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I*
P — O que é
a Literatura erótica?
BM — Eros oferece
o corpo à sua amada Psiqué, mas ele só o faz
no escuro, exige que Psiqué não o veja e aceite esta
condição. Eros se furta para fazer imaginar. A Literatura
erótica coloca em cena o corpo de modo a fazer o leitor,
imaginando, se transportar para uma outra cena, se entregar aí
à experiência do corpo que ele deseja viver. Considere-se,
por exemplo, o texto que segue, extraído de As canções
de Bilitis, de Pierre Louys: "Ela entrou e, olhos semifechados,
uniu, apaixonadamente, aos seus lábios os meus. As nossas
línguas então se conheceram... Nunca antes conheci
na vida um beijo igual àquele." O episódio conta menos
pela descrição dos fatos do que por remeter o leitor
à própria experiência do beijo inigualável
e assim o levar para uma outra cena.
P — O que diferencia
a Literatura erótica da pornografia?
BM — A Literatura
pornográfica fere deliberadamente o pudor para conquistar
o mercado e não é Literatura precisamente por uma
razão estética. A pornografia funciona através
da sugestão, enquanto a Literatura erótica inflama
a imaginação por expor o leitor à sua falta.
No primeiro caso o leitor está sujeito a imperativos, ele
é, por assim dizer, objeto do desejo de um outro. No segundo
caso, o leitor é entregue pelo texto ao seu desejo, ele é
sujeito do próprio desejo.
P — A Literatura
erótica seria a que não apresenta o sexo de maneira
explícita?
BM — Se eu
disser que sim, estarei afirmando que A filosofia do Boudoir,
de Sade, por exemplo, não é Literatura erótica,
o que seria um absurdo. Não há nada mais explícito
do que o texto de Sade e, no entanto, é de Literatura erótica
que se trata, porque o tratamento do tema é literário,
as razões estéticas é que são determinantes.
P — O que significa
a Literatura erótica num mundo onde, em princípio,
inexiste censura e tudo pode ser dito?
BM — Não
é verdade que não existe censura e tudo pode ser feito
ou dito. A revolução sexual dos anos 60 liberou o
corpo para o orgasmo e a ejaculação, mas não
o liberou para a carícia e recalcou os dizeres do amor e
do erotismo. Os imperativos da revolução sexual de
certa forma são contrários à erotização
do corpo, que não se dá bem com a idéia de
um desempenho sexual segundo um padrão pré-fixado.
A dita revolução
promoveu o sexo, mas o colocou dentro de um espartilho. Ela prescreveu
as formas de relacionamento sexual e cortou a possibilidade de se
imaginar formas novas. Ela cortou o corpo da alma e com isso fez
a pornografia desabrochar.
Só o
erotismo pode juntar o corpo e a alma, liberar o corpo e o sujeito
para o seu desejo. O erotismo é que nos humaniza.
Nós
brasileiros temos uma grande tradição erótica
e existe na nossa Literatura uma grande expressão desta tradição,
que é Macunaíma, o herói da nossa gente. Ele
faz pouco do desempenho sexual; chega a parar, esquecido, no meio
da transa. A ponto mesmo de Ci, a companheira, ter que se valer
do que ela chama o estratagema sublime, uma urtiga, uma coça-coçadeira
que ela sapecava no chuí do herói e no nalatchitchi
dela.
Macunaíma
jamais aceitou o sexo de espartilho, a obrigação de
ejacular. Ele se erigia para brincar e, com isso, vivia só
rindo para a sua companheira.
Nós
pertencemos à cultura erótica do riso, ou, para dizer
isso de forma bem brasileira, à cultura erótica do
brincar.
P — O que significa
uma Literatura erótica nestes tempos em que a sexualidade,
sob o pretexto de segurança, deve ser vivida dentro de limites
pré-fixados?
BM — A Literatura
erótica não existe para que a sexualidade seja vivida
de uma ou de outra maneira, e eu nem mesmo diria que ela existe
para que a sexualidade seja imaginada. O "para" não diz respeito
à Literatura, cuja única meta é a Literatura.
Verdade que o gênero erótico desperta a fantasia sexual
e que certas práticas são hoje desaconselhadas, mas,
a menos que se confunda o imaginário com o real, tanto faz
estarmos sujeitos ou não a limites pré-fixados por
causa da Aids. Imaginar não é praticar, e talvez seja
necessário imaginar mais quando estamos fadados a praticar
menos.
______________
*Folha de
S.Paulo, São Paulo, 31 jul. 1994. Mais!, p. 6-10.
