavalares.

Embora pareça enorme, tem o comprimento de um Vectra -- já o entreeixos é curto, similar ao de um Corsa. A traseira baixa e arredondada do roadster recebeu no cupê um volumoso spoiler, enquanto o bocal de abastecimento tornou-se similar ao de carros de competição. O coeficiente aerodinâmico (Cx) melhorou muito com a inclusão da capota: de 0,55 para 0,35. A área frontal, em contrapartida, passou de 1,79 para 1,9 m2.
As primeiras séries do Viper eram esportivos puros, sem concessão ao conforto: não havia capota, janelas ou maçanetas externas. Os escapamentos com saídas laterais e as rodas de três raios os identificam
O primeiro Viper, produzido de 1992 a 1995, era um esportivo puro, sem concessões ao conforto. Não tinha capota (apenas uma cobertura de lona ligando o pára-brisa à barra colocada após os bancos), vidros (só cortinas plásticas, como no mais rude jipe), ar-condicionado e maçanetas externas (abriam-se as portas diretamente por dentro). Curiosamente, por força da legislação norte-americana, possuía travas internas, mesmo que acessíveis por fora...

Essa série, que pode ser identificada pelas rodas de três raios e escapamentos saindo pelas laterais, pouco antes das rodas traseiras, extraía 400 cv do motor V10. Com a chegada do cupê GTS, o roadster passou a adotar sua suspensão e chassi aprimorados, rodas de cinco raios e saídas traseiras de escapamento, que trouxeram um ganho de 15 cv. O som do motor também melhorou, pois as saídas laterais tinham grande restrição para atender às normas de ruído vigentes nos EUA.
O motor V10 de oito litros era um projeto para picapes pesados. Refeito em alumínio, garante 455 cv e torque gigantesco ao Viper
O restante da potência do cupê -- 455 cv -- chegaria ao roadster apenas no modelo '98, que também ganhava conforto e segurança. Um teto rígido em material composto podia ser acoplado, as portas recebiam janelas (com controles elétricos) e maçanetas externas, de acionamento eletrônico, e o interior trazia duas bolsas infláveis. Outro recurso emprestado do GTS eram os pedais ajustáveis, no melhor estilo de competição. Continua
A gestação de um mito
Final de 1987 - Aparecem alguns esboços de um roadster com motor grande no Estúdio de Desenho Avançado da Chrysler.
Fevereiro de 1988 - O presidente da empresa, Bob Lutz, sugere que o vice-presidente de desenho, Tom Gale, desenvolva uma versão moderna do Shelby Cobra (leia história).
Último trimestre de 1988 - É concluído um modelo em clay (argila) do novo carro-conceito. Lutz aprova.
Janeiro de 1989 - Surge o Viper conceitual no Salão de Detroit. O público, eufórico, envia correspondências à Chrysler pedindo sua produção em série.
Março de 1989 - O engenheiro-chefe Roy Sjoberg compõe o Team Viper, de 85 engenheiros, que passam a estudar o desenvolvimento de veículos de produção reduzida.
Maio de 1989 - É contratada a Lamborghini Engineering -- a marca italiana pertencia à Chrysler na época -- para auxiliar na adaptação do motor V10 de oito litros, do futuro picape T-300, ao uso esportivo.
Terceiro trimestre de 1989 - Uma carroceria adequada à produção em série é finalizada. Apesar de amplamente modificada em relação ao carro-conceito, as linhas agressivas se mantêm.
Dezembro de 1989 - O primeiro Viper para desenvolvimento de chassi já roda, com um motor V8 provisório.
Fevereiro de 1990 - Um motor V10 é aplicado a um Viper para testes.
Maio de 1990 - Depois de andar em um protótipo com o engenheiro Sjoberg, o presidente da empresa, Lee Iacocca, diz o que todos gostariam de ouvir em Detroit no ano anterior: "fabriquem-no!"
Maio de 1991 - Carroll Shelby, o criador do Cobra, pilota seu virtual sucessor em Indianápolis.
Novembro de 1991 - Jornalistas têm o primeiro contato com Vipers de pré-série, em ruas e pistas de competição.
Janeiro de 1992 - O Viper chega às ruas; as 200 primeiras unidades já têm data de entrega, sendo seguidas por 2.000 no ano seguinte. O projeto consumiu US$ 50 milhões, menos do que uma reestilização de um modelo de grande produção.

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