^
II*
P — Em 1991
você lançou O Papagaio e o Doutor, um romance
centrado na questão da imigração. Agora você
está lançando um livro erótico. O que a levou
a isso?
BM — O Papagaio
foi um livro difícil de fazer, eu nele lidava com muitas
variáveis, a história da imigração,
a relação que nós temos com a língua,
a experiência analítica... Depois de ter escrito O
Papagaio, eu passei a colaborar na versão do livro para
o francês e então, para compensar o esforço,
comecei a escrever o texto mais brasileiro que eu podia escrever,
o mais próximo da sensibilidade que eu tenho, a nossa, a
brasileira, um texto poético.
A paixão
de Lia me repousava, eu com ela me permitia sonhar. Às
vezes era uma frase por dia, eu fazia e refazia, sem a preocupação
de chegar ao fim, um trabalho de bordadeira ou de quem faz renda
de bilro. Escrevia pelo prazer, como quem ouve música. Ao
mesmo tempo, lia a Literatura erótica francesa. Quanto mais
eu lia, mais me convencia de que era preciso inventar outra coisa,
um erotismo que não estivesse ligado à transgressão
e à violência, um erotismo delicado.
P — Como foi
que você concebeu o livro e como o construiu?
BM — Tive vontade
de escrever um livro erótico e simplesmente comecei. Não
parti de uma história e de uma intriga, mas de palavras.
Isso obviamente me obrigou a retrabalhar o texto até que
a intriga, que é extremamente simples, ficasse clara.
A Lia é
uma personagem cuja realidade é a da fantasia dela, Lia nunca
se desvela inteiramente. Talvez por isso mesmo ela seja exemplar.
Os votos de
ter um amante, de ter vários, de ser uma cortesã,
de ser lésbica ou de ser mãe são os votos em
que eu me reconheço, e é possível que isso
ocorra com a maioria das mulheres, porém o que importa é
a forma através da qual cada voto se realiza, é ouvir
a voz que percorre o texto e fazer a viagem que ele propicia.
P — O que te
levou a escrever um livro de Literatura erótica?
BM — Talvez
tenha sido a censura que pesa sobre as palavras. A revolução
sexual dos anos 70 liberou as mulheres para as mais diversas práticas
sexuais e resultou numa proliferação de imagens dessas
práticas, que são exibidas em centenas de vídeos,
mas ela não autorizou a expressão verbal das fantasias
sexuais. O imperativo da revolução foi: FAÇA
MAS NÃO DIGA. Ela só liberou o corpo separando-o da
cabeça e, assim, favoreceu por um lado o discurso repetitivo
dos sexólogos e, por outro, a pornografia; o que não
deixa de ser uma forma de controle da sexualidade, evitando com
isso o risco do novo. Sexologia e pornografia são contrárias
ao erotismo, que requer a fantasia e pode, por isso mesmo, fazer
a sexualidade se renovar incessantemente.
P — No seu
livro, quem fala é Lia, uma mulher. Por quê?
BM — A Literatura
erótica existente foi escrita por homens e a maioria deles
se inspirou na obra de Sade. Trata-se de uma Literatura moldada
pela forma masculina do gozo, em que o orgasmo e a ejaculação
são imperativos. As personagens femininas da obra de Sade
falam do seu gozo exatamente como as masculinas.
O que me interessava
era escapar do modelo libertino, em que a sexualidade é sempre
perversa e não se concebe sem o chicote, o sangue, a urina,
as fezes e as lágrimas. No Paixão de Lia a
sexualidade não se dissocia do amor e não é
perversa, ninguém é obrigado a gozar, o único
imperativo é o prazer. A carícia importa tanto quanto
o orgasmo. A personagem talvez seja uma mulher por isso, por se
tratar de uma ótica que hoje é feminina, mas pode
obviamente se tornar masculina.
P — Por que
fazer uma leitura de textos eróticos?
BM — Porque
é necessário conquistar o direito de dizer o que a
Literatura produz e o texto erótico é parte da Literatura.
O direito em questão está cada vez mais ameaçado
no mundo inteiro e é por isso que agora existe o Parlamento
Internacional dos Escritores, do qual Salman Rushdie participa ativamente.
Sem a liberdade da palavra e da Literatura, a civilização
não existe. A expressão do erotismo através
de palavras foi e é decisiva em todas as grandes culturas.
A cultura indiana é inconcebível sem o Kamasutra,
por exemplo.
Todos os grandes
artistas se debruçaram sobre o erotismo. Os desenhos eróticos
do Picasso são momentos artísticos essenciais na obra
dele. O erótico inspira porque ele permite escapar à
monotonia da sexualidade crua e nua.
O texto erótico
é usualmente censurado, mas ele pertence à Literatura
e deve poder ser dito. A leitura de textos eróticos faz parte
da tentativa de conquistar o direito de dizer o que a Literatura
produz, direito hoje ameaçado no mundo inteiro. A condenação
de Salman Rushdie por causa dos Versos Satânicos é
apenas um exemplo disso.
P — Até
que ponto e como a personagem Lia cedeu espaço para que a
Betty Milan expusesse seus desejos eróticos?
BM — Poderia
dizer que Lia sou eu, como Flaubert disse que ele era Bovary. O
autor se vale do seu personagem para expressar desejos que não
tem como realizar na vida real. Porém, o que importa num
texto literário é alcançar, através
do personagem, uma dimensão estética inexistente na
realidade. A experiência da sexualidade no Paixão
de Lia é sempre poética e, conseqüentemente,
o erotismo está presente o tempo todo. Como diz Octavio Paz,
no seu último livro, A dupla chama, o erotismo é
uma poética corporal. Era essa poética que me interessava
enquanto eu escrevia, me deliciando com o fato de poder imaginar
livremente, de maneira diversa das que eu até então
conhecia através dos livros. Até certo ponto eu escrevi
Paixão de Lia por ter lido a Literatura erótica
francesa e por querer algo radicalmente diferente, um sexo delicado
que nada tivesse a ver com a perversão e sobretudo com o
sadomasoquismo. No bordel imaginado por Lia, o Fugitivo, não
corre sangue e não tem chicote.
P — Lia leu
o livro? Sabia que você usaria as suas estórias numa
obra de ficção?
BM — A sua
pergunta supõe que eu tenha me inspirado na história
de uma pessoa conhecida, mas eu só me vali da imaginação,
como eu digo no pequeno texto introdutório do livro.
Lia é
uma personagem com quem vivi durante dois anos. Aparecia de costas
expressando alguma fantasia erótica. Quis fazer dela personagem
de uma intriga, porque não tinha nenhuma realidade que não
fosse a da própria fantasia. Desisti então do meu
projeto inicial e deixei a Lia existir só através
do que ela diz, das palavras.
A história
da Lia é a da passagem de uma à outra situação
em que ela, imaginando, realiza o que deseja. A cada situação
corresponde um voto. O primeiro voto é o de encontrar um
amante, o ideal. O segundo é o de encontrar num bordel os
substitutos do amante ideal. O terceiro é o de ser uma cortesã.
O quarto, de ser lésbica e o quinto, de ser mãe.
P — Você
se baseou na sua experiência analítica para escrever
A paixão de Lia?
BM — Foi graças
ao fato de ter me submetido longamente à análise que
eu conquistei a liberdade de imaginação e de expressão
atuais. Foi o divã que me permitiu lançar A paixão
de Lia. Como já disse, talvez tenha sido assim, porque
a revolução dos anos 70 liberou as práticas
sexuais, porém não as palavras, que continuaram censuradas.
Ela liberou o corpo para o orgasmo e a ejaculação,
mas recalcou os dizeres do amor. Até certo ponto foi uma
revolução antierótica porque separou o corpo
da cabeça, e o resultado disso foi a multiplicação
das revistas e filmes pornográficos.
P — Você
escreve poesia?
BM — Devo ter
escrito umas vinte poesias na vida, quase nada, quase nada. Publiquei
vários livros, cuja prosa é poética, porque
ela nasce assim. Até quando escrevo para jornal fico presa
ao ritmo, que de uma maneira ou de outra tem que se realizar. Chego
mesmo a cortar informações importantes por não
ter conseguido passá-las sem quebrar o ritmo do texto.
P — Quando
foi que você escreveu Paixão?
BM — Paixão
é um interlúdio que escrevi adaptando para o teatro
um capítulo do meu livro sobre o amor, Os dizeres do Amor.
O personagem passa da ilusão à desilusão do
amor evocando grandes textos da lírica portuguesa e brasileira:
Camões, Pessoa, Drummond... Escrevi a peça por desejar
que a nossa lírica voltasse a ser ouvida e nós nos
déssemos conta da grande poesia que temos. Ainda não
vi a interpretação de Nathália Timberg, mas
li nos jornais. A direção é do Wolf Maia. Estou
curiosa para ver o que fizeram.
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* O Globo,
Rio de Janeiro, 4 set. 1994. Livros, p. 6.
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